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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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28/06/2007

Eu não tenho onde morar

Dorival Caymmi prima pela simplicidade de suas composições. Os versos enxutos, acompanhados de um ritmo exato, são exemplo para muitos que escrevem. Qualidade do escrever é ser, além de preciso, sobretudo, significativo. Qualidade que sobra em Caymmi. O significativo não é, entretanto, dizer o que seja passível de entendimento imediato, fosse assim, a música não criaria comunicação. O que se está entendendo como significativo é exatamente o oposto do imediato processo de comunicação que o cotidiano nos oferece. Significativo aqui significa um ir além da comunicação, uma interseção de sentidos que resultem em algo novo. O ato criador, ao superpor dois ou mais sentidos, criando sentidos outros, transforma-se em invenção.

As canções de Caymmi – sejam elas as que expressam o ritmo, a paisagem humana e física, sejam as que fazem comentários acerca do cotidiano – são sempre exatas. Dizem o que dizem, sem uma vírgula a mais ou a menos. A belíssima Maricotinha, gravada por Maria Bethânia recentemente, pode ser tomada como um dos inumeráveis exemplos do cancioneiro Caymminiano. O que nos diz a música é simples. “Se fizer bom tempo, eu vou, mas, se por acaso chover, não vou”. O que a música diz é só isso, essa economia fundamental que força o ouvinte/leitor a ilações, percepções e recepções as mais interessantes. O que a música não diz, dizendo, é toda uma percepção sociológica do brasileiro, permitida pela ilação que se pode fazer a partir das pausas musicais que sublinham e alinham os versos e o canto.

Compare-se, ao acaso, com a pintura. Uma pessoa, ao observar um quadro qualquer, pode dar-se conta do processo de composição que levou à composição final do quadro e à ilusão que ele provoca. Raramente observam-se as cores, os substratos que levaram tal quadro a ser tal quadro e não outro e a ele emprestam-se significados retirados imediatamente da realidade. Os retirantes de Portinari sofrem essa interpretação, o sorriso enigmático de Gioconda também a sofre.

Ouvir Caymmi, observar um bom quadro, ler um bom livro requer uma outra atitude. Uma atitude crítica, instauradora, na qual um dos agentes do processo – o leitor/ouvinte/observador – deve participar da composição dos significados. Cabe ao ouvinte ouvir, mas não apenas ouvir. Ao ouvinte cabe perceber os significados ocultados pela maestria do compositor. Isso se pode fazer com qualquer composição, com qualquer quadro, qualquer livro. Entretanto, há aqueles que não obrigam o receptor a este exercício de interpretação, são tão evidentes que nada resta deles para dizer, como há outros que inquietam o receptor e subvertem o sentido imediato da comunicação, para tornarem-se invenção. Não há nestes uma imprecisão sequer, mas que, por serem tão precisos, exigem do receptor a ativação do que nessa precisão se esconde.

A música de Caymmi, incrustada na sensibilidade do ouvinte brasileiro – por pertencer ao cancioneiro que se domina desde que se nasce, por assim dizer – é um caso raro em que a expressão do popular se alia à maestria da invenção da arte. Caymmi captou e expôs, nas possibilidades da arte, do périplo sempre inquieto e inconstante, que é o motivo pelo qual a arte se faz, a capacidade de dizer as complexidades humanas, com o mínimo de expressão e o máximo de simplicidade, no que elas possuem de mais intenso.

Ao colocar nos aparelhos que tocam música – são tantos hoje em dia – o cancioneiro de Dorival, o ouvinte não só reconhecerá a si mesmo como descobrirá em si mesmo outros que ainda não havia percebido ser.

 


Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

Eu não tenho onde morar



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