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Repercussivo

“Enquanto rabisco não penso em nada”, diz Antonio Bokel recuperando um automatismo à la Breton que há muito tempo ninguém assumia.

Claro, o surrealismo, com sua valoração de um inconsciente não-individualizado, apontava para uma religiosidade das mais burras. Um corpo versus alma primitivo, que se exprimiria, esta última, quando a mente imperfeita dos humanos estivesse dormindo ou, pelo menos, distraída com outra coisa. Tal anti-racionalismo esteve fora de moda até explodir, literalmente, há alguns anos.

Só que não há nada de distração ou alheamento na exposição do espaço Repercussivo, da Barra da Tijuca (RJ). Então, não deve ser automatismo, em que pese a declaração do artista que, inclusive, complementa desconfiar que o que guia sua mão é uma voz superior, algum deus - grafado em seu folheto com todas as letras maíusculas.

O que se vê é o contrário disso. Não só nas obras de Bokel como nas dos dois outros artistas da coletiva: Marcos Dias Corrêa - que é também o galerista - e Bruno Lyra.

Eles vendem tinta.

Antonio Bokel Marcos Dias Corrêa Bruno Lyra

E são excelentes comerciantes. No folheto e no site da galeria há expressões marqueteiras como merchandising, apresentação de produtos, pessoal especializado “para orientar a aquisicão de trabalhos a preços acessíveis” etc. Nenhuma alma aqui, só negócios.

Mas, nos três casos expostos, a venda e a tinta vendida têm uma contraposição radical. Ou não, se lembrarmos que o mercado tudo absorve, mesmo o que o ataca. E há um ataque.

Bokel rabisca tudo, tela, cubos de madeira e a parede que está por perto. Lyra cobre com lagos de tinta diluída textos e números que ficam, assim, ilegíveis. Corrêa “estraga” pinturas caprichadas de ícones de nosso tempo - carros, computadores, foguetes da Nasa - jogando por cima delas respingos e borrões raivosos de tinta encorpada.

A tinta vendida, portanto, não é conformista, é destrutiva/criativa.

Esta destruição/criação não é às cegas, autômata ou guiada por algum deus. É um espelho exato do espaço estreito e do tempo, curto, onde vivem os jovens artistas e galeristas frente a um mercado que os aniquila e em cuja superfície vivem.

Surrealistas, afinal. A espontaneidade radical apenas é mostrada, aqui, em seu processo, ao deixarem aparente a superfície anterior, bem comportada e lógica, onde ela se manifesta.

Os preços são um segundo ataque a partir de dentro, ou sobre. Telas grandes a mil e pouco reais, peças menores a hilários “R$ 299,00”. Não são os preços do mercado de arte. São os preços de quem faz quadros para quem quer pôr quadro na parede do sofá, sem ser, necessariamente, o sofá do Gilberto Chateaubriand.

Na época dos surrealistas, havia a assertiva de que as artes plásticas tinham um apelo instantâneo e de apreensão simultânea, ao contrário da música que seria uma arte de percepção consecutiva, temporal. Depois, essa dicotomia caiu ao se descobrir que ambas as percepções se acumulam e se modificam a cada instante e que ver uma imagem é tão temporal quanto escutar uma música. Que nada ou ninguém escapa ao tempo e que é o tempo, tanto quanto o espaço, que produz a experiência estética em qualquer meio.

(Ou época.)

Os artistas do Repercussivo fizeram uma experiência interessante. A galeria, muito ampla, tem três janelões atrás dos quais se apresentou, na abertura da exposição, o grupo Bonde Som. Vê-los tocando, emoldurados como se quadros fossem, pelo batente dos janelões, ao lado dos quadros reais expostos, foi uma experiência estética que, esta, não pode ser vendida por preço algum.

A galeria tem outro detalhe que soma. Além dos três janelões internos, há três janelinhas, basculantes na verdade. A galeria é em um subsolo. As janelinhas, de vidro fosco, ficam ao alto da parede e na altura da calçada lá fora. Você vê essa arte que se atraca, e ataca, e, ao mesmo tempo, vê o que ela ataca e em que se atraca: a entrada de um shopping center. A entrada e as pessoas que por lá passam aparecem em sombras, bem, surrealistas, quando iluminadas pelos faróis dos carros.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0007, em 24/6/2007

 

 

 

 

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