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Homem-Aranha 3

A fórmula é a mesma dos dois primeiros. Aventura dosada com humor, apoiada no talento de Tobey Maguire. Há cenas de ação que são um show de efeitos especiais, mas Sam Raimi sabe que é preciso drama para mover a história, então intercala os elementos da melhor forma possível. Quando a ação está ficando entediante, os atores tiram as máscaras e conversam, discutem problemas, tomam um café. Se o drama começa a cansar, surge um Homem-areia aqui, um Venom ali e tudo volta aos eixos.

Homem-aranha 3 é uma continuação direta dos anteriores. O Homem-aranha, que antes era visto como uma novidade ameaçadora, se tornou o herói da cidade. Há balões, brinquedos e telões com seu rosto, as crianças o vêem como um exemplo, os pais adoram o homem mascarado que vem pendurado em edifícios para salvar os cidadãos inocentes. Não tem jornal ou revista de fofoca de Nova Iorque que não o coloque na capa. Isso mexe com o ego de Peter Parker (Tobey Maguire). Não importa o anonimato do seu eu fotógrafo, ao vestir a fantasia ele é o centro das atenções.

Do outro lado, Mary Jane (Kirsten Dunst, de Maria Antonieta e As Virgens Suicidas) estréia no teatro. Todas as críticas falam mal e ela é despedida. Como boa namorada, ela busca o apoio de Peter, mas ele está ocupado demais olhando o próprio umbigo e salvando a cidade. Empolgado com sua autoconfiança reforçada, Peter decide pedir Mary Jane em casamento, justamente quando ela prefere se afastar por se sentir incompreendida.

Problemas de relacionamento apresentados, vamos aos potencializadores. Todo mundo sabe, o Homem-aranha só é quem é por causa da morte de seu tio Ben. “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, disse o tio antes de morrer em Homem-aranha 1. Para transtornar Peter e sua tia May, a polícia descobre que o homem que matou o tio Ben ainda está solto. Coincidências da vida, ele é o Homem-areia/Flint Marko (Thomas Haden Church, do filme Sideways), um dos grandes inimigos e efeitos especiais do filme (às vezes exagerado, subestimando o talento do ator).

Para exacerbar o ego inflado de Parker, a trama traz o simbionte Venom, uma forma de vida alienígena que desenvolve uma relação de amor e ódio com o Homem-aranha. Ela se integra ao uniforme de Parker e o deixa mais forte, mais rápido, mais cruel e metido. Conforme o Homem-aranha/Peter Parker muda de caráter o filme vai aumentando o humor e Tobey Maguire aproveita para criar cenas memoráveis. Tem penteado EMO, dancinha na rua, cantada na vizinha, piruetas na boate e um belo acerto de contas com Harry Osborn (James Franco, de Tristão + Isolda), seu melhor amigo.

Como nada é simples na vida de herói, Harry Osborn é filho do Duende Verde. Ele aprimora as roupas do pai, começa a ouvir vozes, fica maluco e resolve se vingar do Homem-aranha, achando que o herói é o responsável por sua condição de órfão. Ele também aposta em um flerte com Mary Jane fragilizada para atingir Parker, formando um triângulo amoroso estilo HQ. Assim, o espectador ganha duas boas seqüências de ação no filme. A luta do Novo Duende Verde com o Homem-Aranha EMO é um dos grandes momentos, sem muitos efeitos e com boas atuações (até mesmo James Franco se esforça além do habitual).

Já que Mary Jane está sofrendo sem emprego, sem namorado, chantageada, com frieira no dedão e tudo mais, o roteiro traz mais um complicador. A loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard), que nos gibis foi o primeiro amor de Parker, aparece no filme como uma mulher inteligente e bonita, desestabilizando a autoconfiança de Mary Jane e seu relacionamento com Peter.

Quem é fã de Bryce Dallas Howard pode se decepcionar. A loira faz só uma ponta. Nada que se compare a trabalhos anteriores como A vila, Marderlay ou o infantil A dama na água.

Talvez você esteja pensando que com isso tudo seria possível fazer dois filmes. Tem toda a razão. Por algum motivo inexplicável, Sam Raimi projetou Homem-aranha para ser uma trilogia, e com isso condensou vários elementos narrativos e da mitologia dos gibis em um filme só. Sorte que ele é um bom diretor, acostumado com híbridos de humor, aventura e terror desde os tempos de Uma Noite Alucinante, e se saiu bem, até mesmo conduzindo a história de Venom, o alienígena que divide opiniões dos fãs do Aranha nos HQs (a mitologia de Venom é preservada ao máximo no filme, pontuando diversas partes do roteiro).

A mais prejudicada talvez seja Mary Jane. Como Homem-aranha 3 é um filme de homenzinhos e surtos de testosterona (a disputa de egos entre Peter Parker, Harry Orbson e Eddie Brock/Venom ), Mary Jane acaba se tornando funcional, o que diminui a personagem.

O sucesso financeiro estrondoso fez o estúdio entrar em negociações com Sam Raimi para uma parte IV em 2009. Atores e diretor parecem dispostos a participar apenas se todo o elenco for mantido.

Homem-Aranha 3 custou US$265 milhões oficialmente, tornando-se o filme mais caro da história. O mesmo recorde foi batido na arrecadação. Em 10 dias o filme arrecadou mais de US$ 620 milhões mundialmente, se pagando com folga.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0007, em 15/5/2007

 

 

 

 

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