Crianças num velho quarteirão
Num típico apartamento de homem solteiro, com colchão pelo chão, sofá velho, geladeira de segunda mão, o indefectível aparelho de TV, revistas de História em Quadrinhos, LPs e muita cerveja em lata, se passa a ação de Diário das Crianças do Velho Quarteirão. Jaime, seu único habitante, é um músico, amante do jazz e do blues, enojado da civilização, que gasta suas horas consumindo cerveja, vendo repetidas vezes o filme Bird, listando as coisas de que gosta e de que não gosta, em companhia do amigo Álvaro, desenhista, leitor voraz de histórias em quadrinhos, fã absoluto de A Morte do Superman, que ele considera seu Os Irmãos Karamazov. Os dois – como as duplas cômicas – se equilibram nos papéis que criaram e aceitaram para si mesmos: os de esperto e de otário; de tenso e de desengonçado. O papo de ambos, com uma linguagem povoada de palavrões, percorre os assuntos mais variados: ao mesmo tempo em que citam Baudelaire, Walter Benjamin, William Blake, confessam suas experiências sexuais, criticam a sociedade consumista e revelam seus hábitos amorais ou pseudo-chocantes (tanto da sociedade quanto deles próprios). Jaime diverte-se atirando da janela, sem alvo certo. Embora prefira os motoqueiros playboys ou as burguesinhas lolitas como vítimas. Mas se seu revólver é de brinquedo, isso é ainda mais revelador. Jaime se compraz em firmar a imagem de herói rebelde para o convenientemente ingênuo Álvaro. A convivência, nem sempre pacífica, de ambos será abalada pela presença de Tatiana, jovem lânguida, pouco informada, compulsiva sexualmente, que se delicia com o seu próprio estereótipo, e que chega para formar o clássico triângulo amoroso.
O texto de Mario Bortolotto é composto de cenas dialógicas e de seis solilóquios confessionais (dois para cada personagem), escritos sempre num filtro poético, intenso, ferino, recheado de imagens urbanas impactantes (ou que talvez já não provoquem tanto impacto, dada a nossa surdez para qualquer nível de estímulo). A cidade está em colapso, as relações pessoais estão vazias, os dois rapazes não sabem como tornar significativas suas vidas desperdiçadas. Estão à espera de um milagre. E ele vem. Ou talvez sua esperança seja tão grande que eles imaginem ver em Tatiana a resposta às suas expectativas. E os dois amigos apaixonam-se por ela, cada um ao seu modo. Seria o amor este elemento redentor, que é a possibilidade de atenuar a angústia e a solidão terrestre, ou é mais uma ilusão, mais uma armadilha do velho quarteirão? Quanto tempo durará o paraíso anunciado?
O texto de Mario Bortolotto tem um traço peculiar: apesar de antenado com as mazelas pós-modernas de nossa sociedade, busca inspiração estética e estilística em escolas que se destacaram no século XIX – a romântica e a naturalista. Do romantismo, ele capta a busca constante da arte pelo ideal, os desabafos poéticos, a idolatria de heróis rebeldes, o amor e a liberdade como temas, a decepção com os ideais naufragados por uma sociedade cada vez mais materialista, o homem divorciado da natureza, a fuga para o vício – a bebida, o sexo, a droga, em busca de um consolo que a fé nas ideologias não traz mais. Do naturalismo, herda a cenografia, as personagens desagradáveis influenciadas pelo meio, o tempo esgotado em conversas banais, o diálogo prosaico e muitas vezes repleto de palavrões, o efeito “buraco da fechadura” por onde a platéia observa o que não deveria, a obra como “fatia da vida”, a busca de pequenos paliativos para o vazio e o tédio, o respeito às unidades de tempo, espaço e ação.
A dramaturgia de Mario Bortolotto expõe poeticamente a ferida de nossa monotonia pós-orgia. O que fazer depois de terem sido percorridos todos os signos, prazeres, ideologias, mensagens? Jean Baudrillard – sociólogo francês recém-falecido – acredita que agora “só podemos simular a orgia e a liberação, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vácuo, (…) e o que nos preocupa, nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, formas, desejos”. O tédio domina as relações e o dia-a-dia dessas personagens, e não é equivocado reconhecermos alguma semelhança com a dramaturgia tchekhoviana, claro que num panorama histórico-sócio-econômico muito distinto. Como as personagens russas da virada do século XIX para o XX, as criações de Bortolotto também se arrastam num tédio infinito, desperdiçam sua vitalidade jogando conversa fora, trabalham sem muita crença no futuro e buscam suprir o vácuo que lhes oprime através de pseudo-relações amorosas. A covardia e o orgulho ferido dos anti-heróis, as pequenas traições, os monólogos paralelos, a fuga na bebida ou na literatura, os desabafos que ninguém ouve, a decepção com a raça humana, a repetição de ações pouco produtivas, como ler ou assistir diversas vezes a mesma revista ou o mesmo filme – está tudo aí, nesse Diário das Crianças do Velho Quarteirão. Somados a esses elementos, outros bem peculiares da obra de Bortolotto e da nossa época: a ironia, o cinismo, a descrença em todos os discursos, as relações masturbatórias, a voracidade feminina que atemoriza o macho, o uso debochado dos clichês contemporâneos, o nojo, a extrema solidão – ainda mais acentuada nas megalópoles.
Geralmente, Bortolotto trabalha com sua própria companhia em São Paulo, tendo se destacado como um dos dramaturgos contemporâneos mais reconhecidos no circuito off. Essa atual montagem, Bortolotto dirigiu a convite da Cia. Livre de Teatro, de Cadu Fávero e Luisa Thiré. Sua encenação é simples, destacando as relações pessoais, os conflitos contemporâneos do trio em cena, abrindo espaço para a carga poética da peça ao preocupar-se com a agilidade e concretude de seu texto na boca dos atores. Ao mesmo tempo, não abandona o seu costumeiro naturalismo tardio. Assistimos ao espetáculo, quase como se fosse pelo buraco da fechadura. No naturalismo do século XIX erguia-se a quarta parede entre atores e público e ela não podia ser rompida. A cena voltava-se para dentro e os espectadores assistiam supostamente a uma intimidade à qual não foram convidados. Aqui não, é uma pseudo-quarta parede que se ergue. As personagens parecem simular que não estão sendo vistas, mas conscientes de um olhar invasor, da possibilidade de estarem sendo filmadas por alguma câmera oculta. O que as leva a fazer poses e representar papéis, em sua maior parte, estereotipados. Não há solidão possível. E ao mesmo tempo, é tudo de uma aberrante solitude. Em determinado momento, Jaime pergunta: “Já dirigiu na chuva, sem ter ninguém pra conversar?”. É sintética e tocante a imagem da solidão das grandes cidades criada por Bortolotto. Em outro momento, Jaime diz ser preferível a masturbação a uma relação sexual sem cumplicidade. Sintoma, na verdade, de que quase todas as relações sexuais hoje são masturbatórias, são a negação da presença do outro. Está explicitada na obra de Bortolotto uma grande monotonia do sexo compulsivo e talvez uma busca neo-romântica pelo parceiro ideal. Infrutífera, talvez. O saldo final do espetáculo é positivo, embora já pareça haver certo esgotamento na estética e nas “rebeldias” de Bortolotto. Mas não podemos deixar de reconhecer o valor desse fértil autor de mais de sessenta peças. É normal que diante de produção tão veloz haja saturação de alguns temas e obsessões. Mas sua crítica e seu sarcasmo são sempre bem vindos.
O elenco se sai bem. Cadu Fávero se apropria do texto, com grande domínio das palavras, equilibrando as pausas, a respiração, a suspensão da tensão, tendo grande autoridade sobre o que está fazendo e em sintonia com o público e seus parceiros de cena. Imprime humor na dose certa, não sublinhando demais e não desperdiçando nenhuma oportunidade que o texto oferece. Empresta contradição e humanidade à personagem, tanto nos momentos mais densos quanto nos mais leves. Um ótimo desempenho. Priscila Assum compõe uma Tatiana estereotipada, mas não por falha da atriz, e sim porque a própria personagem se enxerga como estereótipo, e age assim. Mesmo quando a personagem deixa de ser tratada como vaca pelos dois machos em cena, Tatiana não consegue despir sua máscara de fêmea emancipada e sexualizada. Em resposta ao “eu te amo” duplo que recebe, ela reage como uma cadela no cio. É bom o equilíbrio entre o texto de Bortolotto, com sua crítica mordaz, e a interpretação da atriz, que legitima essa visão, humanizando-a. O único senão está num dos depoimentos de Tatiana, ao querer justificar comportamento compulsivo da personagem. Talvez fosse melhor que esse excesso sexual não tivesse causas tão visíveis e compreensíveis para a própria agente. Jorge Neves compõe um Álvaro inquieto, falastrão, empolgado com seu universo pessoal. O ator transpõe bem o obstáculo de fazer uma composição estereotipada, e a personagem ganha certa ambigüidade, deixando-nos em dúvida em relação à consciência que tem de seus próprios atos e de quanto poderia ter evitado suas pequenas traições.
A cenografia e o figurino de Pedro Sayad dialogam bem com o espetáculo, no sentido de se estabelecer como não-cenário e não-figurino, como se o que vemos em cena não fosse escolha de um artista, mas efeitos do acaso, surpreendidos pela visita do espectador, e que as personagens se vestem como a própria platéia, sem lente embelezadora ou estética. É uma tentativa de se anular como elemento teatral. Funcional para o tipo de espetáculo e para o universo do autor. A trilha sonora do próprio Mario Bortolotto acompanha o bom gosto musical dos dois personagens masculinos. Cria ambiência contraditória para a vida desmotivada em cena. Ótima vela para maus defuntos. A iluminação de Cadu Fávero é também simples, mas pessoal.
Em relação ao título da obra de Bortolotto, em determinado momento uma das personagens diz: “nosso quarteirão é nosso mundo”. O “velho” como adjetivo indica a antiguidade desse território, principalmente no âmbito moral, em seu viciado jogo de criar esperanças e ideais que nos guiam na infância para depois serem desmentidos na maturidade, gerando adultos mal-humorados, decepcionados, que buscam consolo onde não o encontram – no sexo compulsivo, nos vícios, na solidariedade do outro. As “crianças” do título parecem indicar que aquelas personagens ainda crêem nos ideais ou, pelo menos, têm no seu íntimo uma leve esperança de que possam ser cumpridos, mesmo que o velho quarteirão não seja o lugar ideal para isso. Apesar de Jaime declarar que “já nasceu velho”, essa é a doce ilusão com a qual ele se defende e a única arma que lhe parece legítima para enfrentar um velho mundo: enojar-se dele e encará-lo como um livro lido, do qual já conhece suas tramas, seu enredo, seu desfecho – artifício que Tatiana vem mostrar ser falso, ao desequilibrar o terreno com a possibilidade do amor. Essas “crianças” do título também comprovam nossa ausência de culpa e de responsabilidade. Segundo Friedrich Dürrenmatt, dramaturgo e pensador suíço, “nessa comédia de vaudeville de nosso século, nesse recuo da raça branca, não há mais culpas, nem há, tampouco, homens responsáveis. Sempre se repete ‘não pude fazer nada’ e ‘a verdade é que eu não queria que isso acontecesse’. E a verdade é que as coisas acontecem sem que ninguém, em particular, seja responsável por elas. Tudo é arrastado à força e todo mundo acaba colhido em algum lugar pela varredura dos acontecimentos. Somos todos culpados coletivamente, coletivamente empantanados nos pecados de nossos pais e de nossos antepassados. Somos descendentes de crianças. Essa a nossa desgraça e não nossa culpa. (…) A única coisa compatível conosco é a comédia”. O “diário” de Bortolotto comprova ainda que nossa tragicomédia se dá dia-a-dia, é nesse cotidiano surgir do sol e da lua que temos que equilibrar a criança dentro de nós com o velho quarteirão onde habitamos. E como melhorar nosso humor nas grandes capitais? Bortolotto se pergunta. E nós intimamente buscamos a resposta.
Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.


















