Cafundó
Antes de começar a crítica, vale consultar a palavra sincretismo no dicionário. A soma dos significados está muito próxima da proposta de Paulo Betti e Clóvis Bueno. No Houaiss, temos “fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos”, “entendimento do mundo exterior como uma totalidade indivisível, de configuração complexa e obscura, típico das crianças e do homem dito primitivo” e “fusão de elementos culturais diversos, ou de culturas distintas ou de diferentes sistemas sociais”.
Cafundó começa com Lázaro Ramos se equilibrando em uma torre de cadeiras no meio da cidade. O modo como estão empilhadas já é mágico, praticamente flutuam. Ter alguém em cima apoiado em um pé só, nem se fala. Um grupo de pessoas se reúne em torno para assistir ao número, enquanto uma menina recolhe dinheiro. De repente, Lázaro Ramos desaparece no ar. Ficam lá as cadeiras e as pessoas tentando decodificar pela razão o que não precisa ser entendido. Mudam os truques, a atração que exercem continua.
O filme lembra sem panfletagem ou pieguice que decretar o fim da escravidão não encerrou o preconceito, e que a situação não mudou muito do fim do século XIX para cá. Paulo Betti conta no início da sessão no Odeon que uma rede de cinemas não quis exibir o filme porque o dono era católico e Cafundó, teoricamente, faz propaganda da umbanda e do candomblé. Isso mostra o amadorismo que ainda envolve determinados setores culturais no país, e o preconceito e a estagnação que o filme quer mostrar.
Cafundó – vencedor de diversos prêmios nacionais e internacionais – é uma crônica romanceada da vida de João de Camargo (Lázaro Ramos), um ex-escravo, filho de curandeira, que após receber a liberdade procura o seu lugar no mundo. Na busca por emprego João pula por casas e indústrias, sendo vítima constante da exploração alheia. Devido a situações diversas, acaba fugindo de um canto para outro para sobreviver e nessa andança sua vida muda completamente. A primeira descoberta é a dificuldade de encontrar emprego. A segunda é o amor, na figura de Rosário (Leona Cavalli), muito bem caracterizada como uma Pomba Gira. Com ela, João descobre a traição e a desilusão e mergulha na bebedeira. Trocando as pernas pela cidade, sai sem rumo e desmaia no meio da chuva, em frente a um rio e uma cruz. Ali, tem uma visão com santos e orixás. Sua missão na vida, revelam eles, é ajudar os outros.
João viveu até os 84 anos em Sorocaba, depois de ser capataz de fazendeiro e servir na guerra fundou a Igreja de Nosso Senhor do Bom Jesus da Água Vermelha, tornando-se um líder religioso respeitado. O curandeirismo de João no mundo pós-escravatura incomodou muito a igreja católica, que não aceitava que um negro usasse imagens de santos, pois isso aproximava o catolicismo do candomblé (ou as classes altas das baixas, dependendo da leitura). Quando o preconceito vinha dos negros, João era enfático ao dizer que havia um oceano de distância entre o Brasil e a África, e que falar de santo não era trair o orixá. Quando o preconceito vinha da igreja católica, extremamente influente na política, João era preso sem chance de diálogo, fato que se repetiu muitas vezes em sua vida.
Um símbolo da “totalidade indivisível” do mundo, muito antes que alguém pensasse na palavra globalização é a influência de Alan Kardec na vida de João. Como surge na França um branco que diz que falar com espíritos é normal, isso deixa de ser coisa de preto velho, ex-escravo, gente inferior. A alta sociedade e os políticos precisam se atualizar. Se o Senhor Ministro, tão viajado, chega dizendo que os franceses acreditam nisso, como pode o burguês que tanto quer copiar a Europa, dizer que João está errado?
Ao redor das descobertas de João orbitam personagens e situações que contribuem como elementos individualizados, que não precisam se integrar diretamente ao todo para fazer sentido. Isso poderia dar a idéia de narrativa quebrada e dificultar o entendimento da primeira metade do filme, mas a atmosfera lírica preenche bem os espaços deixados na história e ambienta o espectador para a etapa do filme pós-visão reveladora. A evidente influência teatral da direção, refletida no posicionamento dos atores, na hora em que entram e saem de cena com suas falas certeiras também ajuda no lirismo, assim como os padres, pregadores do fim do mundo, exus e ciganos espalhados aqui e ali.
Lázaro Ramos já participou de Jenipapo, Carandiru, Cidade baixa, O homem do ano, O homem que copiava, Madame Satã, Meu tio matou um cara e Ó pai ó, entre outros. Quem também se destaca e rouba a cena é Flávio Bauraqui, no papel de Exu. Outros trabalhos de destaque incluem Quase 2 Irmãos e Madame Satã.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















