Laís Myrrha
Coerência, em si, é só um conforto, pois a coisa pode ser coerentemente ruim e aí, o conforto será o de poder perceber rapidamente o ruim.
Em Laís Myrrha, em exposição na carioca Novembro, a coerência se dá a partir de uma visão exata do que é ler/fazer arte contemporânea.
Em um primeiro momento estamos diante da destruição, o que é correto.
Nas paredes, fotos de uma fundação cultural de Belo Horizonte. Dois ambientes, o que foi um auditório, com um palquinho ainda visível em meio a escombros. No outro, o que foi a biblioteca, com os palimpsestos dos volumes marcados nas paredes. Um espetáculo e um conhecimento que se foram. Um detalhe: as marcas na parede fotografada são similares, como se os volumes ausentes tivessem sido padronizados, na morte, em uma só e mesma vida já extinta, em uma dízima periódica que se repete ad infinitum. A exposição se chama “redução ao absurdo” e essa expressão se refere a uma continha de chegar que matemáticos fazem quando contas absolutamente perfeitas, se repetidas, passam a não fechar, a gerar um resíduo que precisa ser eliminado.
Depois há um áudio, a Marselhesa em um compasso muito lento, deformada. O que era marcha guerreira, para frente, no allons-enfants, vira para trás e fica uma marcha fúnebre, de lamento por algo que já se foi.
O Compensação dos erros é um vídeo que mostra um relógio digital e uma mão que tenta desenhar o que o relógio mostra, precisando apagar sem parar os segundos que mudam, um referente impossível.
Metade da galeria é tomada por Teoria das bordas, uma instalação de pó de brita que cobre o chão. O pó, um branco, outro preto, divide pela metade exata essa uma metade da galeria. Andar por cima disso apaga os limites tão precisos.
E aí entra a segunda parte da destruição, que é a criação. Então, nessa arte contemporânea a criação se dá através da experiência. A arte não mais diz algo mas faz algo.
O que foi dito/lido na modernidade, o foi de dois modos, um mais antigo do que o outro. O mais antigo levava em conta símbolos, signos, uma crença de que existiria uma verdade a ser descoberta a partir do sensorial, fosse ele nascido de um referente ou chegando em um. Alegorias, metáforas, conceitos. O menos antigo via o que lá se apresentava, concreto: aquilo era um triângulo, isso aqui uma tinta branca.
Há na contemporaneidade a noção de que se lê algo a cada instante, quem lê fazendo parte da leitura, o objeto não mais separado, detentor de verdades ou identidades claras, assim como o fruidor/leitor também não as detém nem é mais uno, imutável. Se voltar lá no dia seguinte, outra obra acontecerá. Um e outro não mais existindo separados, mas arte sendo o nome do encontro. A arte se fazendo.
Em uma parede branca da galeria há uma porta desenhada, tosca, humanamente.
novembro arte contemporânea
Rua Siqueira Campos, 143 slj. 118
Copacabana
Rio de Janeiro / RJ
(21) 2235-8347
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















