Apresentaram-se na Fundação Eva Klabin, sob o selo da série “5as com música”, na última quinta-feira (19/4), Constanza Almeida Prado, violino, e Sarah Higino, piano. No repertório compositores brasileiros, com destaque para Almeida Prado e Guarnieri.
É incrível como mesmo em ano de efemérides favoráveis, como o centenário de nascimento de Guarnieri, este ano, ainda não haja espaço suficiente para a música nacional. Eduardo Monteiro, notável pianista, distinto docente e pesquisador da Universidade de São Paulo, em recente entrevista a esta publicação assinalava exatamente o que se viu na quinta-feira: músicos muitíssimo bem dispostos a dar espaço à música erudita brasileira, o que é louvável, e cada vez mais comum, mas sem dar o devido valor a esse gênero. Dizia-me Eduardo, em sua entrevista, que isso se deve a inúmeros fatores: falta de gravações suficientes e variadas, medo de alguma resistência do público, hábito ou cultura de montagem de repertório, entre outros outros. De fato, sempre que vou a um concerto com repertório brasileiro, admiro-me muito se a peça tiver mais de 15 minutos. São sempre sonatinas, cantos, prelúdios, estudos, peças de menor envergadura, muito pouco fôlego para parear uma sonata de Beethoven, um noturno de Chopin ou um Hydn ou Liszt. Claro que são pecinhas, muitas vezes, lindíssimas, de forte inspiração ou grande representatividade de um subgênero brasileiro, mas nunca é a toa que peças estrangeiras sempre ocupem lugar de destaque: são, via de regra, peças mais densas, mais profundas, de maior magnitude ou maturidade. Sempre um duelo de um coelho contra um leopardo. Mesmo em Villa-Lobos, onde se tem maior variedade de gêneros de composição, a aposta é quase sempre no standart, no comum, no grande “hit”. Se vão tocar Ernesto Nazareth, é quase sempre Odeon e quase nunca um “Estudos para Concerto” (NAZARETH, E. IMPROVISO. Estudo para concerto. 1ª Ed. p.v. 1922.). Isso só para dar um exemplo generoso.
Não é coincidência, Constanza Almeida Prado é filha do compositor José Antonio de Almeida Prado. Sua “Sonatina”, em cinco partes (allegro, andante, colorido, cantiga e finale) tem um frescor muito agradável, mesmo para ouvidos pouco habituados. Foi executada com bastante competência, sobretudo por Sarah, e aliás isso vale para todo o concerto, discreta e envolvente, deu conta de ritmos quebrados e de leituras atentas com o violino na sua cola. O Guarnieri, que abrira o espetáculo, pôde ficar ainda algum tempo nas sensações dos espectadores, a melodia sem sobressaltos ou reviravoltas envolve-nos em sua estreiteza. A apresentação se seguiu com Chiquinha Gonzaga, uma pecinha, como daquelas que descrevi no parágrafo acima, que sempre agradam. “Polka”, bem como outros tangos, e polkas, sempre com aquela harmonia conhecida, despertando sempre a mesma e deliciosa graça. Foi muito graciosa a interpretação e elegante como deve ser. De todo modo foi uma bela oportunidade para o público ouvir um ritmo diferente nas cordas de um violino astuto para o estilo. De Mário Ficarelli, compositor contemporâneo, apresentaram “Constantia” que, como o nome sugere aos mais atentos, foi dedicada à instrumentista em cena, como ela mesma anunciou. A grande obra da noite, por motivos que dariam uma monografia, foi a quinta sonata para violino e piano de Beethoven, a “Sonata opus 24 em fá maior” conhecida como sonata “Primavera”. O allegro começou muito bem, aquela melodia nos encanta, como um feitiço, como uma mágica. Jamais desperdiçaria um momento tão sublime com comentários técnicos com atenção nisto ou naquilo que não está perfeito. Afinal, o que é a perfeição, nos pergunta a vida, nos instiga a filosofia, nos ensina a história e nos mostra a arte. A não ser, evidentemente, por algo gritante. E foi. No meio da apresentação Constanza cala seu violino e cessa, junto com Sarah, completamente a execução da sonata. Diz ao público que ocorreu um “probleminha”. O público comportou-se como se o auditório fosse uma “House of Lords”, não houve o menor “frisson”. Nem por silêncio profundo nem por chiados malcriados. No entanto, devo protestar à artista que o motivo que ela alegou, a justificativa, para a súbita interrupção não é verdadeiro, nem de longe. Não se alega leviandade ou desonestidade aqui, nem de longe, a conclusão é de ordem puramente lógica (ver nota). Entende-se a inexperiência ou nervosismo da profissional em cena. Sem aqui (jamais!) exigir purismos tolos. Que Constanza (já uma bela instrumentista e ainda de um potencial tremendo, diga-se de passagem) tenha tido dificuldade para afinar seu instrumento antes da sonata que, com algumas notas longas, exigia uma afinação mais rigorosa do que na “Polka” talvez, tudo bem. Já assisti alguns grandes violinistas “apanharem” do violino para colocá-los no tom de concerto. Mas ter alegado que “as cordas estão sentindo um pouco o ar-condicionado” foi uma das explicações mais distantes da realidade que se poderia dar. O recomeço foi vacilante, estéril, pequeno, tanto por parte das musicistas com por parte dos espectadores, principalmente. A inspiração, de ambos os lados, recuperou-se muito a tempo, ainda no primeiro movimento. Menção honrosa ao competente Scherzo e aplausos muito merecidos ao fim do Rondo e do allegro final. Como bis fizeram um tocante Piazzolla, lindíssimo, surpreendente. Qual é a atração fatal que há entre Piazzolla e duos de violino e piano? O tango parece mesmo dar um sentido, um propósito especial, a pares, sejam de dançarinos ou de instrumentos, realiza-se melhor assim. E realizou-se muito bem, não é sempre que ouvimos tango depois de Beethoven sem quase notar o salto e sentir o tranco. Isso poderia ser uma enorme crítica, mas é um imenso elogio!
Assim como muitas vezes é pertinente falarmos de química em artes plásticas é fundamental conhecermos a física da música e dos instrumentos musicais, é interessante saber como eles funcionam pois vão sempre obedecer primeiro às leis da natureza e depois aos comandos do músico. Sabemos que a nota musical, em sua freqüência única, se deve, nos instrumentos de corda e no piano, à densidade da corda, ao comprimento da corda e à tensão a que está submetida. Ao variar a temperatura de um sólido (e de alguns fluidos) verificamos também variação no seu volume: a dilatação. A ascenção da coluna de mercúrio num termômetro exemplifica o fenômeno da dilatação térmica. Então, se a temperatura da corda do violino variar, devido a mudanças na temperatura ambiente, por exemplo, seu volume se modifica, mudando sua densidade e a tensão a que está submetida. O efeito imediato é a alteração na freqüência produzida pela corda e, portanto, na nota musical gerada, revelando-se a desafinação. Não importa se está muito frio ou muito quente, à temperatura ambiente constante uma corda jamais sofrerá qualquer alteração, oriunda do ambiente, que gere a desafinação. A temperatura na sala de concerto, no recital do qual este artigo trata, estava baixa e totalmente constante.