Márcia Clayton
O problema de arte conceitual é quando o conceito não passa. E aí fica sendo o exercício lúdico e solitário do artista para quem aquilo que está exposto faz o maior sentido, mas só para ele.
Ocorre coisa parecida com a obra Basta! que Márcia Clayton expõe na Galeria da Cândido Mendes, em Ipanema, a partir do dia 24/04.
É uma série de tampax colados um ao lado do outro formando como que uma esteira, dessas que, dizem, se você andar por cima massageará os seus pés produzindo relaxamento. Mas não é nada disso, informa a artista. São 400, e o número é importante porque uma mulher tem cerca de 400 períodos menstruais em sua vida - conforme aliás está dito em uma obra ao lado. Mas eu - e acho que ninguém - contará quantos tampax há em Basta! - título que nos remete às faixas que a burguesia do Leblon costumava pôr na janela em manifestos “contra a violência”. E então vem a revelação. Os tampax na verdade estão colados lado a lado para imitar balas de fuzil em um cinturão. E é por isso que a obra está colocada na parede em uma altura um pouco mais baixa do que as outras. Para que fique mais perto da altura da cintura de uma pessoa.
E o Basta! é um basta à submissão biológica da mulher. Ok.
O próximo é o ABCD, seios artificiais onde os mamilos, inexistentes, são substituídos por retratinhos dos dois filhos da artista - que nem eu nem você conhecemos. São 29 pares de seios, idade da artista quando nasceu sua filha mais nova.
Quadrinhos com provérbios com a tradução em braile foram feitos com a ajuda da pessoa para quem a artista costuma dar sessões de leitura no Instituto Benjamin Constant. E isso deve ser importante.
E um grande manto, o Sempre livre, repete em invólucros de absorventes (365) números dos dias e meses, marcando pela cor o ciclo menstrual. Há faixas, por exemplo, onde não há invólucros vermelhos e elas representam o climatério - o que simplesmente não é apreensível.
Mas há um mas.
Márcia Clayton faz séries, repetições, coleciona objetos. Seu manto Sempre livre tem um eco de Arthur Bispo do Rosário. Ela acumula objetos industrializados de uso sexual feminino, coisas que são postas dentro do corpo, sem nunca se integrarem, ou na porta dessa interioridade, que é, aliás, o nome da exposição.
Acumulação tem sempre um aspecto de falta de sentido. Acumula-se o que não se compreende. E os acúmulos costumam ter em si um otimismo. A falta de sentido está no presente, coleções de objetos projetam-se para o futuro quando, quem sabe, algum sentido poderá aparecer. Em seu Provérbios, Márcia Clayton volteia em torno disso: “nomear é dar existência”, “quase tudo o que importa não se sabe falar”, “somos um quadrado, o tempo é que nos esculpe”, “interpretar é trazer à luz”.
Há um momento involuntário de humor. A peça Always, montada com camisinhas e absorventes, traz um exemplo prático de surdez conceitual. Os invólucros dos absorventes femininos vêm com frasesinhas inspiradoras e bem-humoradas, incluindo a que nos informa sobre o número de 400 ciclos menstruais: “You will have about 400 periods in your life. It just feels like more.”
Já as camisinhas masculinas são as mais diretas possíveis e sua comunicação está em uma única palavra, a marca: ProSex, Durex, Eros, Affair. Ficam perto, uns e outros, e são incomunicáveis.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















