Piratas do Caribe: No Fim do Mundo
“É possível dividir o filme de diversas maneiras. A mais tradicional é usar Johnny Depp como ponto de análise. Há as partes com Depp e há o resto. O diretor Gore Verbinski disse que dessa vez não queria o ator como a atração principal e iria apostar nos efeitos especiais. A promessa foi cumprida”.
Espera.
Essa foi a crítica do filme anterior, Piratas do Caribe: O baú da morte. Mas se aplica também a Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, sem grandes ressalvas. Em time que está ganhando não se mexe, diriam os produtores, principalmente quando o time enche os cofres do estúdio.
Piratas 3 é o mais caro da trilogia. O primeiro custou US$140 milhões e arrecadou US$654, rendendo ainda uma indicação ao Oscar de melhor ator para Johnny Depp. O segundo subiu ambas as cifras. Custou US$225 e arrecadou nada menos que US$1.066.200 bilhão, um retorno sobre investimento considerável. Nada mais natural que as apostas subissem e os números também. O Fim do Mundo custou US$300 milhões e em 15 dias arrecadou US$635 milhões (para efeito de comparação, o blockbuster Homem-Aranha 3, em um mês, chegou em US$847 milhões).
Pelos números é possível ter também uma idéia dos efeitos especiais. Mas Piratas 3 não tem nenhuma novidade cativante como os esqueletos de Piratas 1 ou os homens-peixe de Piratas 2. Só mais do mesmo, com um toque de exagero e uma promessa de deuses que não se concretiza.
No filme, o entediante Lord Beckett (Tom Hollander) conseguiu o coração de Davy Jones (Bill Nighy). Usando o demônio como arma, ele declara caça a todos os piratas. Morte para todo lado, a situação fica preocupante e eles resolvem convocar a assembléia dos lordes piratas. Tia Dalma (Naomie Harris), que ressuscitou Capitão Barbosa (Geoffrey Rush), parte com ele, Elizabeth (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom) para o mundo dos mortos, terra de Davy Jones, para resgatar Jack Sparrow (J. Depp), um desses lordes. Com o desenrolar da história, o espectador descobre que cada um tinha um motivo diferente para o resgate, inclusive a feiticeira Dalma. Uns queriam a convocação, outros queriam se dar bem e alguns queriam resgatar dívidas com o passado, aproveitando para uma suposta vingança. Quase morrer por amor ao Capitão Jack, só mesmo os piratas coadjuvantes, engraçados como sempre. Disso nascem diversas viradas de trama e traições que remetem ao lado bom de Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. O roteiro, melhor amarrado que o segundo, fecha as tramas que ficaram em aberto em O baú da morte e explica as invencionices do próprio filme. Se navios piratas disparando canhões nunca fizeram a alegria do espectador, as lutas de espada são bem eficientes.
Sobre as atuações, a atração principal continua sendo Johnny Depp, que aparece bem mais do que no filme anterior. O lado soturno de Jack Sparrow em O baú da morte foi deixado de lado, restando só os trejeitos e a loucura. Geoffrey Rush também não decepciona. Apesar de ter escolhido uma persona caricata de pirata, é um ator de talento indubitável. Orlando Bloom e Keira Knightley mantêm as péssimas atuações. Algumas cenas com os dois chegam a ser constrangedoras. Bill Nighy, que passa o filme inteiro maquiado, consegue se expressar mais com os olhos do que os dois atores com o corpo inteiro. Considerados defeitos e qualidades, Piratas do Caribe: No fim do mundo se sai bem. É a velha fórmula dos filmes-pipoca: pouco cérebro, cenas de ação e piadas espalhadas. E que ninguém duvide do beijo da mocinha e do mocinho no final. Quem se divertiu um mínimo com os anteriores pode ver sem sustos o final da trama que colocou Gore Verbinski no hall da fama de Hollywood.
Se você é um espectador paciente, depois dos créditos há uma cena bônus. Se não é, vá embora sem peso na consciência e veja no DVD.
Assim como em Homem-Aranha 3, as conversas para uma quarta parte são inevitáveis. Verbinski, entretanto, disse que irá dirigir a trilogia de Príncipe da Pérsia, baseada no antigo jogo de computador, e que ainda não há planos para Piratas 4.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















