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Gabriela Maciel

Um truque de quem escreve narrativas é fazer com que surpresas e tensões sejam sempre anunciadas antes, em descrições anódinas, para que o leitor não perceba a literalidade ou a possibilidade oculta daquilo que está sob seus olhos, e depois veja que o desenrolar da história se sustenta, é filho de, integrado mesmo, às circunstâncias anunciadas. Assim, a coisa segue com naturalidade e o que vem à cabeça é um “é como as coisas acontecem”.

Gabriela Maciel faz esculturas que mostram como as narrativas são feitas. Usa, para isso, aquelas telas de plástico que edifícios em construção têm estendidas em suas fachadas, à guisa de proteção para pedestres, disfarce para o que está sendo feito.

As telas são furadas, por elas perpassam ar e olhos. E som.

Na galeria de Laura Marsiaj, as telas, enroladas e desenroladas, têm sua trama - nos dois sentidos, o literário e o fabril - disposta pelo chão, com os nós das tensões, os desvios e prolongamentos existentes em qualquer história. Você pode modificá-los, trata-se de uma história aberta, daquele tipo em que o leitor participa, decidindo-se por esta ou aquela hipótese, todas viáveis.

O que Gabriela Maciel diz aqui é que as linguagens se aproximam nessa nossa contemporaneidade sem categorizações. Sua exposição é uma escultura, perfomance, a imagem de um som. E estrutura de novela (novelo).

Gabriela Maciel @ Laura MarsiajA etimologia da palavra alegoria é alla agoreuein, e quer dizer dizer algo diferente, ou dizer a mesma coisa de forma diferente. Com a virtuosidade da ilusão da representação há muito perdida, há aqui uma ilusão tão potente quanto a antiga: faça o teste, comece em um dos grandes nós brancos, apoiados na parede e siga, pondo nesse caminho um enredo de sua escolha, sem perder de vista a tridimensionalidade/intertextualidade da sua história, que se imbrica com outras, de outros conteúdos, e com o passado distante que está, como os passados distantes estão sempre, tanto na tradição da pintura e da literatura, envoltos na cor azulada do horizonte. Os nós e seguimentos azuis estão mais ao fundo para quem entra.

Siga a linha da trama, modifique-a, aqui houve um susto em um momento, seguido de outro logo depois, e vá. Chegará na falsa veritas da ficção - feita de palavra ou imagem.

Gabriela Maciel @ Laura MarsiajPalavras escritas em obras de arte visual - desde assinaturas a títulos e inscrições - têm sua materialidade dentro da obra e sua extensão significativa para além da obra apreendidas ao mesmo tempo. Trata-se de uma escritura, um fragmento de discurso, sem origem determinável de imediato, que absorve e rejeita uma hermenêutica fechada. Aqui nessas esculturas/novelas, a virtualidade de uma frase e a imagem que ela teria, o signo e o material, uma tela de construção, não se opõem, mas se integram, difícil dizer onde uma, onde outra.

É você quem escolhe a música que quer ouvir durante a criação. E o título da mostra é Move. De mover-se e mover o que está lá. A veritas, nem um pouco falsa, é que a linguagem artística é capaz de representar uma verdade, a de como nos construimos e ao mundo.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0007, em 25/5/2007

 

 

 

 

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