arte chinesa contemporânea
Não dá para dizer que conheço a China. Nem precisaria. Afinal, uma arte que se nomeia contemporânea e, portanto, internacionalizada, não dependeria de tais contextos. Sei que deve ter um cheiro de cavalos de carroças pelas ruas e um cheiro de fumaça de fábricas pelos ares, na passagem do rural para o urbano. E uma perplexidade de quem sai da brutalidade de uma repressão política. Coisas portanto conhecidas por aqui.
A peça central da exposição China Hoje - Coleção Uli Sigg, do CCBB-RJ, é um grão de areia onde há um texto escrito, um exemplo atual da velha arte da caligrafia. Está no foyer da instituição e só por isso já adquire um status diferente das demais. Seu autor, Lu Hao, participará da próxima Documenta, de onde Alfons Hug, o curador da mostra carioca, já foi curador. A peça conta a história de Hu, que deixa sua cidadezinha e vai para grandes centros, onde não se adapta. Ele é pai de três filhas, diz o texto. E, isso eu também sei, é algo que aumenta sua desgraça. Fossem três filhos, e ele não estaria tão mal. Mulher, na China, não tem muito valor. A frase escrita no grão de areia é reproduzida em um estande em espiral a ser percorrida de fora para dentro. Termina em um centro. O desconforto é que não há mais centros a serem alcançados no pensamento atual. Nem há mais volta a aldeias - brasileira, chinesa ou o que seja - em busca de um passado cuja idealização, essa sim, pode existir em qualquer cultura.
Há mais peças de igual teor, a exposição - quase só de pinturas, um suporte portanto bem tradicional - põe em discussão justamente a ambigüidade deste título, arte contemporânea, em arte que lida com a relação de poder em dualidades bem determinadas. A nostalgia de Hu vai além da aldeia e atinge o autoritarismo de estado, decadente, e que, parece, deseja-se que seja substituído por algum outro - que impeça os abusos que ele sofre nas poucas frases do seu grão de areia. Os candidatos a tal substituição são o próprio artista quando retrata-se a si mesmo; a arquitetura monumental, fascista, representada em massas imponentes; ou a própria composição e técnica perfeita das pinturas a óleo. Ou o dinheiro. Há um fluxo muito grande de dinheiro na China de hoje e alguns destes quadros aqui comentados têm preço de mercado de vários milhões de dólares. Fala sério. A especulação pode ser tão autoritária quanto um ditador, a nos obrigar a ver de novo o que já vimos várias vezes antes e há muito tempo.
A questão da boa acolhida feita pela arte contemporânea internacionalizada aos acervos culturais locais, populares e artesanais, é bem conhecida. É uma arte que apresenta, portanto, uma abertura em relação ao fechamento do modernismo tardio, construtivista, que tinha horror a povo. O problema é quando a exposição mostra que em vez de patrimônio em constante transformação, o viés nacional parece ser, ao contrário, tradição a ser defendida, embora com concessões à vida metropolitana e cosmopolita.
Na paisagem sem título de Fang Lijun, o contorno de sua cabeça careca, enorme, centralizada e de costas para o fruidor, domina o seu assunto: cisnes sobre azul.
Li Dafang tem dois grandes óleos, Letter e Sky. Nos dois, um personagem solitário domina uma paisagem urbana decadente tratada de forma a ser vista com um ar romântico. No primeiro, um monte de escombros se faz de montanha para o personagem, talvez um catador de rua, virar um super-homem, um highlander. No segundo, um rio urbano, sujo, é pintado com uma névoa espiritualizada e o personagem se torna um herói desbravador.
Chen Wenbo, em Siyuanqiao, traz uma composição geometrizada que não perde seu referencial, uma construção arquitetônica, limpa, com superfícies chapadas e sem detalhes, distanciada portanto de seu uso humano.
Na Tiananmen Square de Yin Zhaoyang, as figuras humanas se tornam um grafismo a compor o entorno do edifício, símbolo do poder, centralizado, com um vermelho, o das bandeiras nacionais, ausente do resto do quadro, em tons neutros.
Idem para o Beijing Hotel, de Jing Kewen, que mostra uma rua central, um boulevard com árvores, carros e ônibus, também tão limpa que se pensa em um sonho de organização e controle públicos do poder. Neste quadro, as linhas, em diagonal, se encontram onde está a figura, também em vermelho, dos tetos recurvos, tradicionais, arcaicos.
Há uma sala dedicada exclusivamente à arte da chamada Revolução Cultural, com seu realismo moralista, positivista e patológico. Não sei a razão. Mas explica o resto, como eu supus neste artigo.
A técnica da pintura a óleo é primorosa em todos eles, um exercício de disciplina e obediência às regras da representação.
Não há objetos. Há uma estátua. Buda sendo tentado por uma mulher. Bem.
Agora, os que eu gostei.
Li Songsong, artista que veio pessoalmente à abertura da exposição, traz a técnica da pintura a óleo como ela foi entendida durante o período em que a pintura saiu da frontalidade e ganhou o espaço, em uma tridimensionalidade que viria a eliminar, posteriormente, as classificações antigas que determinavam o que era arte bi e tridimensional. Seu conjunto de seis quadros tem um emplastro grosso, expressionista.
Huang Yan traz uma atualização interessante, com a representação de tatuagens que, por sua vez, representam a velha e tradicional pintura chinesa de paisagens.
Qi Zhilong põe faces rosadas, pop, na moça-soldado, o que é dúbio: ele pode pretender criticar a rigidez militarista ou, pelo contrário, humanizá-la, torná-la mais palatável. Não sei.
Li Dafang e Xu Wen Tao trazem um viés homoerótico em seus quadros, o que é sempre sinônimo de abertura e quebra de tradicionalismos.
Miao Xiaochun, Shao Yinong e Mu Chen são, de todos, os que mais conseguem se livrar da repetição conformista de uma relação de poder para criticá-la decididamente. Trazem a representação de assembléias populares, salas oficiais. As salas são vazias, decadentes. Uma lâmpada apagada, dependurada por um fio, eis o seu centro.
outras imagens da exposição
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















