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Maria Antonieta vai ao shopping

Pré-início. Maria Antonieta deitada em um divã olha para a câmera. Olha através dela, enxerga o público. Kirsten Dunst enxerga tão bem quanto Marie. Seu sorriso é meio atriz, meio personagem. É uma quebra de diegese. Um sinal de que o filme trará história e linguagem em pesos iguais. Não estamos separados pela tela. Não estamos separados pelo tempo nem pelo espaço. Nem nossas roupas são diferentes. Maria Antonieta vai ao shopping, usa bolsa Prada, tem um cabeleireiro de estimação badalado entre as celebridades, seu penteado lança moda, adora festas, aposta em cassinos e os paparazzi não a deixam em paz. Minto. Maria Antonieta seria assim se vivesse hoje, no mítico e melancólico século XXI das estrelas de rock e de Hollywood. Na corte francesa de seu marido, o Rei Louis XVI, Maria é excêntrica por querer aplaudir as óperas, gostar de arte e de dar festas. Uma menina que casou aos 14 anos com um delfim adolescente e que sentiu o peso da inexperiência na forma de uma guilhotina, 5 anos depois.

Maria AntonietaO filme de Sophia Coppola dividiu críticos. Parte da culpa não é do filme em si, mas do anterior, Encontros e Desencontros (Lost in Translation) que virou cult, ganhou Oscar de melhor roteiro e criou uma expectativa sobre qual seria o próximo projeto. Um desses filmes que todos elogiam, mesmo que a maioria não saiba o motivo. Ele custou US$ 4 (sempre em milhões) e arrecadou quase US$120. Analisando números, o primeiro longa da diretora, Virgens Suicidas, custou US$9 e arrecadou US$10. Maria Antonieta foi seu projeto mais caro (filmes de época geralmente o são), custando US$40. Até agora, arrecadou US$60 nas bilheterias.

Maria AntonietaSophia Coppola fez algumas apostas de risco. Maria Antonieta é longo (2h30) e contemplativo. Muita gente pode sair do cinema achando que nada aconteceu, apesar do roteiro incluir todos os acontecimentos históricos mais conhecidos da história da rainha. Lembre que o que move um filme é a transformação e não a ação. Vemos o casamento com Louis, o envolvimento com um possível amante, o financiamento da guerra americana, os problemas para se adaptar aos modos franceses e a fuga do palácio invadido pela plebe. A guilhotina não existe. É transformada em uma frase e um plano. Só desce na imaginação do espectador com conhecimento histórico. Dever de casa cumprido, resta a tal da linguagem, os pequenos truques de direção, produção e edição que nos lembram de que ali não há verdade crua. Nem ali na tela do cinema nem em lugar nenhum. Marie quer libertar-se dos hábitos da corte e do universo diegético. O truque serve também para quebrar o momento escapista do espectador e obrigá-lo a abandonar a observação passiva, como a protagonista. Nos intervalos negros e nos planos falsamente truncados surge espaço para participarmos da vida da rainha.

O que provavelmente se tornará ícone das escolhas de Sophia é o tênis de Maria Antonieta, largado entre os calçados da época, e a música. Maria Antonieta se esbalda com a corte dançando New Order, Siouxsie and the Banshees e The Cure. Não é mera escolha para compor trilha sonora. A música é um marco preciso de gerações, com um universo de características marcantes que a diferencia dos grupos anteriores e posteriores, passando por zonas de transição. Uma linha do tempo de traço firme que reflete a e se reflete na História.

Maria AntonietaPelo menos era assim antes da fibra ótica. Maria Antonieta sacode a ampulheta. Que droga de mundo. Desde sempre tudo igual. Falta a mídia, mas há a fofoca. Em cada curva do palácio existe alguém falando mal de um outro alguém. Por pouco as duquesas não têm blogs. Há dois pontos distintos do filme, distantes anos um do outro, em que o mesmo diálogo se repete. Duas mulheres falam mal de uma terceira. Mudam as mulheres, o discurso continua. E tem o sexo. A vida dos monarcas gira em torno dele. Louis e Maria Antonieta são cobrados pela geração de um filho. O não-ato sexual é uma vergonha. O rei ter uma prostitua no palácio não. O casal precisa gerar o próximo delfim. A mulher só celebra seu papel dentro da corte após o nascimento do filho homem. Quem se importa com a filha mulher? Quem se importa com um delfim que não faz sexo? Também estão lá as drogas. A cena em que Maria Antonieta e seus amigos passeiam pelos jardins após a festa e o rapé, indo para a beira do lago ver o sol nascer poderia estar em Trainspotting.

Maria AntonietaMaria Antonieta, o filme, propicia uma nova leitura da vida de uma mulher que por muitos anos foi considerada louca, com um ponto final depois. Sophia Coppola conta que ela era uma adolescente, e por conseqüência contestadora, que foi arrancada de hábitos e introduzida em outros, precisando se adaptar. Teve que lidar com as obrigações de uma rainha em seus 15 anos, quando tudo o que queria era se divertir. Seu maior erro, provavelmente, foi o distanciamento, achar que o povo é algo que está lá, lá longe, bem distante dos palácios, isolado no deserto de Brasília. Quando foi até a sacada e encarou pela primeira e última vez as multidões, se tivesse um bom redator de discursos poderia ter mudado o rumo de sua vida e da história. Ao contrário, por mais que lutasse para abrir os próprios caminhos, foi levada na enxurrada de regras criadas por terceiros e que, apesar das guilhotinas, sobrevivem até hoje.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0006, em 16/4/2007

 

 

 

 

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