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É Proibido Proibir

É difícil. Estudei longos anos na Ilha do Fundão. Foi época de sufoco. Que professores eram aqueles desnorteados em seus mundos, distantes da massa de 70, 80 alunos que sujos do trote fingiam se conhecer? Desestimulado com as aulas (já bagunçadas no primeiro período por uma greve de cinco meses) eu me escondia na biblioteca, fugindo do formol do necrotério. Talvez porque as paredes de lá fossem de vidro e eu pudesse ver a natureza, me distanciar do concreto estrangulador do CCS, o centro das ciências da saúde. Pomposo de dizer. Foi assim que comecei a escrever, para valer. Escrevi poesias, muito ruins. Escrevia inspirado por uns quadros estranhos espalhados pelo corredor. No CCS e em outros prédios é assim, você esbarra com arte em corredores com infiltração ao sair dos banheiros que não funcionam. Quando eu olhava para as paredes, buscava nos quadros e nas rachaduras formas de rostos humanos e de animais. Eu tinha uma espécie de certeza delirante de que algumas pessoas se perdiam nos labirintos da UFRJ para sempre, e com o tempo eram incorporadas à arquitetura da ilha. Somava-se a sensação o barulho de gatos que entravam na tubulação do ar condicionado central e não conseguiam sair. Ouvíamos o miado fantasmagórico sem poder fazer nada, sem saber o que fazer. O mesmo valia para as salas de aula do subsolo, sem janela, sem tubulação de ar, sem saída. O teto feito de placas de isopor às vezes se mexia, às vezes escorria sangue. Não era dele propriamente, era dos ratos que corriam nos espaços invisíveis e morriam. O prédio sangrava de outra forma, liberando água de encanamento estourado nas provas de alunos desafortunados. Sempre tinha alguém que tomava o banho de esgoto e ficava um pouco mais próximo da miséria que cerca o centro do saber. Não que não estivéssemos acostumados a pegar ônibus lotado, sentir o cheiro de podre da baía e, emoções antigas, ser apedrejado ao passar na linha vermelha. Na época pedras, hoje balas perdidas. Claro, tinham as drogas. Descobri, atrasado eu sei, que quem quer consegue. As drogas estão dentro e fora da faculdade, os drogados também. Quem se droga não é necessariamente o alienado apolítico. É um cruzamento que dá quatro combinações. O drogado que se interessa ou não. O não drogado que se interessa ou não. Em comum talvez o risinho idiota. As discussões rolam soltas. Todo mundo quer socar a mesa para defender o seu partido, e depois de se formar acabou o mundo, pois é preciso colocar dinheiro dentro de casa. Mas fica a imagem dos que gritavam de felicidade ou tristeza após a eleição. Parece mesmo que tudo vai mudar.

Tempos depois, formado, trabalhei com gente do morro, da favela, de áreas pobres. Se eu falar que eram só tristezas, estarei mentindo, mas elas existiam. Tinha funcionário que mudava de horário, pois se chegasse tarde na favela, morria, toque de recolher. Teve gente que perdeu marido. Assim, morreu. O grupo rival invadiu, pegou o motoboy e sua moto pra ir pra lá e pra cá. O dono da área expulsou o grupo rival. Acusou o motoboy de ser x9 e matou. A esposa nunca encontrou o corpo. Levaram para uma outra favela, disseram. Se quisesse enterrar o marido, o resgate do cadáver era uma arma que não lembro o nome. Ficou ela, o filho dele, a filha de um outro casamento. Cara rico, gente fina, que batia. E dessas histórias dá pra encher um livro. No filme, ajuda a formar o clímax. Na realidade, forma o cotidiano que vai nos carregando como o mar de favela descrito pela personagem, vértice de um triângulo amoroso. Os melhores são sempre entre grandes amigos.

As poesias ficaram para trás, vieram os livros e depois os roteiros. Tive aula com Jorge Duran. Eu iludido com o cinema escapista, ele repleto de realidade em seus roteiros, seja em Pixote, Lúcio Flávio, A Cor do seu Destino ou Achados e Perdidos. Esse último escrito com o Paulo Halm, que faz uma ponta de professor no filme, papel que conhece bem. Tem as atuações claro, a direção, o roteiro, a montagem. Mas o filme não é um conjunto desses elementos, é um sentimento. O meu foi esse que acabei de escrever. O filme não aponta a solução (que aliás ninguém aponta, senhores), ele aponta a dimensão. E nós, perdidos lá no meio, entre o certo e o errado, o preto e o branco, o carrão e a pobreza, a arquitetura e a miséria, o romance e o desejo, o idiota e o interessado.

Aprendi a chegar na minha sala por um único caminho. Burrice. Se no vestibular tivesse prova prática para encontrar a sala eu não teria passado. Só conhecia uma entrada e uma saída. Dava a volta por todo o subsolo, passava pelas salas de máquinas, pelos operários bêbados, uns ratos mais perdidos do que eu, até encontrar meu corredor. Demorei meses para seguir uns amigos e descobrir que bastava descer uma escada, do lado da porta por onde eu entrava. Foi uma descoberta pequena, mas que mudou minha disposição de encarar a faculdade. Besteira de nada. Mudança de caminho.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0006, em 29/4/2007

 

 

 

 

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