A Margarida não apareceu
Escrita em 1974, Apareceu a Margarida de Roberto Athayde ficou consagrada como uma alegoria da ditadura militar, com sua personagem-título tirânica e obcecada pelo poder. Controladora, alucinada e contraditória, dona Margarida é uma das criações femininas mais cobiçadas do teatro nacional. Marília Pêra a interpretou em algumas montagens diferentes, sob direção de Aderbal Freire-Filho. A atual encenação fica a cargo de Bruno Garcia, com outra Marília no elenco – a Medina.
Obviamente nossa época não é mais a mesma, mas nem por isso o Brasil é um mar de rosas. Apareceu a Margarida não é uma peça datada, pois Athayde, em seu texto ambicioso, consegue ir além dos limites de uma época e mesmo de uma nação. A atual montagem se ergue sobre três equívocos: em primeiro lugar, subtrai grande parte da ação política da obra, permanecendo com seu enredo – o que não sustenta o interesse. Parece que a peça é sobre o caso particular de uma professora desequilibrada que ameaça e teme a sua turminha de alunos, e que vai deixando transparecer cada vez mais sua insanidade no decorrer da ação. Em segundo lugar, a encenação toma o texto ao pé da letra e não como metáfora ou alegoria. Apareceu a Margarida não é uma peça sobre educação, como A Aurora da Minha Vida de Naum Alves de Souza. E ficamos com a impressão de que o alcance da obra não ultrapassa o âmbito escolar. Em terceiro lugar, diretor e atriz carregaram nas tintas de uma personagem psicologizada demais, quase dramática. E dona Margarida perde seu humor. Não nos interessa exatamente um mergulho na mente conturbada da personagem: suas reminiscências ganham um caráter de sessão de psicanálise e a mesa de professor se torna um divã de consultório, e Margarida sofre. Acentua-se a solidão da personagem e a tirana deixa de ter poder sobre os espectadores-alunos: Marília Medina passa a ter tanta autoridade sobre o público quanto as nossas professoras nas classes de aula hoje em dia, ou seja, quase nenhuma. Exagera-se o enfoque sobre as passagens sexuais da peça, e a professora se torna uma tarada cujo principal objetivo é se expor diante de alunos embasbacados, enquanto ela devora eroticamente uma banana ou se esfrega num dos pés da mesa. Em dado momento, a impressão é de estarmos assistindo a um psicodrama. E Apareceu a Margarida de Roberto Athayde não é exatamente isso. Embora alguns desses elementos estejam lá, de certa forma. Mas Athayde não escreveu essa peça, preocupado com a solidão e a falta de autoridade das mestras em sala de aula.
Marília Medina deixa a desejar como intérprete de dona Margarida. A atriz não tem fôlego para a tragicomédia de Athayde. Falta-lhe controle da respiração e, embora vigorosa corporalmente, seus gestos se repetem demais, ilustrando o que já foi dito. Marília sofre quando fala de sofrimento, abre os braços em cruz quando fala de Cristo, representa cada adjetivo da última cena. Trabalha com equilíbrio bilateral, ou seja, se expressa com os braços paralelos, tensiona os ombros, enrijece os dedos indicadores, ergue o queixo e aprisiona o ar no peito, estrangulando a voz em grande parte da representação. Isso prejudica a atriz a representar a trajetória da personagem, e a impede de decolar no final da peça. Não dá muito para acreditar que a sua Margarida tenha know-how para nos ensinar os fatos da vida. A campainha que ressoa freqüentemente, alertando que a personagem saiu de seu controle, impede que Margarida cresça em sua ambição delirante de poder. A última grande cena, quando a personagem se descobre dona das coisas e do mundo porque pode manipular as palavras e tudo pode realizar ao reunir verbos, adjetivos, advérbios e sujeitos, não encontra na atual encenação a contundência necessária que leva a professora tirana a pifar. No texto, a máquina entra em colapso. No entanto, na atual encenação, ficamos frios na platéia enquanto a atriz finge que estrebucha.
Falta ironia à atriz e uma característica fundamental ao comediante – dizer uma coisa e expressar a sua antítese corporalmente, como alguém que conta um fato e pisca um olho ao final da narrativa, alertando os espectadores para que não creiam piamente no que é dito. A comédia é o riso dos rebeldes. E Marília Medina não encarna a rebeldia nem provoca o riso. Também não lança olhar crítico sobre a alegoria do poder e da tirania. Falta ritmo ágil de humor à intérprete e o espetáculo fica, por vezes, pesado. Muitas vezes Marília metralha o texto, sem preparar o efeito cômico de suas palavras. Embora aparente estar louca, falta uma outra “loucura” à intérprete, que é uma entrega verdadeira, e sem rede de proteção, ao universo delirante da peça. A atriz trabalha com poucos vetores internos e Margarida não chega a aparecer. Há pouco duelo interior em dona Margarida, pouco conflito com o público de alunos, pouco sentido no espetáculo. Marília se encaixa no tom geral de simulacro da peça, e tem dificuldade para transitar entre os diversos estados de dona Margarida. Na tentativa de compensar tal falha, a atriz passa a fingir: finge que ensina, que está nervosa, que está excitada, finge que os alunos a ameaçam, finge que xinga, finge que tem autoridade, que sofre, que lembra, finge que se desestabiliza. E o público finge que acha graça. Outro sintoma doentio de nossa época: a platéia também simula. É claro que teatro é simulacro, mas existe uma coisa chamada fé cênica. Lembram-se dela?
O enfoque da direção de Bruno Garcia não amplia o texto, mas o limita a uma visão psicológica – dona Margarida parece ser a única desequilibrada, quando o desequilíbrio da personagem é sintoma de um organismo social em crise. A interpretação de dona Margarida como uma lunática é uma leitura de superfície, uma primeira camada de compreensão. Falta uma abordagem mais arquetípica da personagem. O imaginário da encenação é pobre e acentua demasiadamente a porção sexual da personagem. A nossa sociedade já é por demais sexualizada e sublinhar as referências fálicas e inventar outras tantas é buscar o riso fácil. Falta dialogar com o momento político atual, com a nossa sociedade e com o público. Na atual montagem parece que a única tentativa de referência política se limita a uma menção de Brasília, quando Margarida fala que “pouca coisa se vê hoje em dia”. A peça chove no molhado; faltou à direção abordar a ação com mais ironia, mais maturidade teatral. Embora o espetáculo consiga provocar o riso – menos do que deveria – a encenação conduz a comédia como drama psicológico. Se a personagem passa a sofrer, o que fazemos nós? Sofremos mais. Os poucos momentos cômicos do espetáculo parecem querer extrair o riso de algumas referências externas, inseridas na ação da peça, como a banana fálica, a masturbação com o pé da mesa, a brincadeira com “pontos, vírgulas e pontos de interrogação” em determinada passagem, o figurino de prostituta na segunda parte. O texto de Roberto Athayde é longo e merece mesmo alguns cortes, mas é uma pena que a direção tenha cortado a cena em que dona Margarida enumera as diversas possibilidades que se lhe apresentam ao sair de casa para um passeio.
O cenário de Denis Netto não escapa à representação figurativa, apresentando uma sala de aula tradicional, com piso, mesa, cadeira, quadro-negro e luminárias. O figurino de Ticiana Passos é óbvio: dona Margarida de vestido amarelo e bolsa verde; signos de um Brasil mal representado na encenação. Na segunda parte, a atriz veste o clássico traje de prostituta com corpete, meia-calça, cinta-liga. A iluminação de Aurélio de Simoni é convencional. A direção de movimento de Duda Maia é presente durante todo o espetáculo, mas deixa passar algumas obviedades nos gestos da atriz. Poderia ter ajudado a atriz a manter o fôlego enquanto se movimenta, já que não há preparador vocal na ficha técnica. A direção musical de Maurício Barros e Zé Luiz Rinaldi ambienta o universo escolar com o Hino à Bandeira, ruídos de alunos ao longe que se acentuam nas reminiscências de Margarida. Não há grandes vôos na ficha técnica, em geral. E poderia haver, o texto permitia que houvesse.
Ao final, dona Margarida volta-se para o público e diz: “façam o bem”, com cara de que não vale a pena fazer o bem porque a recompensa não virá. É um dos poucos momentos em que a atriz diz uma coisa e revela outra em sua expressão facial. E talvez fosse o único momento em que ela não deveria fazê-lo. É para não fazer o bem? É para autenticarmos a lei de levar vantagem em tudo? É para nos explorarmos e violentarmos uns aos outros? É isso que quer dizer essa dona Margarida? Tem alguém aí chamado Messias? E Jesus? Tem alguém aí chamado Jesus? E Espírito Santo? Tem alguém aí chamado Espírito Santo?
Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.


















