Garbage
Depeche Mode, U2 e Michael Jackson já beberam na fonte. Agora é a vez do Garbage aderir ao formato 18-hits e lançar sua primeira coletânea – Absolutely Garbage. O grupo liderado por Shirley Manson surgiu com força total em 1995, com um rock ligeiramente puxado pro punk e com influências de trip-hop. Only happy when it rains foi sucesso imediato, inclusive no Brasil, a começar pelo título engraçadinho. A ruiva dissimulada de sombra negra transitava bem pelo visual pop e o glam, cantando muito. Foi fácil conquistar o público em uma época em que o punk rock havia varrido o pop das rádios. Composto por produtores musicais, o Garbage tinha qualidade, fugindo do som clichê dos anos 90 com criatividade. Stupid Girl, que explorava o cenário alternativo, foi mais um hit de fãs do que rádio, mas ajudou a compor a identidade musical do grupo. “You pretend youre high / You pretend youre bored / You pretend youre anything / Just to be adored”, dizia a letra. Nos extremos dos estilos vieram Queer, de essência mais pesada, e Milk, o lado eletrônico viajante, ambas bem recebidas.
Nessa época, Portishead começava a brilhar e Massive Attack (o maior símbolo do trip-hop) já tinha um cd incrível, chamado Protection, sucesso na Inglaterra. Houve então uma pressão silenciosa para que o grupo abrandasse o lado rock e assumisse a verve trip-hop com que flertava. Repentinamente, todos tinham virados fãs da sonoridade. Só que o Garbage fez exatamente o inverso. Version 2.0 saiu três anos depois muito mais pop, querendo ganhar espaço. O Garbage mostrou serviço com Push it, deixando claro que a eletrônica e o rock conviveriam em harmonia no seu trabalho. Foi o maior hit do cd e o clipe concorreu a vários prêmios na MTV. Dessa época, se destacam Special, dançante com clipe estilo videogame, e You look so fine, refinando o mix de estilos do grupo. Para coroar a boa fase, o Garbage foi chamado para fazer o tema de James Bond, talvez um dos melhores. A música explorava com louvor a potência vocal de Shirley Manson e a capacidade de Vig, Erikson e Marker construírem um clima apoteótico para os acordes. The world is not enough era indiscutivelmente um hit, do tipo que agrada gregos e troianos.
Disposto a fugir da fórmula, o Garbage mudou radicalmente em Beautiful Garbage, mas a jogada não deu certo. O cd foi um equívoco total. Esse sim, no ano de 2001, parecia preso à sonoridade da década de 90. O maior impacto, porém, veio do visual de Shirley Manson, que abandonou os cabelos ruivos longos e adotou um loiro curtinho, estilo Madonna e Paula Toller nos anos oitenta. Nem os fãs nem os críticos apoiaram a guinada. Androgyny (o primeiro single) foi um fracasso. Por sorte, o grupo tinha boas cartas na manga e se recuperou com Cherry Lips, um resumo de tudo o que o grupo tinha experimentado até o momento e um dos grandes sucessos da sua história. As músicas seguintes foram tradicionais, daquelas que não arriscam. Shut Your Mouth (excelente) e Breaking up the girl quase fizeram a mídia esquecer o restante pitoresco do cd.
Quase. Bleed Like Me, o trabalho seguinte, foi um cd cantado como um retorno às origens rock. Bem melhor que o anterior, não decolou em vendas, mas trouxe boas músicas e alívio. Why do you love e Bleed like me eram tudo que um fã do grupo podia querer. A primeira, rock rápido e eficiente. A segunda, o estilo de balada sombria que só o Garbage sabe fazer.
Absolutely Garbage vem com a inédita Tell Me Where It Hurts, que será lançada dia 9 de julho. Agora é esperar seu efeito para saber se Absolutely é a primeira coletânea do Garbage ou se será a última.
O cd terá também uma versão dupla, com 14 remixes. Androgyny e Breaking up the girl só aparecem por lá, retrabalhadas por Neptunes e Timo Mass, respectivamente. Ele conta ainda com a música Bad Boyfriend.
Se você não é fã de coletânea mais ficou interessado, confira Garbage (1995) e Bleed Like me (2005), e compre a inédita no e-musica.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















