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Antônio de Chica

Cinco senhoras solteiras e virgens buscam desesperadamente encontrar um homem que lhes alivie as horas, seja para casamento ou sexo. Devotas obviamente de Santo Antônio, elas estão em busca de qualquer meio que lhes encurte o caminho para seu objetivo, mesmo que para isso tenham que se livrar da imagem do santo, se bandear para a macumba, fazer mandingas, pequenas traições e crimes. O enredo de Antônio de Chica não é exatamente inovador, mas poderia dar bom caldo cômico, não fosse o desperdício de esforço e talento em cenas e até personagens dispensáveis ou o mau aproveitamento de algumas situações e tipos. O texto de Cláudia Souto é desigual, mas geralmente não escapa da obviedade. Fazer comédia não é acumular piadas de gosto duvidoso, preconceitos, escatologias e referências a uma estética kitsch. A peça se encaminha para alguns becos sem saída, o que faz com que a comédia vá piorando até seu desfecho apelativo e falsamente conciliador.

A direção de Zéu Britto deixa a descoberto algumas falhas do texto e ainda lhe adiciona outras. Mesmo uma comédia trash precisa de algum rigor na sua feitura. Há no espetáculo um bom número de “temas polêmicos” que poderiam ser tratados com um humor mais apurado, não apelando tantas vezes para uma parcela menos exigente do público. O maior mérito da encenação fica por conta dos cinco atores que interpretam as velhas casadoiras. André Arteche (Urânia), Marcos Nauer (Miminha), Fabrício Boliveira (Neném) e, principalmente, Edmilson Barros (Filoca) fazem boa composição, e conduzem seu trabalho com profissionalismo e contenção, o que eleva o nível do espetáculo. A protagonista Chica é defendida por Ari Guimas, que ainda não parece tão à vontade no papel, mas que também tem bons momentos, principalmente quando Chica abandona seu Santo Antônio e se converte a alguma religião afro-brasileira. O final feliz de Chica com outro Antônio de carne e osso não é satisfatoriamente resolvido pela autora e pelo diretor. As referências a alguns desfechos felizes de telenovela com direito a trilha sonora brega não acrescentam muita coisa e não chegam a extrair o riso do público. O final de Urânia, que sai de cena espumando, é desnecessariamente escatológico. Assim como o surpreendente lesbianismo de Filoca e Neném. Mesmo que a farsa trate de tipos toscamente psicologizados, não é de muito bom tom insinuar que o lesbianismo advém da insatisfação feminina por falta de homem. O desfecho dado a Miminha é um pouco mais crível: a partida para a capital em busca de maiores possibilidades de encontrar um parceiro. Além das cinco senhoras, mais quatro personagens ocupam a cena. Sereco é um transexual, educado por Chica, e presente em cena para fazer um contraponto à virgindade das cinco senhoras. Liberado sexualmente, escancaradamente cômico e afetado como uma libélula, Sereco é interpretado por Bárbara Borgga. São muitos os exemplos de atores e atrizes que, no cinema ou teatro, interpretam transexuais e realizam um trabalho significativo, tirando partido dessa ótima oportunidade. Em Antônio de Chica, no entanto, a atriz desperdiça a personagem, com uma composição repetitiva, que denuncia certo descuido. Lucci Ferreira tem participação pequena como Antônio, mas cumpre bem a sua função. A personagem Filipa, interpretada por Rose Lima, parece não ter muita razão de ser. O tempo inteiro em cena, num apêndice da cenografia, Filipa é uma desfrutável, grávida cheia de desejos e volúpia, mulher sexualmente satisfeita e, ao mesmo tempo, insaciável. Quase todas as suas cenas são ao telefone comentando a ação ou contando um pouco do passado das personagens, com exceção do único momento em que ela invade o ambiente de Chica e entra em contato com as outras figuras. A má construção dramatúrgica da personagem dificulta o trabalho da atriz, e Rose Lima tenta salvar como pode uma personagem que não faz falta à ação da peça. Completando o quadro de personagens, Davidson Santos interpreta Agamenon, admirador de Sereco e que vai lhe servir de par romântico. A utilização de um anão para parceiro de um transexual dispensa comentários.

A cenografia de Juliana Werneck se divide em dois planos, a casa de Chica, mais notadamente o ambiente onde se reza a trezena, devoção que se faz nos treze dias que antecedem à festa de um santo. Um grande oratório de Santo Antônio domina a cena, rodeado de imagens de outros santos, de licores, bolos etc. – um ambiente feminino e pueril onde pululam as ansiosas senhoras. Há ainda a casa de Filipa, cômodo simples com telefone, mesinha, alguns adereços que insinuam ser ambiente de maior luxúria. O figurino de Bianca Nabuco é mais feliz na criação dos vestidos das cinco senhoras, seguindo uma linha mais farsesca e bem humorada. Os outros figurinos são menos bem cuidados. Filipa veste o óbvio penhoar vermelho, a roupa de Antônio é típica de caipira e o figurino de Sereco oferecia possibilidades mais criativas para Bianca. A iluminação de Luciana Liege segue convencional até a virada da peça, quando as velhas apelam para recursos menos convencionais para atingir seus fins. Aí, a luz passa a acompanhar o delírio da cena, e se tornar também mais autoral. A trilha sonora de Zéu Britto segue alguns caminhos óbvios e ora acerta, ora resvala para um tom apelativo. Alguns números musicais inseridos na peça, como a canção da vitamina C e o showzinho de Sereco parecem gratuitos e não dizem a que vieram. É significativo o trabalho de Ana Paula Bouzas como preparadora corporal e diretora de movimento, tendo falhado apenas no que poderia extrair da composição de Sereco. Mas o naipe masculino tem corpos expressivos ao compor as velhas senhoras.

Antônio de Chica possuía elementos para ser uma comédia despretensiosa, porém carregada de possibilidades interessantes: a necessidade de gozar das velhas senhoras é sinal de lubricidade senil ou de nossa busca incessante por prazer e felicidade, mesmo que no fim da vida? Em tempos de internet e relacionamentos virtuais, qual a conexão desse nosso atual panorama com os recursos místicos da peça?  Como tratar hoje o sincretismo religioso ao qual a peça faz menção? Alguma novidade no front? Dentro do contexto tão sexualizado da peça, como tratar o jogo da indiferença sexual ao ter no mesmo elenco uma atriz interpretando um homem e cinco homens interpretando mulheres? Segundo Jean Baudrillard, “o sexual tem por objetivo o gozo e o transexual tem por objetivo o artifício, seja o de mudar de sexo ou o jogo dos signos vestimentares, morfológicos, gestuais, característicos dos travestis”. No meio de tantas aberrações transexuais, soam estranhamente normais as presenças de Filipa (personagem feminina interpretada por uma atriz) e de Antônio (personagem masculino interpretado por um ator) – e isso poderia ser mais bem aproveitado no espetáculo.

Seria bom que se se visse no teatro algum diferencial para o que assistimos em programas humorísticos de TV, geralmente pouco elaborados e pouco inovadores. Segundo Patrice Pavis, “graças à farsa, o espectador vai à forra contra as opressões da realidade e da prudente razão”. Há, portanto, um grande compromisso ético do trabalho artístico, também nas farsas, e a necessidade de senso crítico e espírito subversivo para que o riso libertador se dê. Repisar, no teatro, preconceitos cotidianos ou o senso comum sem pervertê-los não satisfaz os ambiciosos objetivos da farsa. Antônio de Chica, nesse sentido, não é um espetáculo homogêneo. Nem sempre desperdiça as setas, nem sempre atinge o alvo. Mas para se dar tiros certeiros em cena, é preciso que antes se fite os olhos aonde se quer atirar. E parece ter havido certa confusão nessa mira, principalmente por parte da autora e do diretor.

 

 

 


Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.

 

editoria: edicao_0007, teatro, em 14/6/2007

 

 

 

 

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