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Medéia e o futuro incerto

Traço_observações sobre Medéia é o nono espetáculo do Grupo Odradek em seu sexto ano de atividade. Dessa vez o autor e diretor Fábio Ferreira traz ao palco do Teatro de Arena do SESC Copacabana uma releitura do mito de Medéia e Jasão. Não são incomuns no teatro contemporâneo tais desconstruções e releituras de obras ou personagens famosos da literatura, dramaturgia ou mitologia. Chico Buarque, Paulo Pontes, Heiner Müller, Bertolt Brecht, Jean Cocteau e diversos outros já o fizeram. Raro é o dramaturgo contemporâneo que não tenha revisitado os arquétipos clássicos. Muitas vezes, reaparecem conscientes de sua importância histórica, amparados pela psicanálise ou com noção sócio-cultural de suas funções e seus desvios.

Traço_observações sobre MedéiaNum cenário insólito e instigante (do próprio Fábio Ferreira), sobre um pequeno tablado circular rodeado de caixotes de feira, cebolas, ervas, acessórios de vestuário, e sob uma lona-aquário na qual peixes nadam indiferentes durante toda a representação, Jasão – de pijamas e fumando – se anuncia como o herói, com voz pouco animada. Já temos noção de que o tom geral da encenação será inusitado. O famoso herói, já tendo recuperado o Velocino de Ouro, passa agora o tempo realizando tarefas inúteis, e expondo seu fracasso. Espalha e recolhe mapas, tecendo comentários sobre o futuro incerto. Essa parece ser uma das chaves de significação do espetáculo: a incerteza em relação ao que virá. Nossa incapacidade de prever o futuro e nossa teimosia em não compreender as trilhas e exemplos deixados por gerações anteriores ou por nossa própria experiência faz com que repitamos eternamente os mesmos equívocos. Oscar Saraiva acerta no tom que dá a esse novo Jasão, ora displicente ora patético, muitas vezes angustiado com o abismo sobre o qual se debruça. O deboche é sua arma.

Traço_observações sobre MedéiaLogo entrará em cena Medéia, antecipada por seus gritos e desaforos contra Jasão. Quase “afogada” por duas garrafas d´água, anuncia: “eu sou o espetáculo”. O mito virá se lavar em cena? Livra-se de um vestido de noiva que permanece ereto mesmo sem um corpo que o sustente - a instituição do casamento cisma em ficar de pé, mesmo quando não há mais nada que a ampare. Marina Vianna é ágil, irônica e inteligente em sua concepção de Medéia. A personagem vem desabafar, argumentando que Agamêmnon, tendo assassinado sua filha Ifigênia, não é lembrado por esse ato infame; e que Clitemnestra não matou a filha Electra, quando tinha todos os motivos para fazê-lo. Apenas ela, Medéia, é lembrada como a mãe-assassina. O tom desse desabafo é burguês, ocidental, contemporâneo, quase leviano. De vez em quando, cantarola em francês, enquanto Jasão a enjaula com os caixotes.

É mesmo desconcertante o teatro contemporâneo. Seu grande problema, muitas vezes, é a (aparente) falta de significação de alguns dos signos empregados – por que se veste e torna a se despir inúmeras vezes Medéia? Por que coloca uma meia-calça na cabeça? Por que espalha ervas pelo palco? Por ser feiticeira? Ações são feitas e desfeitas sem uma motivação óbvia. Devemos nós exigir motivações para a ação cênica se a realidade parece tão insólita? A vida é incompreensível, a realidade é enigmática, e falta sentido em nossas ações diárias, mas o palco deve suprir a ausência de sentido da vida? A grande pergunta do teatro atual não é mais “o que será que vai acontecer?”, mas “o que é que está acontecendo?”. E assim se dá com Traço_observações sobre Medéia. Aos poucos vamo-nos aproximando – ou pelo menos tentando nos aproximar – das razões que teriam levado o autor a essa releitura. O sentido de algumas cenas é mais obscuro, como o depoimento de duas Medéias – uma delas travestida – onde a verborragia do texto dificulta a compreensão. Mas, de forma geral, não são estéreis as observações sobre essa Medéia.

Traço_observações sobre MedéiaA direção de Fábio Ferreira conduz elenco e ficha técnica por caminhos inusitados, mas o terreno é firme. Consegue extrair imagens plásticas instigantes do mar de signos empregados, e apesar do tom debochado e cáustico, o espetáculo toca no trágico. Ou no seu arremedo contemporâneo. Talvez a peça ficasse melhor sem a cena das duas Medéias caricatas, ou então falte ainda achar o tom certo – se é que ele existe. O figurino de Luisa Macier se afina com a direção, lançando um olhar contemporâneo sobre os mitos: veste Medéia uma camisola preta sob um vestido de noiva rígido, e Jasão – herói cabisbaixo – enverga pijama listrado e chinelos. O coro de senhoras veste-se sobriamente, mas utiliza prosaicos brincos – um detalhe. As Medéias das caixas de remédio usam um debochado vestido vermelho, óculos escuros e perucas – dando um tom caricato à cena menos feliz da peça. A iluminação de Renato Machado é inteligente. Cria sempre novos focos de atenção, nunca é óbvia e aproveita bem a beleza plástica da cenografia e de algumas cenas. A direção musical de Domenico se sai bem: as composições são tocadas por Benjão e acompanhadas por voz e instrumentos alternativos do coro de senhoras da Trupe Solidária. O resultado é interessante – lembrando as trilhas sonoras de filmes de ficção científica e emprestando um tom insólito ao conjunto.

Em cena, Medéia borra-se de baton, usa meia-arrastão e tem, como Lady Macbeth, as mãos manchadas de sangue. Descasca cebolas, mas não sabe mais temperar. Jasão não sente gosto em sua comida. Ela promete: “em breve sentirás”. Sabemos que a heroína tentará envenenar a atual e insípida noiva de seu ex-marido. Mas sua ação mais criminosa será assassinar os próprios filhos para se vingar de um homem que cuspiu fora os caroços depois de ter sugado a fruta até o bagaço. Em cena, dois bonecos de cera – os filhos de Jasão e Medéia – ardem como velas. Medéia perdeu sua imagem, não tem mais a vitalidade da juventude, mas ainda menstrua. Encarna a angústia das mulheres maduras que ainda podem reproduzir. Se soubesse antes, Medéia teria errado tanto? E nós? Mesmo sabendo, repetiríamos nossa trajetória, repisando os mesmos erros? A História está aí para nos provar. Jasão não é menos patético. Sabe que construiu sua fama sobre pouco, ou como ele próprio diz, “sobre a merda e pela merda”. É, portanto, um herói de merda, como tantos outros nossos conhecidos: políticos, empreendedores, líderes, desbravadores. Medéia, culpada e arrependida, ouve os gritos de suas vítimas que não dão paz à sua consciência. Então, ela tem consciência? Não é, enfim, tão bárbara como acusa Jasão. Medéia, a mulher-bomba, é bárbara, no sentido em que não compreende como se constrói a civilização. Alguma semelhança com os bárbaros suicidas dos recentes conflitos internacionais? A qual civilização ela parece bárbara? Bárbara ou civilizada, Medéia parece não resistir às novas investidas de Jasão, que a chama como a uma cadela. Medéia abana o rabo, mas corre como uma loba atrás de um Jasão sem fôlego e acima do peso. O coro aplaude. Os heróis erram de forma compulsiva, mas se perguntam: “isso tudo não era para ter terminado lá embaixo?”. Se eles não sabem amar… saberemos nós? Ou mataremos eternamente o objeto de nosso afeto? Veremos nossos filhos queimarem como velas diante de nossos olhos? Pressionaremos continuamente nossos cônjuges, aos pés do altar? Quando Jasão diz que vai deixar o lar, Medéia ameaça: “Experimenta!” Ah, se soubéssemos antes! Casaríamos? Trairíamos? Jasão revela sua visão: corpos deitados sobre o futuro incerto. Medéia desabafa: “quando acordo, o absurdo é tão grande que eu desejo espancar tudo e qualquer coisa”. Nossas Medéias ainda vivem, dentro e fora de nós.

 

 

 


Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.

 

editoria: edicao_0006, teatro, em 13/4/2007

 

 

 

 

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