Você pode estar na velocidade que for, se as coisas em torno de você também estiverem se movendo de forma igualmente veloz, haverá um momento em que a sensação é de imobilidade, uma suspensão do tempo, tudo e todos parados. Não é desagradável, pelo contrário, a atemporalidade faz com que passado, presente e futuro se igualem em uma espécie de morte ou de eternidade. Ficamos, ou melhor, temos a impressão de que ficamos, prazeirosamente estáveis – esta raridade.
A exposição 20 e poucos anos, da galeria Baró Cruz (SP), sugere que nesses jovens de 20 e poucos anos, tão fluidos e rápidos, há um desejo (algo que se fantasia em um futuro) ou uma nostalgia (algo que se fantasia em um passado) de estabilidade. No meio da velocidade.
Para começar, a figura humana.
Depois de tanto tempo em que a sua representação na arte é vista como insuficiente, ei-la de volta.
Sumiu quando o poder político, econômico e social do indivíduo nas democracias ocidentais aumentava exponencialmente no pós-guerra. Como se a figura tivesse de explodir em formas e cores porque sua estratificação engessaria a experiência humana em expansão.
Seu reaparecimento vem em um momento em que a individualidade se encolhe, diluída, necessitada mesmo de um espelho que a reafirme. Mesmo se, nessa estrada em que estamos todos, tal espelho é apenas a figura na janela do carro ao lado, viajando em igual e vertiginosa velocidade.
Os expositores, um por um.
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Gabriel Jaguaribe se demora em desenhos de detalhes, no desejo de registrar um mundo minúsculo que de outro modo nos escaparia. Usa caneta muito fina, calígrafo medieval.
Flamínio Jallageas força a duração de técnicas antigas que já desapareceram ou estão em vias de. Faz isso ao revivê-las em formato digital. São aguadas, aquarelas, mas não em tinta e água, e sim pixels, são manchas digitalizadas. E impressas em um papel de arroz, milenar.
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Vitor Iwasso é bem direto. Faz pinturas divididas. Em uma parte há uma representação realista, na outra, formas sinuosas, livres, que espelham contudo as formas e cores usadas na representação realista. Os títulos reforçam a nostalgia/desejo. São narrativos, e narram passados distantes: Eu costumava achar que essas coisas aconteciam por uma razão. Ou: A infelicidade vem em todas as formas e tamanhos. Ele explicita em sua obra um percurso da arte, do realismo ao modernismo, e ao fazer isso emparelha seu movimento a este outro. Antes da encruzilhada.
Rafael Suriani é artista de rua. Faz figuras com caras de animais que dançam danças de rua, de periferia. Um traço rápido, fugidio, de ponta de feltro em papel qualquer, vagabundo, dobrado ou rasgado. Seria uma arte de momento. Mas ele emoldurou. Outros da mostra não o fizeram, mas ele sim. Corretas e burguesas molduras pretas, com vidro, cercam seus desenhos e determinam sua durabilidade física, seu desejo de permanência.
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Verena Klary repete nos seus quadros a técnica tradicional dos grandes coloristas europeus. Ela traz assim uma simultaneidade a uma estética passada. Mas seu tema é o vento. É no meio do vento que surge a concomitância de internet e século XVIII. Um de seus pastéis se chama Me gusta el viento e, nele, além do desenho há um envelope com bilhetes na escrita descompromissada dos emails e bilhetes adolescentes.
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Rodrigo Bivar tem óleos (e óleo é o que há de mais tradicional, em matéria de tinta) enormes, realistas, de pernas femininas. Ao lado, o único auto-retrato com este nome de toda a exposição. É interessantíssimo. No pequeno auto-retrato, mais do que nas grandes figuras femininas, vemos uma pincelada lambida, sem volume. As pinceladas são todas horizontais, o que produz um movimento de passagem, como se a figura estivesse passando na frente do fruidor. Ou vice-versa.
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Juliana Freire usa o gerúndio para nomear suas serigrafias sobre tecido. Todas elas representam, portanto, ações petrificadas em pleno andamento. A maior delas é a Fodendo.
Rafael Carneiro é um dos que mais trazem o registro do transitório. São desenhos sujos em papel rasgado. Este contraponto – que, no entanto, não fica isolado (há outros desenhos não tão sujos em papéis igualmente rasgados) – lembra, na sua fragilidade, o movimento das feministas e dos gays, da década de 60 do século XX, a atacar com rara eficácia o domínio lógico, limpo e eficiente do universo masculino. Continua necessário, continua eficaz.
Marlin Legón fala de uma lenda folclórica, portanto atemporal, de seu país, a Argentina. A mulher que foi morta por lobos é mostrada, contudo, em uma atualização. Ou é o contrário, é a contemporaneidade urbana que é levada para esse passado distante, mítico. Na obra de Legón, a mulher e os lobos travam seu embate em um ferro-velho. E em um terreno cercado, cheio de mato, de alguma periferia.
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Anderson Orui é o único a se aproximar da representação como instrumento de formação de símbolos. E mesmo assim, o faz para negá-los. No caso dele, é o olho, símbolo do espelho identificatório. Mas, justamente, seus olhos estão riscados ou se encontram atrás de cílios-grades, presos, portanto, em cílios-barras de ferro.
Nos outros artistas não há símbolos. Não usam a representação para elegê-los. Ou até mesmo (o que seria um passo além) para mostrar que símbolos funcionam em mão dupla: ao simbolizar em imagens uma verdade pré-existente esta verdade se torna assim verdadeira aos olhos de quem a vê. Não é o que eles buscam, a estratificação. Mas apenas um momento fugidio, embora agradável, de sensação de estabilidade. Sabem que um suposto espelho do aqui e agora deverá ser entendido apenas como um panorama eventual, produzido por critérios fluidos e recebido através de outros, mais fluidos ainda.
É uma estabilidade para lá de temporária, esta.
Anderson Orui, além de suas pinturas com os olhos riscados, traz também uma revistinha pornô em tiragem limitada, 50 exemplares. Nela, uma menina tira a roupa e se masturba em PB, fundo vermelho, página por página. Na última, o corpo depois do gozo tem a imobilidade de que fala a exposição. Foi bom, é bom. Pena que dure pouco.
A busca pela estabilidade momentânea dentro da velocidade é dita também pela curadoria. Adriano Casanova escolheu artistas que lidam com arte tecnológica de uma maneira boa, sem alarde. Ninguém berra: olha, mamãe, fiz no computador! O digital é visto aqui como deve ser visto, como mais um instrumento, a somar-se a outros instrumentos – canetas, pincéis. Vários dos artistas da mostra foram escolhidos através de seus blogs e mostruários na internet. Outros usam o tablet não porque é tablet, mas porque é o tablet o instrumento mais adequado para o fim pretendido. Há imagens vetoriais (como a do publicitário Lucas Simões), prints. E pastéis, óleo, nanquim, pilô. Misturado, invisível. A não ser que você pare, mas aí, já tanto faz.