Arthur Bispo do Rosário sem transcendência
Andanças – Vida e Obra de Arthur Bispo do Rosário é um título pretensioso para o espetáculo em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal. As declarações da diretora Paula Feitosa e do ator Alex Mello no programa da peça confirmam a intenção de apresentar quem foi e como viveu esse artista sui generis. Infelizmente o projeto ambicioso fracassa, e quem comparece ao teatro sem saber quem foi e o que fez Arthur Bispo do Rosário, sai praticamente como entrou. Ou, o que é pior, com uma noção equivocada, gerada pela confusão do que se apresenta em cena.
Neste monólogo, Arthur Bispo do Rosário faz (ou parece ser essa a tentativa) sua peregrinação pelos hospícios, apresenta sua visão de mundo e constrói sua obra. Mas a dramaturgia de Alex Mello não faz jus ao assunto abordado, a direção é desatenta e a interpretação do único ator (o próprio dramaturgo) não é satisfatória. Apesar de Paula Feitosa afirmar que o espetáculo propicia o “tempo de desafiar todas as possibilidades do exercício de atuar” e que direção e ator chegaram aonde queriam, com algo que tivesse conexão com “dança, movimento, sem esquecer a palavra, as cantigas de roda, nosso ritmo brasileiro, nossa religiosidade e nossos hinos de fé”, o que vemos em cena é de uma pobreza ímpar. Não apenas em matéria de recursos físicos, nada há de problemático (a princípio) num espetáculo cuja produção é humilde. Mas de uma grande pobreza de recursos interpretativos, de imaginação, de possibilidades cênicas. Fato grave, de uma maneira geral, e mais grave ainda por se tratar de uma tentativa de retratar Arthur Bispo do Rosário.
Alex Mello é limitado vocal e corporalmente; durante toda a representação sua voz pouco se altera, permanecendo com uma monocórdia ressonância de cabeça – o que parece dar também uma aparente importância ao que está sendo falado. Nas poucas vezes em que o ator tenta alguma mudança vocal é nos momentos em que grita, sem nenhuma nuance ou contradição interior. Nem quando declama um texto de Artaud, sua voz se altera. Nem quando desce à platéia, sua voz se altera. Está engessado em cena. Apesar de uma anunciada disponibilidade corporal – o ator se propõe a mesclar dança e interpretação – o que vimos são movimentos repetitivos e limitados; coreografias paupérrimas (como a viagem do barquinho de papel ao som de “Marinheiro Só”), ações pouco expressivas (enrolar um pano, enfileirar palmilhas pelo chão, girar uma roda de bicicleta quando fala de roda, etc.) e uma representação caricata e desrespeitosa de desequilíbrio mental. Quem se propõe a colocar em cena um tema tão delicado, como a loucura, deveria não se contentar com uma imitação externalizada e pouco profunda, pouco justificada e pouco amparada por motivações internas – sejam intelectuais ou emocionais. Para que representar um louco aos berros e com gestos óbvios? Essa é a pergunta: para quê e por quê? O ator foge de mentirinha, é torturado de mentirinha, sofre de mentirinha. A alusão ao martírio cristão na cena do eletrochoque com fitas elásticas não provoca nenhum tipo de comoção. Sua via-sacra mística não encontra respaldo na interpretação. Seus gestos não têm controle técnico nem significação. Ações banais não revelam quem seja o místico louco, o herege devoto, o esquizofrênico atento de que fala o texto.
Aliás, para fazer uma devida homenagem a um artista tão conturbado como Bispo do Rosário, a direção de Paula Feitosa e a direção de movimento de Parisa Karimi teriam que ser mais atentas, não deixando tão desamparado o único ator. Alex Mello chega à puerilidade de montar com as palmilhas um coração flechado ao som de “Se essa rua fosse minha”. E não fica clara para a platéia o que o leva a citar nomes de mulheres enquanto se abaixa e levanta enfileirando as “palmilhas / andanças”. Toda essa pobreza nos faz perguntar: mas quem foi esse tal Arthur Bispo do Rosário para merecer tantas homenagens e reconhecimento? Em cena, o que se vê é um homem louco, chato, óbvio, sem carisma, sem talento. Mereceria um homem assim alguma reverência e destaque? O pouco que se sabe sobre Bispo do Rosário no espetáculo fica por conta da narração em off, mas em cena não se vê o que se narra. Parece uma aula mal dada sobre o artista.
Apesar de constar no texto, não se concretiza esse seu “delírio místico e de grandeza, nem a paranóia extrema e o dom artístico aguçado”; a não ser que se pense que o delírio de grandeza tenha sido suficientemente representado por pernas de pau, ou que gritos e olhos esbugalhados dêem conta da paranóia extrema. Para retratar o delírio místico, não bastam o repetitivo hino de fé (em off) nem a pergunta “você vê a cor da minha aura?” que Alex repete diversas vezes. O dom artístico aguçado fica mesmo ausente no espetáculo, tanto na cenografia e figurino, como na atuação e na direção. Falta carisma ao ator e inteligência à direção. O universo retratado é pouco crível. Nenhum conflito, cisão, divisão, ruptura são propostos em cena. A obviedade reina absoluta no palco da Justiça Federal. As ações se repetem, sem que se extraia dessa repetição nenhum sentido. É falta de imaginação mesmo. Arthur Bispo do Rosário revela em cena: “dizem que o que faço é arte, mas é minha missão na Terra”. Onde foi parar a arte de Arthur Bispo do Rosário e sua anunciada missão? No palco da Justiça Federal, ninguém a encontrará.
Andanças – Vida e Obra de Arthur Bispo do Rosário conta ainda com a participação das vozes gravadas de Milton Gonçalves e Zezé Motta. Milton ora imprime uma gravidade de narrador de História Sagrada, ora lembra alguns apresentadores, como o Homem do Sapato Branco. É evidente sua tentativa de emocionar a todo custo; mas não ultrapassa o esforço. Zezé Motta parece uma narradora de discos de história infantil. Comete grave erro de acentuação tônica, que ninguém percebeu, ao falar dos caminhos “tôrtos” da dra. Nise da Silveira, personagem aliás que passa desapercebida durante a representação. Ou será que fui eu que ouvi errado???
O cenário de Alex Mello e o figurino de Alex Mello e Fabynho Santos pretendem ser inspirados na obra do artista retratado, mas não dão conta da grandeza da obra de Bispo do Rosário. A iluminação de Silvia Schönherr é precária, usa sem nenhum critério as cores amarelo, azul, lilás e verde; é estática e amadora, e quando se altera, o faz sem justificativa dramática, sem estabelecer atmosfera alguma, deixando a luz vazar para fora da caixa cênica. É tão sem personalidade e confusa quanto o restante do espetáculo. No programa da peça, consta ainda o nome de um supervisor de iluminação, João Franco. O que a iluminadora não viu, o supervisor deixou passar.
A trilha sonora (que parece estar a cargo de Ilya São Paulo – não fica claro, no programa) é das mais empobrecidas. Quando é citado o passado de marujo da personagem, toca “Marinheiro Só”; e todo o tempo a música faz um percurso óbvio e piegas, acentuando o que já está estabelecido pela palavra ou pela ação. Algumas pérolas de cafonice completam a trilha, com “Ave-Maria” na cena do eletrochoque, e outros tantos clichês musicais. Ruídos de tráfego, sirenes de ambulância, barulhos desagradáveis lembrando atos de tortura completam a desconfortável ambiência sonora. Todo artifício técnico da trilha e das vozes gravadas de Milton e Zezé afastam ainda mais a relação com o espectador. Poderia o próprio Alex entoar o hino de fé – tema do espetáculo, mas prefeririam que ele entrasse em off. O som pessimamente editado sempre entra num volume mais alto do que deveria, em dissonância com a tonalidade presente em cena. Por vezes, a trilha ainda erra, ao estabelecer um tom mais animado, como o xaxado, que quer trazer um alívio à tensão da situação do protagonista. Mas deveria haver esse alívio? A trilha não dá descanso, ilustra e acompanha todo o tempo a ação dramática, como nos filmes de aventura da primeira metade do século XX. Não há silêncio interior possível.
Segundo o texto, os doentes mentais são como beija-flores, ficam sempre a dois metros do chão. Apesar de Alex Mello evoluir – no fim da peça – sobre pernas de pau, a peça rasteja e não ensaia nenhum vôo. O espetáculo não tem curva dramática, não atinge clímax algum, não constrói nenhum universo, não se comunica com o público, não presta a devida homenagem, não tem significação nem transcendência, não tem beleza plástica, não é contundente, não evolui, não emociona, não revela, não esclarece. Ao final, a retomada do mote inicial, em torno da aura de Arthur Bispo do Rosário, parece ainda confirmar que só os privilegiados conseguem enxergar a cor da sua aura. Se alguém enxergou o azul, não foi por conta da luz nem da interpretação, foi por ser muito generoso e iluminado como espectador.
Gostaria ainda de abrir um parêntese para os textos do programa, auto-indulgentes e com o ator lançando confetes na diretora e ela devolvendo os elogios. Quando é o que o teatro brasileiro vai abandonar esse tom caseiro e piegas de elogiar a si próprio? Deve ser sintoma de baixa auto-estima: “já que ninguém nos elogia, elogiemo-nos a nós mesmos!” Ufa, que chatice!
Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.


















