Jorge Durán gentilmente concedeu esta entrevista em vídeo para o Aguarrás TV. Por uma questão técnica, fomos obrigados a limitar o vídeo ao máximo permitido de 10 minutos. Colocamos aqui, então, a transcrição da entrevista exclusiva na íntegra.
1) Fale um pouco sobre o tema do filme Proibido Proibir?
O tema é centrado na vida de três universitários, um estudante de medicina, que é o Caio Blat, uma estudante de arquitetura, que é a Maria Flor, e um estudante de sociologia, o Alexandre Borges, que é, além disso, negro ou afro-brasileiro. E há uma paciente terminal, a Rosalina, uma ex-Frenética. Fora isso há personagens pequenos, como a Rita, uma colega estudante de sociologia, para criar um universo que gira fundamentalmente, no meu conceito, em torno da universidade. É uma experiência primeiramente de caráter romântico, vamos falar entre aspas. A namorada do Caio, que é a estudante de arquitetura, era na verdade namorada do estudante de sociologia. Essa menina termina se interessando pelo colega, muito amigo e companheiro de moradia dele, da zona norte do Rio.
Aquilo é uma introdução da história. O que mais me interessava era a questão do relacionamento afetivo entre eles, o relacionamento em termos da lealdade, da fraternidade, de certa ética de comportamento de caráter privado. Fora isso, há muitos comentários deles em relação ao mundo, ao longo de conversas, em relação ao próprio desejo da estudante de morar sozinha, estudantes que gostam de estudar, gostam do que fazem, gostam da universidade, tampouco são intelectuais da moda. O resto da cidade pode ter muitas coisas para se divertir, mas a vida deles se resume a estudar, viver a vida muito próximo da universidade.
Eu quis fazer isso porque a universidade é um ambiente divertido, que por outro lado traz conflitos muito profundos em relação ao mundo. O bom universitário começa a perceber de forma estruturada o mundo em que ele vive e, portanto, os conflitos que irá viver por causa das diferenças que existem.
Basicamente a história evolui para uma segunda parte, a universidade como tema se sobrepõe ao tema amoroso e os conflitos que se encontram dentro da universidade geram responsabilidade. Eles vão sendo obrigados a tomar algumas posições, pelo contato com a paciente terminal precisando da ajuda deles. A própria Letícia, que é uma menina da zona sul, começa a reparar que a vida não é só prancheta da universidade, tem um mundo que a rodeia. O contraste entre a universidade e a zona norte onde vivem os rapazes, o subúrbio da cidade, cria naturalmente um novo conhecer. E o estudante de sociologia, de origem mais pobre, que acredita conhecer muito o universo mais pobre do subúrbio, entra em conflito consigo mesmo. Por que eu me esforço tanto? Será que eu gosto tanto do que faço ou será que me esforço porque sou negro no Brasil e preciso do dobro do esforço?
Na terceira parte, a história gira em torno do encontro dos universitários com a realidade, a forma que eles se relacionam com a realidade, uma realidade dura, difícil, no intento de ajudar aquela paciente. Mais do que isso, o intento de ser fiel àquilo que já estão sentindo e que a universidade provê, que é uma ética, uma vontade de participar do mundo. Uma parte considerável dos universitários se interessa realmente em participar, e eu quis fazer um filme sobre essa parte especialmente.
2) E como foi filmar, está mais fácil de filmar ou continua complicado?
Não teve problema porque na verdade é um filme de baixo orçamento. Eu não tenho hábito de esperar ganhar o paraíso para fazer as coisas, minhas coisas são aqui na terra, uso o orçamento que eu tenho. Eu já sabia que era um filme de baixo orçamento, e nesse aspecto na criação do roteiro, eu já tenho alguma experiência. É verdade que a experiência não vale muito, mas no trabalho em cinema você já sabe o que custa caro e o que custa barato. Ninguém que trabalha há muito tempo em cinema pode dizer “ah, eu não sabia que ia custar isso”.
No primeiro dia de preparação você já sabe mais ou menos o que vai gastar. Claro que depois as coisas podem escapar de controle, mas o normal seria que não escapasse. Sempre há um custo adicional, a realidade é mais difícil, pode demorar um pouquinho mais. Mas quando um roteiro é caro ele é caro desde o início, não tem como baratear.
Então é um roteiro relativamente simples. A gente trabalhou muito, três ou quatro meses somente na pintura, organizando a produção e procurando locação por locação, que é algo que eu gosto de fazer e que não se faz mais.
A maior parte dos diretores, pelo que sei, manda uma pessoa procurar a locação, eles vão aprovar ou não as locações. Eu gosto de ver tudo. Fico muito tranqüilo se alguém me mostra um lugar e eu acho bonito. Pode ser melhor? Eu não vou ficar esperando.
Eu gosto de conhecer os limites. Pode existir um melhor mas o que eu consegui foi isso, então está bom para mim. Faço o mesmo com o elenco, faço o mesmo com tudo, com o negativo, com a câmera, o laboratório até sentir que está bem estruturado.
Portanto, quando a gente acabou o filme a gente não tinha saldo negativo. Tinha estourado um pouquinho o orçamento, o que é muito natural, não é nada grave. A Petrobrás foi muito generosa com a gente. Eles deram um bom material, deram um recurso adicional.
3) É fácil organizar uma filmagem no Fundão?
Não tem nenhum problema, nunca vi gente tão disposta a ajudar.
Eu conheço o Fundão porque tenho amigos que são professores de lá. Uma delas é minha comadre chilena, sou padrinho do filho dela no Chile e ela mora no Brasil há tanto tempo quanto eu. Ela é professora, me apresentou ao Reitor e ele me deu uma carta [de autorização] muito generosa.
A diretora de belas artes se encantou imediatamente. “Pode filmar o que quiser”. Na arquitetura também. “Entrem onde quiser”. No primeiro dia alguém ainda perguntou o que a gente estava fazendo ali e a gente mostrou as cartas.
Lembro que a gente voltou três semana depois de acabar a filmagem. Fui lá mais um dia porque ia precisar de um plano extra que inventei no final e nem montei inclusive. Chegamos à faculdade de arquitetura e um sujeito reconheceu a gente. Eu disse “vamos filmar no terceiro andar, numa salinha aberta”. Ele respondeu, “pode subir, não tem problema”.
Eu diria que isso não é um descuido. Eu acho que as pessoas apreciam que o lugar que elas trabalham seja reconhecido e faça parte de um filme. Não é um descuido [do tipo] pode entrar e sair qualquer um. Como na zona norte e no subúrbio, eu diria que era comovente o interesse das pessoas de participarem e serem filmadas. Não de uma forma chata de ficar acenando para a câmera. Qualquer pessoa que você perguntava se poderia fazer um plano dela, ela se dispunha.
No filme, tem um personagem que é professor e os professores da universidade só não entraram porque não conseguiam horário para participar da filmagem.
4) E a direção de atores. O que tem do diretor na atuação?
Do diretor eu diria que tem estilo. Cada filme tem um processo diferente. Você não pode trabalhar no mesmo sentido em qualquer história. O meu primeiro longa, A cor do seu destino (1986) tinha a direção muito marcada. Antes dele eu tinha feito um média-metragem, a minha versão, e o produtor editou e fez uma longa, a versão dele. Chamava-se O escolhido de Iemanjá (1978). Em A cor do seu destino eu estava interessando em que o ator se tornasse o personagem, vestisse o personagem, e eu fazia a marcação da direção muito rigorosamente. Às vezes não, porque eu sentia que não era a melhor opção, mas no geral sim, eu tentava essa marcação, uma iluminação muito dirigida, com um espaço muito pequeno para improvisação. Também era um filme muito mais dramático, com o claro e o escuro muito marcados.
Já nesse aqui eu tinha outro sentimento, se o primeiro era sobre memória esse era sobre comportamento. Então, eu queria que o espaço dos atores fosse maior. Eu não faço ensaios, eu dirijo o ator de muito pertinho, a direção é feita junto da câmera. Eu não consigo ver os sentimentos, o olho do ator, a força com a qual ele diz as coisas em uma telinha minúscula. Então, eu diria que foi um trabalho de conduzi-los em direção aos personagens. Ajudá-los a serem o personagem. Queria que o Caio Blat entregasse tudo que ele tem de Caio Blat para o personagem, que ele se apropriasse do personagem e mostrasse sua interpretação do texto. O Caio é uma pessoa muito séria, mas tem esse sentido de humor. O lado dramático da personagem de Maria Flor é próprio dela. Claro que há uma releitura do personagem. A maneira de olhar, o sorriso, isso é muito deles, com o Alexandre também. Como ele mesmo disse, acho que o personagem sou eu.
Por isso eu fiquei muito contente. Eu sou um cara velho e é muito delicado se meter em um universo juvenil em que você acha que está filmando jovens, mas na verdade está filmando velhos com cara de jovens. Eu não queria isso.
Eu estava procurando fazer um filme sobre o comportamento dos jovens que eu vejo hoje e não dos jovens que eu vejo no cinema, dos jovens que eu vejo nos outros filmes e que são uma exceção, têm um comportamento anômalo. São perversos violentos, e não é o que se vê na universidade, não é o que você vê na [Escola de Cinema] Darcy Ribeiro.
Eu nunca vi um jovem matar a mãe, estuprar a melhor amiga, chegar drogado falando loucuras. Eles levam uma vida mais careta do que a minha. Pode não ser assim na vida privada, mas na vida pública eles são completamente [caretas]. Eles são tão universitários quanto a minha geração de universitários. A minha geração universitária era mais concentrada, mas dirigida para o mundo. Tinha um papel político, uma atividade política muito intensa. Essa geração é voltada para outros problemas, o que eu considero muito saudável, porque o mundo não está mole.
Quando saí da universidade eu tinha certeza de que iria ter trabalho. Qual era eu não sabia, mas que ia ter trabalho ia. Hoje eu acho que nenhum jovem sai da universidade com emprego garantido. Não dá para afirmar que ele vai encontrar trabalho na área que ele quer trabalhar, na área em que ele gosta de trabalhar, na área que ele vai ser feliz trabalhando. Tem tanto jovem que se forma como advogado e vira gerente de loja. Tomara que ele seja feliz, não é uma questão de qualidade é uma questão de felicidade. Agora, eu tenho muita admiração por essa geração, porque acho que é uma geração confrontada com uma realidade muito dura e ela quem tem que partir pra luta. Eu não vejo que eles esmoreçam não, eles vão firmes na luta.
Eles inventam empresas, ficam ricos, um ou outro muito raramente fica rico muito jovem, e na minha geração ninguém ficava rico tão jovem, a não ser por herança do papai e da mamãe.
5) Está feliz com a receptividade?
Eu acho que o filme é um aprendizado. Então não me deixa entusiasmado pelo contexto. É verdade que fico muito contente. Eu gostaria que o filme fosse visto, esse é o essencial. Dinheiro eu não vou ganhar nada, que o filme é de baixo orçamento e só um milagre faz com que você ganhe algum dinheiro. Então, o filme vai terminar se pagando bem, não tem problema, já vou ficar contente. Parece que o filme está se segurando nas salas de cinema, com muita demanda dos festivais no interior do Brasil. A UNE pediu entrevista por telefone, publicou na primeira página. O festival putz! também. O filme está abrindo os caminhos que existem.
Agora eu vou fazer um próximo filme e já não estou mais muito interessado naquilo que eu sei, mas no que eu não sei. Porque aquilo é a área que tenho que me aprofundar, aprimorar, estudar. É essa a área misteriosa. Eu gosto de não entender.