Ungaretti
Para Lucia Leão
O poeta italiano escreveu um dos poemas mais emblemáticos de toda a literatura ocidental. Mattina. Dele conheço duas traduções para o português, a de Sérgio Wax e a de Haroldo de Campos.
O poema de Ungaretti:
Mattina
M’illumino
d’immenso
A tradução de Sérgio Wax:
Manhã
Ilumino-me
de imenso
A tradução de Haroldo de Campos:
Manhã
Deslumbro-me
de imenso
A transcrição das duas traduções não tem o desejo da comparação. Entre iluminar-se e deslumbrar-se há pouca, mas séria divergência. Nos dois verbos a noção de luz, contida no original, se mantém intacta. Lume é ressonância sonora e semântica tanto em iluminar quanto em deslumbrar. O que, por hora, diferencia as duas traduções é o acento tônico no fonema nasal da tradução de Haroldo. A adequação que o poeta brasileiro constrói em relação ao acento em italiano é significativa e não mero capricho, pois o sentido de deslumbrar-se afirma uma interpretação do poema praticada pela tradução.
Percebe-se que a interferência semântica constrói de modo claro uma percepção do sujeito em relação à manhã, que ativa o deslumbramento do qual a vítima é o eu-lírico, reforçada, de resto, pela primeira pessoa e pela reflexibilidade do verbo. Deslumbrar-se a si mesmo – iluminar-se a si mesmo – traz ao poema uma ação que está contida no sujeito, que é capaz de iluminar-se/deslumbrar-se a partir da luz jorrada pela manhã. Desta forma, tanto é impressionado pela luz da manhã quanto em si mesmo percebe esta impressão e a empresta à manhã, criando um jogo de duplicidade semântica e de perceptiva. Não se pode afirmar que o sujeito determina o real ou é por ele determinado.
Se a escolha semântica e fonética de Haroldo de Campos reflete esta duplicidade com maior fidedignidade, interpreta o poema. Há quem prefira as brumas do original, mantida na tradução de Sérgio Wax, há quem prefira a aproximação de Haroldo. As preferências estão a cargo de cada leitor, o que não está na escolha do leitor é justamente a fundação do real promovida pelo poema; esta não se pode deixar de ler e é a partir dela que se vai perceber que o poema é um poema, na sua mínima inscrição e, por isso, exemplar de toda e qualquer poesia.
Ao lermos o deslumbramento do sujeito/manhã, da manhã/sujeito as diferenças entre o que se percebe da manhã e o que da manhã se faz perceber desaparecem, tornam-se unas. Nesta unidade reside a percepção do todo, do que não era e passou a ser – integração e movimento (sugerido pela sonoridade do poema) no qual o homem se torna natureza e a natureza se humaniza. A indivisibilidade do sujeito e do objeto, criada pelo poema, nos faz perceber de imediato – antes de qualquer raciocínio – a impossibilidade de falar sobre a vida, senão através do fazer poético. Por isso a poesia é algo mais que o discurso sobre o mundo, é sua própria instauração.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.


















