Ernesto Neto
Na parede do ambiente doméstico montado por Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, em Copacabana, há uma frase escrita a esferográfica: idéia é isso que cabe dentro. Da frase sai uma seta indicando uma página de caderno, grudada com durex logo ao lado, contendo umas figurinhas, uns diagramas.
Não sei quem escreveu isso, se o próprio artista, se algum de seus visitantes, que têm permissão de interagir com o ambiente como quiserem.
A frase oferece uma leitura não só dela mesma, rabiscada na parede, mas de toda a instalação.
Idéia é o que cabe dentro de um espaço criativo, seja ele uma página de caderno desenhada, o salão da galeria ou o ateliê particular do artista, cujos móveis e decoração são os da instalação, em uma reprodução que dizem ser exata.
E, é lícito inverter a frase, ambiente criativo é isso onde cabe uma idéia.
A instalação na Artur Fidalgo tem umas redes de nylon no teto, de onde pendem pesos. São descendentes das meias de mulher contendo bolinhas de chumbo, que o artista fez durante um tempo. A impressão, agora, é de pingos de alguma matéria quase fluida, mas consistente.
A continuar na leitura proposta pela frase da parede, os pingos ficam então sendo o depositar lento mas contínuo de uma idéia que acabará por se constituir em uma forma, como a dos apliques sinuosos, feitos em madeira de cor mais clara, que foram postos no chão.
O uso da experiência, individual ou social, caiu em desuso por quase um século. Só agora reaparece. No século XIX havia, principalmente na América Latina, Brasil incluído, uma arte que se queria útil. Aqui ainda relutamos a abandonar essa vertente, mas o fizemos. Agora, volta. Na Bienal de São Paulo, no ano passado, havia uma presença maciça de arte referencial, geográfica e temporal. Mas não é uma volta, exatamente. As melhores obras têm suas referências não no tema, didáticas, mas na maneira como são feitas e nas informações, indiretas, que estão em sua volta - releases, notas, títulos, contextualizações.
Eu sei que se trata de uma reprodução do ateliê do artista porque me disseram isso, não que haja alguma coisa dentro da instalação que assim a determine. Tal informação vale como complemento de uma leitura a respeito do espaço criativo. Não é constitutivo dele.
Aliás, há uma circularidade, uma suficiência no espaço montado na galeria. Os pingos que caem, as formas no chão, é como se o espaço se bastasse a si mesmo, fosse dinâmico sem a interferência dos visitantes que por ele andam, o próprio espaço criando ao se criar.
Faz lembrar outra instalação do artista, para a 49ª Bienal de Veneza, em 2001. Quase um cérebro vivo.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















