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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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19/05/2007

Baquilides

Agora como sempre
com outro é que se obtém perícia:
pois não é fácil alcançar
a porta das palavras nunca ditas.

(Baquilides de Ceos)

De Baquílides encontramos alguns fragmentos de peãs e dezenove poemas completos (segundo informação de Péricles Eugênio da Silva Ramos). Um de seus fragmentos – o Agora como sempre – que transcrevo no inicio do texto, é de uma inusitada beleza.

Quando se lê a poesia grega, muitas vezes espanta a clareza de suas construções; parece que elas comentam e traduzem um sentimento que se universaliza como certeza. Fica-se meio perdido, com a sensação de que a beleza pode ser simples e clara. Desconfia-se. Os leitores socorrem-se de Safo, Anacreonte ou Arquíloco. A mesma precisão é encontrada em seus versos.

Embora não conheça o grego, a percepção das traduções em português, em espanhol e em francês revela a mesma impressão de que estes poetas aliam duas qualidades fundamentais da poesia, a extrema musicalidade e a naturalidade do que dizem e do como dizem. O peã de Baquílides mostra ao leitor do século XXI – ainda que a recepção grega deva ter sido diferente – alguns métodos da composição poética da Antiguidade Clássica.

O primeiro verso do peã inicia-se com afirmação peremptória que lhe dá a medida do que é próprio à composição, unindo as pontas do tempo, isto é, o agora como sempre indica o presente e impele tanto para o passado quanto para o futuro. A certeza de que o verso se mantém dentro de sua unidade parece evocar uma imanência perfeita: poesia é e será – pretensiosos esses gregos – o que dela a tradição diz ser.

O segundo verso confirma a percepção, pois se deve mergulhar no estudo do passado, da tradição, para que se possa manter e ou confirmar a perícia da poesia. O verso parece confirmar a peremptória afirmação inicial, entretanto, tanto funciona para sua manutenção quanto para a sutil e não menos peremptória afirmação de sua diferença. A tradição serve para repetir – imitar – e para diferenciar, tornar único o poema que se escreve, ou para, como quer o poeta, alcançar as portas das palavras nunca ditas.

Em seus versos, toda a construção do pensamento grego sobre a arte – que estará em Platão, com seu realismo, e em Aristóteles, com sua busca de uma função para a arte, se perfaz de maneira assustadora e completa. Pensar o que é a poesia, para Baquílides de Ceos, é acercar-se do inusitado mantendo sobre esse inusitado uma base comum, uma dicção que repete e amplia.

Imitação e diferenciação. Repetição e ampliação. Talvez seja esta a medida que se perdeu, quando os latinos introduziram na poesia a medida prática da moralidade e viram na mimesis grega apenas a imitação – repetição dos cânones consagrados que irão marcar a poesia e o pensamento ocidental por longo tempo.

Perdida a qualidade da mimesis, perdeu-se a conexão direta com o inusitado da beleza, que se revelava nas portas das palavras nunca ditas, mas reconhecidas por toda comunidade grega e de seus herdeiros, que somos nós.

 


Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

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