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Visões Periféricas

O festival Visões Periféricas tem uma proposta simples: a inversão do olhar. Como o mundo vê a periferia, estamos cansados de saber, seja por filmes ou em novelas que transformam as favelas em locação. Não que toda periferia seja favela (como mostram os curtas) e, acredito, em breve nem toda favela será periferia. Enquanto alguns aguardam ansiosos o passeio de Hulk por esse labirinto humano, a Petrobrás desmembra a pergunta: como a periferia vê o mundo e a própria periferia? É um universo rico como todos, que encerra em si milhões de possibilidades. Sua graça está então no olhar que o analisa. É importante que o objeto de análise consiga se ver além do estereótipo. Em muitas camadas da sociedade o estereótipo é assumido como identidade, homogeneizando o comportamento, por isso vale comemorar o resultado dos curtas.

Na exibição Memória da Periferia no Espaço Caixa Econômica Cultural do Rio, entra em cena o idoso, a tal terceira idade (de acordo com Ariano Suassuna, quem tem três idades é fruta: verde, maduro e podre; por isso mantenho a palavra idoso) e o diálogo com o tempo. Apesar de faltar recursos e a técnica ainda ser muito incipiente, os curtas já mostram um diálogo com linguagem, sendo bem diferentes entre si, olhares com propriedade.

Iracema, a mãe sertaneja foi filmado em Belo Horizonte em 2005. É um documentário do grupo Favela é isso aí feito por Cesar Maurício e Clarice Libânio. Iracema é uma artista, cantora, que desde os cinco anos vive do seu trabalho. Ela canta em festas, em rádio, cantou muito tempo no circo. Faz parte de todas as associações de cantores e recebe seus direitos autorais direitinho, já que algumas duplas sertanejas de prestígio regravam músicas suas.

Não só é a história de um outro artista, como mostra mudanças de costume. O circo popular que virou circo espetáculo, a rádio que tocava de tudo e agora toca sempre a mesma coisa.

Iracema diz que não se sente velha, pois onde ela vai é respeitada. Termina o curta com uma frase muito boa: “A cultura é igual cachaça, depois que você começa não quer mais parar. Você vê artista aposentado? Você não vê. A maioria morre no palco trabalhando”.

Retratos não registrados é de Riacho Fundo (DF), foi feito na Oficina de Imagem Popular e é um trabalho coletivo. Em 10 minutos, consegue mostrar diversos olhares de idosos, o que pensam da vida e da morte. A quantidade de entrevistados é uma das qualidades do curta, que peca ao entrar no assunto religião e mostrar que todos ali são devotos da mesma fé, com o mesmo pensamento, quebrando a pluralidade proposta. O melhor momento é de um casal que diz que o sexo está cada vez melhor e cita a velha máxima: “Se a morte é descanso eu quero viver cansado”.

O Auto Comunicador Falante é o mais pretensioso e bem arranjado tecnicamente. Foi feito em São Paulo no projeto Revelando Brasis pelo diretor e roteirista Paulo Augusto Vieira. Conta a história de um senhor que anunciava pelo sistema de auto-falantes da cidade a vida e a morte dos cidadãos. Com a mesma voz que avisava que alguém morreu, anunciava que a próxima sessão de cinema já ia começar. Nelson e Anice Fortunato, o casal tema, podem se orgulhar de ter vivido do cinema. Suas exibições sempre lotavam. As crianças se juntavam para ver os filmes, as ruas da cidade esvaziavam. Mais uma vez, ao olhar para trás o trabalho evidencia as mudanças do presente. A cidade pequena, um cinema sem luxo nenhum (bancos de madeira, chão de terra batida) vivia cheio. Nelson ainda guarda as objetivas e películas. Conta que nas cenas mais quentes, tampava com os dedos a projeção para proteger as crianças. Diz que quando a cena era boa ele girava a manivela do projetor bem devagar para ela durar mais. Quando era ruim, girava rapidinho.

Fica de Anice a frase: “O cinema estava lotado. As pessoas não cabiam mais na sala, o chão tremia. Acho que foi por isso que desabou”. Como Nelson Fortunato anunciou a morte de todos na cidade, decidiu gravar uma fita, anunciando a sua também. Começa assim: “Hoje eu morri”. Isso que é bom-humor.

O último curta é o mais engraçado. Como se Rouba a Cena no Cinema foi feito em Cotia (SP) no projeto Kinoforum de Realização Audiovisual por Luis Tadeu Carraca, Marcelo Guerra, Otávio Augusto e Rafael Ferreira. Enquanto filmavam uma feira (nunca saberemos qual era o tema original do curta), uma mulher invade as gravações e fala em 11 minutos mais de 30 assuntos. Sebastiana é engraçadíssima e realmente emenda uma frase na outra, fazendo a alegria da produção. Morre de vergonha do nome, é comediante nata e vendedora em uma feira. Lá pelas tantas ela diz algo assim: “Eu não converso com velho. Só converso com jovem. Jovem não fala do preço do tomate, não fala que o dólar subiu. Jovem só fala coisa boa”. O curta é hilário do início ao fim. Seu único deslize é a piadinha que um dos presentes (alguém da equipe?) faz com a mulher. Quando perguntam seu nome e ela diz que tem vergonha de dizer, alguém sugere que poderia ser Monalisa. Sebastiana da Silva (ou da Sílvia, como ela diz) tem um único dente na boca, pendurado na arcada inferior. Nem se abala com a piada.

O festival vai até 16 de junho e teve uma programação extensa e diversa, inclusive com mostras competitivas. Os vencedores serão exibidos dia 16, às 18 horas.

Destaque à parte para o livreto do festival, muito bem feito e organizado.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0007, em 14/6/2007

 

 

 

 

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