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Entrevista com Rafael Grampá

Aguarrás: Você apareceu pela primeira vez, como autor de Histórias em Quadrinhos (HQ) na coletânea Bang Bang (Gunned Down nos EUA), com “A peixaria da família Lao” que foi um dos destaques do livro, justamente pela arte, sendo assim, quais são suas referências em arte HQ, ou não?

Rafael Grampá: Tenho referência pra caralho. Desde desenho tosco de fachada de mecânica até Gustave Doré. No miolo disso tudo rola cinema, design, artes plásticas. No traço em si, acho que o Crumb, o Jamie Hewlett e o Moebius influenciaram bastante, o Suehiro Maruo e o Patrice Killofer estão influenciando e acho que o Marc Bell vai influenciar. Na verdade o meu desenho ainda tem muito o que melhorar e evoluir. Posso ter muita experiência em desenho, mas HQ é outra coisa. A rotina de desenhar todo o dia o mesmo traço faz com que o seu desenho vá evoluindo naturalmente. Estou curioso pra ver o resultado dessas evoluções, espero nunca estagnar no mesmo traço, pois eu adoro experimentar soluções.

Aguarrás: Ainda sobre “A peixaria da família Lao”, como foi a produção da história? Quando você decidiu que a história não teria balões de fala?

Rafael Grampá: O prazo não era curto, mas eu estava totalmente atarefado naquele mês, quando os Gêmeos me convidaram pra participar da antologia. A história deveria ter 8 páginas, mas no final só rolaram 4. O motivo de não ter balão é simplesmente pelo aperto, pela falta de tempo que eu tive pra pensar no texto.

Aguarrás: Pergunta básica, como você conheceu os Gêmeos?

Rafael Grampá: Eu estava fazendo uma animação pra OLN, um canal de esportes gringo, e eu não ia dar conta de desenhar todos os elementos pro trabalho. Os desenhos do Bá e do Fábio tinham a ver com o briefing, então chamei os dois pro trabalho e acabamos nos conhecendo.

Aguarrás: O autor de quadrinhos nasceu antes ou depois de Bang Bang (Gunned Down)?

Rafael Grampá: O autor só nasce depois de realizar a obra, não é? Mas entendo o que você quer saber. A minha vontade de ser autor de HQ vem de bastante tempo. Desde criança, quando eu lia o Superpato! Já fiz muitas páginas de Quadrinhos desde essa época. Mas nunca tinha acabado nenhuma. Sempre engavetava tudo. Perdi um pouco o interesse no final dos anos 1990, mas agora ela ressurgiu com bastante convicção.

Aguarrás: No seu blog, você fala sobre experiências com materiais alternativos, como cerveja e cinza de cigarro, para o desenvolvimento de uma arte, isso é bem contemporâneo, qual sua experiência em arte contemporânea?

Rafael Grampá: Acho que Quadrinhos é arte contemporânea – uma delas. Até Toy Art é arte contemporânea. O esquema de desenhar com tudo que me dá na telha é só uma mania que eu tenho. Fico testando as texturas só pelo prazer de experimentar, sem me preocupar muito se é arte ou não é. Vou te falar que nunca me preocupei com isso na verdade. Vou fazendo meus desenhos motivado pelo hedonismo, pois é um grande prazer pra mim.

Aguarrás: Você acha que os movimentos artistícos tem alguma influência nos quadrinhos?

Rafael Grampá: Óbvio! E o contrário também. Tudo se influencia mutuamente, isso sempre foi assim.

Aguarrás: Você é graduado? Qual o curso?

Rafael Grampá: Não gosto de salas de aula. Me livrei delas assim que eu me formei do Segundo Grau.

Aguarrás: Como é seu trabalho profissional? O quê acha dele?

Rafael Grampá: Trabalho como diretor de arte de um estúdio super conceituado chamado Lobo. Meu trabalho é criar o look, o conceito dos filmes, resolver o treatment e em alguns filmes, dirigir a equipe de animadores. Trabalhamos com campanhas grandes, muitas delas mundiais, de enorme responsabilidade. Eu trabalho do lado de designers e animadores fora de série, muitos deles artistas e isso ajuda muito você a crescer profissionalmente e artisticamente.

Aguarrás: Foi profissionalmente que você conheceu a tablet? Veio daí suas preferência por hachuras?

Rafael Grampá: Foi quando eu trabalhava numa emissora de TV em Porto Alegre, em 2001. Eu era diretor de arte lá (fazia umas vinhetas na verdade), e tinha uma tablet. Gostei de usar desde que comecei a fazer os primeiros desenhos. A tablet, pra mim, é só mais um instrumento. O bom de usar tablet é que ela evita tendinite, eu nunca tive porque comecei a usá-la cedo. Mas só pra deixar claro, eu só usei a tablet pra fazer a HQ da Gunned Down, porque na época eu morava num apê que não tinha espaço para fazer um estúdio e tive que apelar pra tablet mesmo. O gosto por hachuras vem de fazer isso com pincel e nanquim mesmo.

Aguarrás: Que tipo de complexidade você aceita nos seus trabalhos?

Rafael Grampá: Qualquer uma, desde que faça sentido pro desenho. Mas chega uma hora que o desenho vai naturalmente ficando mais simples, conservando apenas os ingredientes principais do seu estilo. Isso acontece com todo mundo que desenha.

Aguarrás: Você pode dar algum exemplo de trabalho que possa ser visto no site da Lobo, que tenha sua mão? Só se for possível, claro.

Rafael Grampá: Posso sim, vou passar uns links:
Esse foi um projeto pra Diesel, griffe italiana famosa, que chama Diesel Dreams. Nesse trampo eu fiz o concept design e a direção de arte. Os artistas de 3D modelaram meus desenhos de uma maneira que eles parecessem feitos a mão.
Esse foi pro Banco Real. Nesse eu fiz a direção de arte, concept design e direção.
Esse outro foi para a Creme Savers. Nesse eu criei o look, o concept design e resolvi o que acontecia no filme, toda a tranformação do líquido até chegar na assinatura.

Aguarrás: Trabalhando com storytelling, acredita ter desenvolvido uma ferramenta para as HQ? Porquê?

Rafael Grampá: O storytelling não é uma ferramenta de HQ e nem foi desenvolvida por mim. O storytelling é a maneira de contar a história propriamente dita, e sem ela, não existe HQ, nem cinema, nem animação e nem literatura. O certo é que cada um inventa a sua própria maneira de contar histórias e cada storyteller tem um estilo e acho que o meu ainda está bem cru. Tenho muitos experimentos de storytelling pra testar na minha vida e estou excitado com isso.

Aguarrás: Já conseguiu montar sua paleta? Que tipo de cor prevalece no seu trabalho?

Rafael Grampá:
A paleta vai depender do trabalho que eu estiver fazendo. Não tenho uma paleta certa. Escolhi uma para o meu álbum, o Mesmo Delivery, e se limita entre as tonalidades de preto e vermelho.

Aguarrás: Voltando as HQ, você está começando a escrever suas histórias, como está sendo?

Rafael Grampá: Está sendo muito bom. Pra mim, fazer HQ é sinônimo de escrever as próprias histórias. Estou estudando a fundo as formas de roteiro. Até inventei um grupo de estudos de roteiro, onde um bando de cineastas, diretores e quadrinhistas discutem as multifacetas de escrever.

Aguarrás: Você gosta de caminhoneiros? O que Sam Peckinpah tem com isso? Fale um pouco sobre Mesmo Delivery.

Rafael Grampá: Olha, na verdade essa pergunta tá meio gay, mas eu te saquei (ahahahaha)! Eu gostava de um filme do Sam Peckinpah quando eu era criança chamado Comboio (Convoy), que por coincidência foi lançado esse mês em DVD no Brasil. Esse filme me fez brincar muito de caminhoneiro, e resolvi pôr o resultado dessa influência no meu Quadrinho. Acho que caminhoneiros sugerem ótimos personagens.

Bom, Mesmo Delivery é o nome do meu primeiro álbum de HQ, que vai ser lançado na San Diego Comic Con, de forma independente, agora em Julho de 2007.

É um Road Thriller, como eu gosto de chamar.

Aguarrás: O quê achou do convite para a San Diego Comic Con?

Rafael Grampá: Nunca houve um convite pra ir pra San Diego Comic Con. Bom, na verdade o Fábio e o Bá puseram pilha pra eu fazer um álbum e lançar lá, e eles já tinham combinado de estar num booth com a Becky Cloonan e com o Vasilis Lolos, dois grandes artistas de HQ da nova geração, e então eu entrei nessa junto.

Aguarrás: Bem, gostaria de descrever mais alguma coisa que acha importante? Sempre parece que esqueço de perguntar alguma coisa.

Rafael Grampá: Por mim tá excelente!

 

 

 


Alan Cichela

 

editoria: edicao_0006, gráficas/design, em 17/4/2007

 

 

 

 

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