A garota de Cassidy
Uma boa solução para quem acha que os livros estão caros é pesquisar os pockets nacionais. L&PM, Martin Claret e a Cia. das Letras têm abastecido o mercado com gêneros, autores, épocas e estilos variados, que possuem a vantagem de não pesar nem na bolsa nem no bolso.
A garota de Cassidy (lançado aqui pela L&PM) foi escrito em 1951 por David Goodis e, segundo a contracapa, é um romance noir sobre o amor e a sordidez.
O livro conta a história de Cassidy, um motorista de ônibus totalmente bêbado e fracassado que mantém uma relação conturbada com Mildred, uma linda mulher de caráter duvidoso. Cassidy chega em casa e percebe que Mildred deu uma festa na sua ausência, e que seus amigos, para variar, quebraram tudo, sujaram a cozinha e comeram sua comida. Para deixar claro que esse é um relacionamento diferente, David Goodis emenda em uma briga de tirar sangue e fazer a mobília voar. Depois da pancadaria e do estranho ritual de reconciliação, Mildred lembra ao “marido” que deu a festa porque estava fazendo aniversário, sai de casa e vai para o bar.
É um começo desnorteador que deixa o leitor sem saber em que terreno está pisando e o que pode encontrar pela frente. Um artifício inteligente por motivar o leitor e equivocado por criar expectativas que não consegue cumprir.
Cassidy, obviamente, decide afogar as mágoas no mesmo bar. Lá, somos apresentados aos amigos de Cassidy que não gostam de Mildred, o dono do bar e bêbados em geral Entre eles, destacam-se Haney, um sujeito com grana que é apaixonado por Mildred, e Doris, uma espécie de coma alcoólico ambulante, em quem Cassidy vê um anjo perdido na terra.
O desenrolar desse quadrado move a história até o fim, sem nada de muito interessante. No meio do livro, David Goodis faz uma virada de trama tão sem sentido que é difícil não se perguntar o que ele bebeu antes de escrever. Nem mesmo o passado misterioso de Cassidy consegue compensar os vazios narrativos.
Pontos positivos:
Assim como os personagens, o leitor nunca sabe quais provocações são reais e quais fazem parte do jogo amoroso do casal. O amor e o ódio convivem mais próximos do que de costume.
Doris é uma personagem bem diferente dos arquétipos convencionais, totalmente enamorada do uísque e apática para a vida.
Pontos negativos:
Apesar de a escrita fluir bem, o livro passa longe da atmosfera densa que consagrou o noir.
A trama é vaga demais e os personagens não evoluem psicológicamente, terminando do mesmo jeito que começaram. É a típica diversão passageira, recomendada para quem acha que existe um poço mais fundo do que o retratado por Bukowski.
David Goodis nasceu na Filadélfia e chegou a ter algum reconhecimento em vida. A fama veio mesmo após a morte em 1967. Atire no pianista foi adaptado para o cinema por ninguém menos que François Truffaut.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















