Dicionário de Pequenas Solidões
Dicionário de pequenas solidões é uma coleção de contos de Ronaldo Cagiano. O material, como explica a nota de edição, é édito e já foi publicado em livros anteriores: Concerto para arranha-céus e Dezembro indigesto, mas passou por algumas modificações. Cagiano, que é mineiro, já transitou pela poesia e trouxe um resquício poético para seu trabalho, apesar de não se apropriar do ritmo lírico. Seu dicionário trata de um sentimento universal. A solidão é democrática e atinge a todos, por outro lado não pode ser confinada a definições, já que é deveras pessoal e os mecanismos que a despertam variam de indivíduo para indivíduo. Ela pode despertar de uma fala, do ruído do mar, um olhar atravessado no meio da rua, da cena da morte no valão da estrada, elementos bem aproveitados pelo autor. Aliás, nada mais solitário do que andar em meio às multidões, e os personagens desse Dicionário possuem um mundo inteiro de figurantes ao redor do seu universo particular.
Ciente dessa amplitude, Cagiano aborda o sentimento de focos diferentes. Há abuso sexual, festas em família, o isolamento da cultura, entremeados de classes sociais.
Em Solidão, acompanhamos Rosalía e seu dia a dia de mulher da vida, as nuances de falsa moral da sociedade que deslocam a personagem para a margem, mesmo que ela sirva de centro para muitas pessoas. Quem já passou por isso sabe o quanto dói. Todos sabem de você, mas fingem que não. Ser você só para si e para os demais, um outro.
“Todo mundo sabia que ela se engraçava com o português do armazém. Não havia dia de chuva ou sol que não passasse em frente ao Empório do Alentejo e jogasse seu charme, seus olhares enviesados, ou um veneno, se visse dona Hormenzinda no balcão. A velha tinha desconfiança, mas nunca deu flagrante. Nunca”.
Há também a solidão da idade, de um distanciamento (i)natural de quem estaciona em um ponto do tempo e recusa-se a girar com o resto do planeta. A solidão nem sempre é imposta pelo externo, pode vir de dentro como opção ou conseqüência de decisões cotidianas (nem sempre claras, apesar de constantes). Essa fuga simbólica do futuro é mais evidente no conto Pavlov, em que uma velha só tem a companhia de seu cachorro (bem mais solitário do que ela, um tipo de companheirismo vitimado).
“A velha monologava seus mistérios, seus mundos estranhos, suas paranóias (…) o cão sofria os diabos, a duras penas conseguia viver naquele mesmo espaço, entre os delírios de Bratislava e suas rabugices”.
Tecendo com sutileza as tramas, Cagiano sabe trabalhar com a ausência, usar o que é dito nas páginas para revelar o que falta no mundo de cada um de seus personagens. O interessante do livro não está em como o autor os isola na história, mas de onde ele evoca a angústia literária e a transfere para o leitor.
Destaque também para encontros, com Kafka passeando por Cataguases.
Vale comentar ainda o capricho da Editora Língua Geral com suas publicações. O acabamento bem planejado torna as páginas mais do que um mero veículo do texto, sem, entretanto, competir com a literatura que apresenta.
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Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















