Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 26, julho & agosto de 2010

Vimeo Youtube Orkut Facebook Twitter RSS Podcast do Aguarras
12/4/2007

O cheiro do ralo

O filme tem uma vantagem que deve ser dita logo de cara: não precisou pegar poeira barrenta do sertão nem subir favela para ser bom. Ele é urbano, foi ambientado em São Paulo e não apela para o clichê da selva de pedra sufocante.

O cheiro do ralo conta a história de Lourenço (Selton Mello), o dono de uma loja que compra objetos usados. Seu papel como comprador é pagar o menos possível pelo objeto para conseguir um bom negócio. Já quem vende tem a opção de barganhar um preço mais alto ou se deixar desvalorizar pelo papo do comprador. Para lucrar, Lourenço desenvolveu uma frieza técnica que o faz desprezar as histórias dos objetos e o problema de quem está vendendo, frieza levada também para a vida pessoal. Soma-se ao capitalismo de entranhas o encanamento entupido no banheiro, que deixa a loja empestada pela fedentina de esgoto e obriga Lourenço a explicar para os clientes que o cheiro não vem dele, mas do ralo.

O filme avança com a transformação interior de Lourenço (que vez por outra extravasa, transborda, suja o banheiro inteiro) e acompanha suas reações na expansão da fronteira capitalista de seu reinado até a lanchonete. É lá que ele conhece a bunda.

Explico.

Todo dia Lourenço passa lá para lanchar e olhar para a bunda da garçonete, de quem nem sabe o nome, por mais que ela sempre diga. Ele lê, pede sanduíche, reclama da vida, tudo para passar o máximo de tempo perto da bunda. O ápice do ritual acontece no instante (breve) em que a garçonete precisa se abaixar para pegar o refrigerante e então ele vê… Você já sabe.

Enquanto decifra a estranha relação de poder com a garçonete, Lourenço descobre em si o afeto, e isso vai contra o seu método maquinal de pensar e agir. A esquisitice aumenta ainda mais com a compra de um olho de vidro, a quem ele quer apresentar a bunda, fechando a linha de raciocínio da coisificação de um lado e invertendo o pragmatismo capitalista do outro. Sim, a bunda, o olho e o ralo estão intimamente relacionados.

Filosofias de Lourenço: ele come a comida estragada da lanchonete para ver a bunda, usa o banheiro, o ralo entope e vem o cheiro que, de repente, é dele mesmo.

O cheiro do ralo é uma crítica a coisificação do mundo. Na primeira etapa, temos a coisificação dos objetos. O cordão que vovó comprou na Europa e usou a vida inteira e me deu de presente de casamento torna-se vinte reais ou se manda daqui. O violino raro tocado em festas e apresentações internacionais transforma-se em trinta. Trinta e cinco e não se fala mais disso. Saindo da loja, temos a coisificação das pessoas, a bunda sem nome, o olho. O próximo passo, nós sabemos. Vivemos nele. A conseqüência dita natural.

Como dito na sinopse oficial, O cheiro do ralo é pontuado por um humor cínico, que faz rir de nervoso. Selton Mello está perfeito no papel, Suzana Alves faz uma ponta curiosa (ela, a Tiazinha, o símbolo da…) e o roteiro é bem-amarrado e contido, explorando apenas 3 locações (a casa de Lourenço, a lanchonete e a loja, que a bem da verdade é um mundo completo). Destaque também para a fotografia amarelona e a trilha sonora, disponível no site oficial.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.