portfólio cia de foto e olivia maia
Que você fala porque não consegue suportar a imensidão do silêncio é uma idéia que pode tropeçar no misticismo. Não é à toa que práticas religiosas incluem silêncios obrigatórios como uma das condições para que se escute a palavra do deus. Há aí uma noção temporal: primeiro, no “início”, haveria um silêncio, e depois, surgiria a palavra, sendo que a do deus é a primeira, mais completa, verdadeira, abrangendo todas as outras. Ou seja, o deus é o dono de um silêncio total que ele pode ou não quebrar e é a partir daí, em um segundo momento, que reproduziríamos “ecos” imperfeitos, as palavras.
Religiões à parte, fica um conceito interessante para os que se dedicam a pensar linguagens: no silêncio há um significado fluido e unificante (ponha-se aí um deus, mais de um ou nenhum, no resquício de um passado não-humano - não inserido em linguagem - que sempre tentamos entender historicamente e que talvez devamos ver como concomitância enriquecedora). Este significado uno do silêncio, nós o destrinchamos em pedacinhos, individualizamos e, ao fazer isso, também o estratificamos, mesmo que seja apenas pelo tempo de a palavra atingir um outro e ter por ele seu significado modificado.
É desse silêncio que fala a exposição Portfólio, no Itaú Cultural de São Paulo. Tem texto e imagem, e o jogo intersemiótico das duas linguagens merecia um comentário separado, que incluísse essa longa e ideologicamente comprometida convivência, em diversos graus de “textos ilustrados”. A mostra traz curadoria dupla de Nelson de Oliveira (texto) e Eduardo Brandão (fotos). As fotos são do grupo Cia de Foto e o texto é da escritora Olivia Maia.
Como é o silêncio deles: o som da sala é de sirenes, zumbidos, batidas indistintas. As fotos são de paredes manchadas, pessoas cujas vozes não são ouvidas pela sociedade de consumo, alguém dança em uma montagem de stills. No seu texto, Olivia Maia descreve o ruído urbano que cerca alguém que quer tocar um piano. Termina assim:
“São as paredes desse apartamento. Cinzentas. Absorvem a luz e acolhem todos os sons distantes da cidade, e sempre haverá um zumbido feito conseqüência de tudo que se move, e sempre haverá os gritos e meus pensamentos e essa música repetitiva que segue rumo a lugar nenhum perseguindo labirintos dentro da minha cabeça. Deixo que os dedos toquem as teclas e delas então são as notas saindo mudas e invisíveis: que eu fosse parte desse silêncio histérico que me afligia, dissolvido no espaço. Tocava o que ninguém poderia ouvir, como sopra o vento no deserto. Era o silêncio, todo, aos gritos. A melodia e os ratos e os carros e a fotografia e o aspirador de pé e os gritos de uma criança na rua, caminhões atravessando pontes e um morador do último andar que assiste à televisão, e o feirante que chama os passantes olha a laranja laranja laranja.”
Que Olivia Maia descreva o silêncio total, uno, como o composto indistinto da vida só fala bem dela e de nós que estamos nele e o fazemos assim.
Uma nota: o narrador toca. Isso faz lembrar Heidegger e o que ele disse da música: a única atividade humana que não quer representar nada, que é, ela em si, o impulso da representação. Algo de muito, muito antigo, ou de muito, muito presente.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















