Síndrome de Cérbero
Um livro de ficção científica ainda consegue fugir dos clichês que acompanham o gênero? Tibor Moricz mostra que sim em sua estréia na literatura. A trama gira em torno de uma das maiores ambições da humanidade: viajar no tempo. Tibor evita descrições de efeitos especiais mirabolantes e explora o psicológico dos personagens, usando a ambientação da ficção. Em Síndrome de Cérbero o leitor não encontrará dinossauros, reis egípcios ou naves alienígenas. O que está em jogo é a vida (no mais amplo sentido) do protagonista e aquela velha pergunta que todos fazemos um dia: se pudéssemos voltar no passado, mudaríamos alguma decisão?
O narrador da história é Leonard Cameron, um cientista atormentando pelo passado amargo, descrito como um físico não muito brilhante, mas que se torna o homem certo no lugar certo. Leonard é um homem solitário, quase assexuado, que decidiu viver em suas memórias. Ele é incapaz de se relacionar, fazer planos que mirem o futuro, talvez pelo medo de não estar lá. Não quer constituir família, nem criar vínculos ou dependências, por carregar nas costas uma perda muito grande, irreparável. Ao mesmo tempo, Leonard tem uma carreira bem-sucedida. É o supervisor de uma instituição científica, o sujeito que confere os projetos, orçamentos e cronogramas. Aquele cara que anda pelo corredor com olhar atento e de quem ninguém gosta. Você deve conhecer um desses. Por isso, ele tem um pé no presente (o lado profissional) e um pé no passado (o sentimental), funcionando como uma máquina do tempo humana em tempo integral.
A união do elemento ficcional ao diálogo com a memória é o grande trunfo do livro.
No primeiro capítulo, conhecemos a infância do futuro cientista. Um garoto de dez anos que vê no mundo um terreno infindável de descobertas, pronto para ser modificado pela sua imaginação. É um mundo povoado mais por heróis do que vilões. Num pulo da cama Leonard pode voar e subir pelas paredes. Em um terreno baldio, enfrentar inimigos terríveis na ponta de um galho de árvore. Não é preciso fechar os olhos para sonhar. Dentro desse universo fantástico há um herói em especial: Robert Cameron, seu pai. Ele não possui super-poderes, não levita nem atravessa parede, mas é perfeito aos olhos do filho, que se encanta com um jogo de beisebol, uma corrida no parque, um minuto de atenção.
“Meu pai era uma pessoa especial. Jamais, em tempo algum, deixou de atender aos meus pedidos, mesmo os mais idiotas. Não que ele me fizesse tudo, mas sua atenção era a mesma, seja para satisfazer minhas vontades, seja para me repreender quanto ao absurdo de minhas propostas. Eu era seu referencial. Único filho e essas coisas todas. (…) Ter 10 anos de idade tinha lá suas vantagens. A diversão era uma das minhas mais importantes responsabilidades sociais”.
Tudo corre bem no dia a dia, mas o clima melancólico das lembranças de Leonard já anuncia a morte que mudaria sua vida. Um besouro negro avermelhado que pousa na testa do pai durante um passeio e que de repente escorre. O corpo tomba para frente, a mãe grita e se desespera. A criança entende que algo está errado. Seu pai está morto.
É uma cena de simbolismo forte, pois desmonta a dinâmica da morte pelo tiro. A bala entra por um lado, sai pelo outro e o sangue escorre. O conjunto em si é traumático. É um evento rápido, uma mudança muito drástica que a mente não tem velocidade para acompanhar. Para Leonard, todo esse conjunto está aprisionado em um só momento. Não se trata do dia em que o pai morreu, mas do segundo preciso. O instante em que Leonard teve a infelicidade de estar olhando para o pai, e ver o furo na forma de um besouro.
Como nem só de memórias vive o protagonista do sci-fi, as viagens ganham também um veículo físico. Um dos pesquisadores da fundação de pesquisas científicas Leicester, depois de muitas tentativas frustradas, descobre um modo de viajar no tempo. Leonard não resiste à possibilidade e se oferece de cobaia. O ponto no passado não poderia ser outro.
Em princípio, o objetivo de Leonard é salvar o pai, nada mais natural. Entretanto, quando ele fala sobre o assunto, usa uma diferença sutil, que explica o seu comportamento até o fim do livro: ele quer ter mais tempo ao lado do pai. O que poder entendido como recuperar a própria vida.
“Eu, no presente, calculando como agiria no passado. Paradoxal, mas envolvente e espetacular. Aquele dia seria um marco na história humana. Seria um marco na minha história e na história do meu pai. Quantas vezes ouvi alegações sobre a inexistência da vida após a morte?Eu provaria que ela existia. Meu pai não morreria… mesmo tendo morrido”.
É claro que ninguém sai ileso de viagens no tempo. Todo bom fã de ficção científica sabe que a lista de contra-indicações e efeitos colaterais é extensa. Tibor é bem competente ao inventar teorias do espaço-tempo e conseqüências orgânicas e temporais, sem jamais abandonar o perfil psicológico do protagonista. O que acontece sempre se reflete em sua mente, chegando inclusive a ampliar a solidão da qual está tentando fugir. Junto a isso, o desnudamento do passado de Leonard e o retorno às lembranças ganha um caráter investigativo. Afinal, quem matou Robert Cameron? Por que um político em início de carreira vira alvo repentino de um atirador? Por que a polícia não solucionou o caso? Mera incompetência?
Como investigar é abandonar a passividade, ao assumir o papel de detetive e salvador, Leonard lança um novo olhar sobre sua história. Além de um ótimo lugar para um viajante do tempo passar o dia, o passado é uma verdadeira caixinha de surpresas. Basta analisar com atenção.
“Jamais em minha infância tive a experiência de ver a TV ligar sozinha. (…) Por isso mesmo que essas manifestações me causavam um susto considerável. É difícil lidar com eventos dessa natureza. Bem, na verdade também era difícil lidar com portas rangendo quando eu era criança. Conscientemente sabemos que é o vento. Só que há um sussurro que vem do fundo da gente, alertando que ali, naquele ranger inofensivo, se esconde um monstro brutal que ambiciona o nosso sangue”.
Tibor Moricz foi um dos premiados do XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, com um conto de ficção científica.
Síndrome de Cérbero
332 páginas.
JR Editora.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































