Proposta séria de fazer rir
Está em cartaz no despretensioso Espaço Café Cultural em Botafogo o espetáculo Encontros de Humor – projeto que reúne sete novas companhias de teatro que, entre 5 de maio e 3 de junho, apresentam seus esquetes cômicos. A cada final de semana, seis companhias apresentam sete peças curtas (algumas se repetem, outras se revezam), totalizando um prodigioso número de doze produções, intercaladas por cenas improvisadas pela sétima companhia. Anticia de Teatro, Colápsico, Corpostranho, Histéricos e Obsessivos, Os Improvisáveis, Teatro de Nós e Ubu no Orelhão criaram e produziram o evento / espetáculo (como eles próprios o definem), que tem Diego Molina na direção geral.
Jovens atores, diretores, autores e figurinista (o único citado no programa é Bruno Perlatto) dedicam-se à difícil arte da comédia com diversidade, criatividade e séria proposta de investigação e renovação do gênero cômico de curto fôlego. Apesar da produção modesta, o que se vê no tablado não é simplório nem busca o riso fácil. Os sete esquetes não extraem sua comicidade explorando as velhas piadas sobre as minorias (negros, homossexuais, judeus, idosos) nem enfocando o sexo fácil ou histérico, mas preocupam-se em produzir um humor mais atento às particularidades da sociedade contemporânea. Por isso, não provocam a risada solta, rasgada. Atuam, antes, com um humor meio-amargo, dialogando com a inteligência do público. Aliás, comédia nunca foi sucessão de piadas, como estamos cansados de ver por aí. É gratificante assistir o rigor e o talento desses jovens profissionais que, sem pudor de “meter a mão na massa”, realizam com dignidade e poucos recursos econômicos a sua atividade.
A estrutura de Encontros de Humor evoca o Teatro de Revista, com cenas autônomas interligadas por uma dupla de mestres-de-cerimônia. Em tal gênero musicado, os esquetes deveriam passar em revista os acontecimentos mais marcantes do ano anterior. No atual espetáculo, temos uma espécie de arremedo do Teatro de Revista, sem o auxílio da música cantada, onde os fatos revisitados não são exatamente os do ano que passou, mas traços marcantes de nosso mundo atual. Tendo assistido o espetáculo dos dias 12 e 13 de maio, os esquetes a serem analisados são, por ordem de apresentação, O Encontro; Um. Zero. Um; Fome; Manual do Bom Teatrinho; Sessão Matiné; Secretária Maldita; Repertório De. Graça (Ciganas); além das inserções da companhia Os Improvisáveis (que também alteram suas cenas a cada semana).
Em O Encontro da companhia Teatro de Nós, três mulheres, sentadas num banco de praça, aguardam um homem para o primeiro encontro. Em seguida, passam a desconfiar de que o homem esperado é o mesmo para as três. Partindo de uma situação absurda, o texto de Renata Mizrahi revela a impossibilidade de comunicação entre as três mulheres cujo objetivo comum é inconciliável. Alternando pausas com monólogos paralelos, a direção de Diego Molina expõe ainda mais a proliferação do mesmo: as três personagens aguardam ansiosamente, embora com desconfiança, aquele que poderá trazer alento para sua solidão urbana. Interessante notar que a peça não mostra uma única mulher à espera, melancólica e desiludida, mas três cópias da mesma, deixando à mostra a reprodução em série da solidão. Às três é vetado o diálogo entre si, estão ilhadas na expectativa pelo que virá de fora, e que poderá aliviar-lhes o peso do desamparo no mundo. Obviamente, esse alívio não virá: o pretendente a namorado é uma personagem inalcançável. Se é de todas, não será de nenhuma. A peça faz-nos pensar no grande número de amigos virtuais que temos em sites de relacionamento, e que parecem preencher o vazio de nossa solidão, mas acentuando-o em contrapartida. Não é mais a solidão por falta de companhia, mas pela extrapolação de companhias virtuais. Elisa Pinheiro, Natália Simonete e Renata Mizrahi, que interpretam as três solitárias, executam com rigor técnico a repetição de gestos, pausas, silêncios e monólogos, trazendo a essa “monotonia” um humor perspicaz, sublinhado pelo sobressalto constante em que posicionam suas personagens.
Um. Zero. Um. é uma adaptação do conto “Osmo” de Hilda Hilst, feita pela companhia Ubu no Orelhão e dirigida por Natália Simonete e Bruno Perlatto. Um homem recebe o telefonema de uma mulher, convidando-o para dançar e esse fato corriqueiro provoca nele um fluxo intenso de pensamento, enveredando por um terreno escatológico, colocando-o em estado de crise: Osmo não sabe se permanece em casa, em seu estudo de metafísica e sobre Deus, ou se aventura na noite, em companhia de um ser vivo, que pode lhe trazer prazeres e desgostos. Sua verborragia é cortada por recurso teatral, com o crescendo do volume da música e o apagar das luzes sobre o ator. Calaram o incômodo desabafo de Osmo. Marcos Nauer imprime vigor corporal à personagem de Hilda Hilst, e contrapõe o humor cáustico de Osmo a uma inquietação sorridente, mesmo quando fala das coisas mais absurdas. O contraponto, quando se trata de comédia, sempre é bem vindo.
O terceiro esquete, Fome da Cia. Corpostranho, tem texto e direção de Jô Bilac. Três mulheres vestidas de noiva e carregando sombrinhas, como damas antigas, compartilham do mesmo homem: Timothy, a antítese do garanhão. Após um pequeno preâmbulo onde citam a voracidade do mundo animal, Darling, Honey e Cherry passam a pôr em prática a convivência com seu único esposo: o trato inclui direitos iguais para as três noivas, o que for dado a uma deverá ser entregue às outras. É quando começa a escatologia reveladora do esquete: Darling devora um dos braços do noivo, o que dá às outras a vontade e o direito de literalmente comer Timothy aos pedaços. A fome das três mulheres não tem limite; elas só ficarão saciadas quando nada mais houver para comer. O texto, com requintes de humor negro, expõe inteligentemente a fatalidade de nosso desejo voraz, que não freia nem diante da possibilidade de se extinguir o objeto de nosso desejo. Fez-me lembrar a canção entoada por Jeanne Moreau no filme “Querelle”: Each man kills the thing he loves… (Cada homem mata a coisa que ama…). Darling, Honey e Cherry destroem o que amam, e Timothy, mesmo mutilado, não perde a gentileza e não deixa de se render afetuosamente ao desejo voraz de suas amadas. É uma amarga metáfora de nossos relacionamentos amorosos, com boas interpretações de Sandro Pamponet, Adriana Valdevina, Patrícia Britto e Taciana Brown, que equilibram a voracidade da situação com delicadeza, afetividade e certa tristeza fatalista.
Manual do Bom Teatrinho de Aramis David Correia, Fernando Maatz e Lídia Olinto é o único esquete a trabalhar com a metalinguagem. Três atrizes debatem sobre a melhor maneira de se fazer o bom teatro, sendo necessário que consultem o “Dicionário de Teatro” de Patrice Pavis, que desaba sobre elas como uma bigorna. Após lerem a definição do termo sketch, decidem pôr em prática o breve verbete. Fernando Maatz dirige com dinamismo, criatividade e explorando as possibilidades vocais das três disponíveis atrizes: Fabiana Fontana, Helen Miranda e Janaína Russef. O texto é ágil e não tem critério moral: trata ironicamente tanto o teatro comercial quanto as pesquisas de vanguarda. O “teatrinho” do título não tem alvo certo, pode ser um drama realista ou uma montagem “renovadora”. A flecha pode, inclusive, atingir a elas próprias, em cena. De todos os esquetes, esse é o mais iconoclasta. As personagens (se é que se pode falar em personagem) alegam que a única coisa que sabem fazer, ou pelo menos o que fazem melhor, é gritar. E gritam, mesmo que sem causa, mesmo pelo simples prazer de gritar. Parece uma alusão à arma dos jovens atores que querem romper as barreiras do teatro profissional: a rebeldia (com ou sem causa).
Sessão Matiné, pela companhia Histéricos e Obsessivos e sob direção de Rodrigo Nogueira, parece a princípio o mais inofensivo dos esquetes: um pretexto simples move a ação. Um homem senta-se, num cinema praticamente vazio, ao lado de uma mulher. Mas ao contrário do que se poderia esperar, o tal sujeito não é um tarado sexual. Felizmente, o texto de Julia Spadaccini e Rodrigo Nogueira não cai nessa obviedade. Incomodada com a proximidade do desconhecido, a mulher argumenta que o homem teria 514 lugares vagos onde poderia se sentar, e não precisava invadir o espaço pessoal dela. Conclui, com pouca paciência, que no caso de um cinema praticamente vazio – visto que estão numa sessão matiné de terça-feira – seu espaço pessoal se expande e a agressiva proximidade do outro mais a afeta. A simpatia do invasor não a comove e ambos desenvolvem o assunto até o desfecho constrangedor. Mas o que é interessante registrar é o debate atualíssimo sobre a convivência com o outro nas megalópoles superpovoadas, é a aceitação dessa incômoda vizinhança, dessa nossa solidão rodeada de rostos, é a tentativa de preservar alguma dignidade e individualidade numa sociedade que constantemente nos invade, nos incomoda e nos observa com proximidade incomodativa. Nina Morena e Pedro Monteiro formam uma boa dupla cômica, explorando com segurança o clássico jogo do ingênuo e da mal-humorada, revertendo-se ao final para o choque entre a esperteza e o pasmo. É interessante a curva que o texto faz, levando as argumentações femininas a fortalecer as justificativas do incômodo vizinho.
Secretária Maldita, mais um texto de Renata Mizrahi da companhia Teatro de Nós, é o menos surpreendente dos sete esquetes, talvez por conduzir a situação dramática a um beco sem saída. Uma atriz frustrada por ter seu projeto de teatro bloqueado por uma burocrática secretária, procura uma psicóloga estagiária para livrar-se de seu ódio. Contudo, quando a psicóloga reproduz o discurso da secretária em relação ao dinheiro necessário para a cura, a paciente surta e passa a ameaçá-la com um revólver, obrigando-a a realizar uma retrospectiva do encontro com a secretária maldita, até o desfecho fatal. O que o esquete tem de mais interessante é a nossa descrença dos discursos (inclusive o psicanalítico) e a busca das soluções radicais, mesmo que representem uma viagem sem volta, como o uso de armas para se conseguir o que se quer. A neurótica atriz não faz esforço para compreender os meandros da burocracia teatral e nem as suas próprias falhas como atriz-produtora. Quer apenas vingar-se, não importa em quem. Essa violência exacerbada justifica o esquete, apesar de sua pouca ousadia estética. Novamente, Diego Molina dirige Renata Mizrahi e Elisa Pinheiro, boa dupla de comediantes.
Ciganas é o último esquete da noite, apresentado pela Cia. Colápsico em seu Repertório De. Graça. A companhia, de todas a mais fértil, tem quatro esquetes em sua programação. O texto, a direção e a atuação estão a cargo das ótimas atrizes curitibanas Katiuscia Canoro e Fabiula Nascimento. Uma cigana explora a caridade pública numa praça, ao se apresentar ao lado da filha cega. O esquete faz uso da crueldade, da escatologia e do mau gosto numa cena de humor negro, onde a dupla de comediantes expõe o desrespeito com o próximo, mesmo que seja sua própria filha, a necessidade de sobrevivência, a exploração de aberrações ou deficiências físicas. É cáustico o humor da Cia. Colápsico, desrespeitoso no que o desrespeito tem de melhor: expor as feridas sociais e a nossa face hedionda.
Os Improvisáveis é a companhia responsável pelas ligações entre os esquetes, com cenas que têm como base a improvisação. André Siqueira e Diego Becker formam uma afinada dupla de comediantes, ótimos mestres-de-cerimônia desse agradável espetáculo de humor. Vale a pena sair do circuito badalado dos teatros, redutos de espetáculos cômicos da cidade, e assistir Encontros de Humor, antes que eles acabem. Ainda fazem parte do repertório os esquetes Adeus. Aquele Abraço; Estudo sobre a Sedução em Mamíferos Racionais; Bruna Moribuguie; Graucia e Grauciane; Romeu e Julieta.
Marcelo Morato é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.







































