Paula Toller - sónós
Sónós de Paula Toller e sua festa de sonoridades é um álbum redondo. É cool e pop no que os termos possuem de concreto, fugindo do caricato. Ao longo das 14 músicas fica a sensação orgânica, de que tudo pode ser repetido ao vivo, de que estamos participando do registro de um show, onde os músicos tocam entrosados na troca de olhares. O cd está além do mero empilhamento de instrumentos e programações digitais, o que faz, paradoxalmente, que o cool seja um lugar aquecido e aconchegante.
“O legal de esperar entre um cd e outro é que você tem uma outra vida para contar. Nesse eu olhei para dentro de mim. Gosto de falar do que é universal, do que dá trabalho. Como diz Fausto Fawcett, falar do básico”.
Músicas como O que é que eu sou e Você me ganhou de presente são bons exemplos da opção pela simplicidade que dispensa malabarismos. Paula Toller segue o estilo de letras do Kid Abelha, tomando um cuidado especial com a poesia, pequenos recitais musicados, que se encaixam na voz melódica da cantora.
Em Sónós, ela se une a diversos compositores nacionais e internacionais. Tudo graças a essa ferramenta mágica chamada internet. Estão na caixinha musical Kevin Johansen, Jesse Harris e Nenung (compositor de Meu amor se mudou pra lua, primeiro single).
“O cd tem uma proposta diferente da mp3, é um trabalho artístico. As vendas vão diminuir, mas ele não vai sumir. Imagina você dar de presente um link. A música, como toda forma de arte, reflete e a ponta. Ela reflete a sua época, mas deve estar à frente”.
Tudo se perdeu é uma versão de Vicious World do cantor Rufus Wainwright, tido como um dos grandes nomes da música contemporânea. O casamento funciona na feminilidade e melancolia das letras, mas falta algo do delírio de Rufus. “Caiu com Maysa na fossa”, diz a letra mais triste do cd.
Erasmo Carlos assina O que é que eu sou, canção filosófica e reflexiva. Em Pane de Maravilha Paula Toller assume-se Rio de Janeiro e canta um tempo ainda agradável da cidade (maravilhosa e coração do Brasil). A letra também tem a mão de Fausto Fawcett, dando ao Rio um toque de fênix, mas distante do purgatório de Fernanda Abreu. A melodia de Dado Villa-Lobos deixa de lado o agito carioca e estica os pés na beira da praia. Boa por sacadas como “Michê do meu cartão postal / Desipanemeço total”. Só faltou a água de coco.
Outros bons momentos são All Over, um dueto com Donavon Frankenreiter que beira a surf music e À noite sonhei contigo, versão de Anoche soñe contigo de K.Johansen. Essa, boa pela letra e pela melodia para cima. “Que lindo que é sonhar, e não te custa nada mais que tempo”.
O grande destaque é Barcelona 16, feita para o filho da cantora, que começa a sair de casa para viajar e estudar fora.
Solta da minha mão
leva o seu violão
dentro do mochilão
leva também o meu coração
Eu não sabia que existia
esse outro parto de partir
de me deixar na beira do cais
filho sempre meu não mais
- Barcelona 16.
Sónós é um cd que mira o mundo. Como dito no release, as fronteiras se quebraram como vidro, os países não mais nos explicam. Quando termina a primeira audição, fica a impressão de que no bis do show vamos ouvir Pintura Íntima e Fixação, para animar a festa.
“A turnê começa com shows pequenos em lugares intimistas. A estréia oficial é em agosto em Porto Alegre. Fazer show sem o Kid Abelha é a possibilidade de ter uma nova estréia depois de 25 anos de carreira”.
fotografias de Christian Gaul
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















