maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Tempo.Depois

Esperamos todos. Nós, na platéia. Eles dois na cena. Não há palco, estamos todos dentro de uma sala de espera. A sala é de uma puerilidade assustadora, de um lugar-comum que beira o absurdo, sala de mentirinha, com objetos que aludem a um outro tipo de teatro, uma comédia de costumes do telão pintado e cheia de detalhes inúteis – a gaiolinha, o relógio de parede, a mesinha com café, o abat-jour, o aviso de não fumar, o sagrado coração. Lá estão as quatro paredes, estamos cercados por elas – estamos dentro da cena realista. A sala tem duas portas: e por elas tudo pode entrar ou sair. Em cena, dois jovens – ele vasculha sua mochila, de onde retira uma sunga vermelha, ela lê um jornal do dia e escuta alguma música no seu walkman. A música dela não é a música da sala de espera. Isso deve ser levado em conta? Vestem-se como nós, espectadores. Isso é um sinal. E então começa a comédia. O ambiente amarelo e rosa é a sala de espera de um consultório de psicanalista e eles estão ali para ser testados. E nós também?

A moça faz palavras cruzadas – uma pista. Ele encontra um livro de Clarice Lispector. Estamos no instigante jogo de buscar sentidos, esse parece ter sido o objetivo do teatro contemporâneo e da vida contemporânea: apresentar-nos um mundo caótico ou misterioso para que nós busquemos configurá-lo numa hierarquia de sinais e lhe dar sentido. A moça puxa assunto, o rapaz responde reticente, não querendo ser invadido, tentando manter sua individualidade, sua privacidade, fazer de seu mundinho desinteressante algo em que valesse a pena prestar atenção. Afinal, ambos devem ser concorrentes para a mesma vaga. Não podemos nos entregar abertamente ao outro, estamos todos em determinado momento concorrendo com alguém para uma única vaga. E a conversa se inicia, ágil, cheia de associação de idéias. Cheia de pistas? Enquanto falam, executam pequenas ações realistas, dentro desse ambiente de casa de bonecas. Visitam vários assuntos, como a imprensa diária. Não se aprofundam em nenhum. Não há tempo para isso. O rapaz fala em holograma – milhares de imagens, você escolhe o resultado; teoria da interferência, da física quântica – somos todos a mesma pessoa; debatem semiologia – os mistérios do significado e do significante; as armadilhas do verbo, que pode confundir e dificultar a aproximação ao objeto. O que foi dito não importa, o que importa não tem nome. É um sinal para não levarmos tão a sério o que é dito? Para aguçarmos nosso olhar e nossos sentidos? Todos os sentidos? Até agora, a peça seguiu numa linguagem realista, em que até se pode falar de assuntos instigantes, mas onde a estética é soberana, uma fatia da vida, os significantes não se deixam influenciar demasiadamente pelo significado. É sempre a mesma sala de estar, o mesmo relógio marcando as horas, o mesmo samovar. O sentimento de déjà vu é apenas um detalhe.

Mas alguém cruza a cena. Um terceiro personagem. A cada dia uma pessoa diferente atravessa a sala de espera e muda a direção do espetáculo. No dia em que assisti, Gabriel Braga Nunes entrou por uma porta, disse algumas palavras ao telefone celular e saiu pela outra. E esse vento que atravessa a sala age sobre eles como um rato, parafraseando Georg Büchner.

A partir de agora, eles invertem suas atitudes, misturam suas falas, o diálogo dá marcha-a-ré. Ela age como ele, ele age como ela. E a desregulagem começa. Passamos do teatro realista ao teatro do absurdo. Referências implícitas a Ionesco, Beckett, Pinter. Será que inverteram mesmo suas identidades ou é um jogo entre eles? Ah, sim, na primeira parte, o rapaz tinha dito – somos todos a mesma pessoa… Ou será que essa é a matriz e a primeira parte era a cópia? Onde buscarmos a verdade? Como reconhecer o original e a xérox no mundo contemporâneo? Chegam de fora sons inusitados – o relincho de um cavalo, um avião que sobrevoa, outros sons. A partir de agora tudo pode, tudo é lícito, todos os signos se subvertem. De dentro do livro salta a foto de uma mulher nua, do vaso de flores sai uma garrafa de uísque, da mochila sai um picolé. O jogo de subversão dos sinais e gestos é tanto uma leitura do mundo atual, em que o sentido está alterado, quanto uma grande homenagem ao teatro, ao seu faz-de-conta genial, à sua brincadeira com os significantes e significados. No teatro, tudo pode ser, depende do olhar. A cena é um território fértil que pode ser tudo; e nós podemos ser tudo, podemos até ser uma mesinha. Dois mundos paralelos. Desde o princípio de Tempo.Depois já estamos lidando com mundos paralelos: o nosso como espectadores e o deles como atores (dentro do mesmo espaço), o mundo da comédia de costumes realista e do teatro de vanguarda, do que é visível e do que fala aos outros sentidos, o objeto fazendo seu papel ou fazendo o papel do outro. A aleatoriedade dos signos ou a falta de sentido do mundo? Ou o rodízio de significados…? As ações de repente se convertem em passes de mágica – a água se torna azul, a voz feminina se torna masculina, e tudo se equivale na sua estranheza.

As personagens saem. A cena fica vazia. Ou ocupada por nós. E por um rádio que toma vida sozinho. A luz se acende fora do cenário, vemos sua armação de madeira, se revela o artifício. O rádio dá a notícia de um meteoro na Vargem Grande, brincadeira com Orson Welles. A imprensa é uma brincadeira, é um jogo de assustar e deter a ameaça fictícia? O crime é registrado pela imprensa ou forjado por ela? Em quem acreditarmos num mundo de realismo fantástico?

Tempo.Depois
de Rodrigo Nogueira é um texto inteligente, instigante, ágil. As referências literárias e filosóficas não são poucas, o texto é uma babel. A direção de Alessandra Colasanti é irônica, acompanha o fluxo caótico do texto com muita propriedade. Sabe o que está fazendo, sabe aonde quer chegar. Em cena, Rodrigo Nogueira e Fernanda Félix têm a inquietação e habilidade necessárias para o teatro que fazem. Atores inteligentes que se colocam a serviço do teatro. Isso não é pouca coisa. O cenário de Natália Lama acerta no tom, nas cores, na miscelânea de objetos banais. A luz de Tomás Ribas está de acordo com o que o espetáculo necessita, tendo seu melhor momento no final, quando o que não é cena se ilumina para reconfigurar o que era a cena. O figurino que se pretende não-figurino é de Alessandra Colasanti. Poderia ser outro? Era necessário que esse figurino fosse o mais cotidiano possível dentro de um ambiente tão extra-cotidiano e ao mesmo tempo, tão banal. A direção musical é de Lucas Marcier e de Rodrigo Marçal, trazendo ao ambiente ora a normalidade da sala de espera; ora a ameaça dos sons inusitados de animais e máquinas ameaçadoras; ora o realismo fantástico da nossa imprensa. A equipe é homogênea em sua ambição, o teatro que buscam não é o de degustação fácil visando o sucesso relâmpago. E isso não é pouca coisa. Talvez ainda falte aos atores certo caráter palatável no uso da palavra, por vezes o fluxo alucinado do verbo descarregado dificulta a vivência ou a aparência dela, pelo menos. Em alguns momentos o jorro verbal se torna robótico em demasia, e a gradação é sacrificada. Em alguns momentos as réplicas estão na ponta da língua demais. E os desvios da linguagem e do pensamento não são levados em conta. Tudo bem que essas personagens estão agindo como máquinas que se tentam humanas (ou como homens que se tentam máquinas), mas faz falta em alguns momentos uma desregulagem no próprio fluxo, para que ele não fique da boca para fora. Mesmo que nós – hoje, e cada vez mais – falemos da boca para fora. Mas isso também é um detalhe.

Ou não é?

 

 

 


Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.

 

editoria: edicao_0008, teatro, em 1/7/2007

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.