Segunda-feira, 07 de maio de 2007. Trinta atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas, caracterizados de padres, monges, árabes, wiccas, mães de santo etc. percorreram toda a Avenida Ataulfo de Paiva, Leblon, Rio de Janeiro. O grupo partiu às 17h30 da esquina da rua Afrânio de Mello Franco até o canal da Visconde de Albuquerque, e, às 19h30, se concentrou em frente à Livraria Letras & Expressões. Ali encenaram um ato dramático de congregação múltipla das crenças em caráter holístico e musical.
Em seguida, ativistas do movimento poético da cidade juntaram-se ao ato. Poetas como Cairo Trindade, Rosália Milstajn, Pablo Mobellan, Mariana Dias e o grupo Trio Los Três deram início ao que os organizadores do evento decidiram nomear “primeiro sarau de poesia mística do Leblon”.
Motivo de toda esta badalação: o lançamento do livro Os dois Prados, de Lucho Apoelo, pela editora Antigo Leblon.
Acompanhe a seguir entrevista com o poeta e editor Érico Braga Barbosa Lima, coordenador do evento:
O EVENTO
A – Como foi a experiência de coordenar um evento de teatro itinerante em plena hora do rush, numa das ruas mais movimentadas do Leblon. É possível avaliar a recepção do público que circulava naquele momento?
EB - É possível descrever a reação do público. Se podemos arriscar uma simplificação, diria que foi um misto de surpresa genuína com ceticismo treinado. As pessoas estão acostumadas a ver tudo na televisão, mas não estão habituadas a ver as coisas fora da televisão. Tentavam racionalizar (e na maioria das vezes a racionalização – poderia dizer a ‘anestesia’ – acabava por vencer), mas não conseguiam afastar dos próprios rostos o olhar de incredulidade. Uma equipe de cinematografistas convidada para registrar o evento capturou as expressões, nuanças e a evolução das reações, material que (ajuntado a mais registros) pretendemos transformar posteriormente em documentário. Como vários dos esquetes são extraordinariamente interativos – em um deles todos os trinta atores param para rir durante um bom tempo de um transeunte escolhido ao acaso –, vale a pena conferir os resultados e verificar, conforme a observação do psicanalista Carlos Mário Alvarez, que acompanhou a ‘passeata’, como a maioria das pessoas ‘está distante de tudo’, principalmente ‘delas mesmas’. Foi um laboratório excepcional. Em todos os aspectos.
O trabalho de coordenação do ‘espetáculo’ (se podemos chamá-lo assim) ficou a cargo do diretor Cláudio Filiciano, que se empenhou na elaboração e acompanhamento das ‘coreografias’, do trabalho de corpo, do tratamento de figurino e das atuações pontuais.
Foi um belo exercício de coordenação (essa é a melhor palavra), pois foram duas horas de ‘peregrinação’ com uma equipe (entre artistas, distribuidores de panfletos, fotógrafos, câmeras de filmagem e assessores) de quase cinqüenta pessoas. E isso era só a primeira etapa da noite.
Para ver os registros, você pode acessar o youtube (há pelo menos 10 vídeos que pudemos disponibilizar de antemão) ou ir diretamente ao site do Lucho Apoelo (www.luchoapoelo.com.br) e visitar a seção de eventos. Estão todos lá.
A – E o trabalho com os atores, houve algum tipo de ensaio ou preparação, como se deu a construção dos personagens? Qual foi a estratégia dramática para que o tema fosse desenvolvido durante a atuação?
EB – Todo o trabalho foi montado em cima do conhecimento prévio que o público tem das manifestações religiosas das mais variadas (trajes, cerimoniais, comportamento, linguagem etc.). O trabalho com ‘tipos’ é calcado no imaginário popular, mas contamos, também, com o olhar antropológico de cada ator e sua contribuição personalizada. Como se tratava de uma produção de baixíssimo custo, não podíamos recorrer à criação de figurino — ele foi adaptado a partir do que havia disponível (cada ator e também das peças anteriores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas) e refinado pelos cuidados particulares dos atores. A ‘protestante’ (crente) ficou absolutamente impecável, e era de vê-la em todos os detalhes (do discurso à saia) convertendo os seguranças do Restaurante Diagonal, com as palavras de Lucho Apoelo. E isso é outro detalhe importante. Você perguntava sobre tema. Na verdade, foram trabalhados os textos de “Os dois Prados”. Foram compiladas 70 falas (máximas ou parágrafos que expressassem uma idéia, um conceito ou uma moral) e distribuídas entre os atores, que as incorporaram e as adaptaram às personalidade e trejeitos da personagem. E é curioso observar – de fato – como a fala místico-religiosa convém perfeitamente a todas as religiões embora elas se reputem diferentes e mormente se refutem. Em outras palavras: uma mesma máxima cabia ao maometano, ao judeu, ao crente, ao padre católico, à cigana e a todos eles, no momento do recitar, pareça que tinha sido baixada naquele mesmo momento como uma inspiração divina de seu próprio e íntimo (único) Deus.
Há que se louvar o trabalho do Cláudio Filiciano, o apoio de Najla Raja, e a disposição (pois foi uma ‘puxada’ física de lascar qualquer um) dos atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas (terceira idade). Foram perfeitos do começo ao fim – em dedicação, concentração, ritmo e resultados. Para o número reduzido de ensaios de que dispusemos, a capacidade de adaptação e improviso compensou (e sobrou) qualquer desvio do planejamento original.
A – E o recital poético, como foi preparado?
EB – Aproveitando o fato de termos à disposição atores, convidados poetas e uma casa (A livraria Letras & Expressões do Leblon) afeita a saraus e movimentos artísticos, especulou-se a possibilidade de se congregar à atividade de lançamento e da manifestação dramática, uma atividade poética. Nada mais natural. Acabaria acontecendo de qualquer forma. Procedemos, então, à produção. O que se fez, em resultados, foi consagrar a realização do Festival de Poesia mística Apoelística do Leblon, quando conclamamos os poetas convidados e presentes a compartilhar poemas de cunho místico, religioso e/ou espiritual. O cartaz segue em anexo, mas vale destacar os seguintes nomes: Mariana Dias, Ângela Carrocino, Trio Los três, Cairo Trindade, Denisis Trindade, Antonio Gutman, Reynaldo Sancjhes, Rosalia Milstajn, Rosa Born, Marcos Chrispin, Mônica Montone, Pablo Mobelan e Ricardo Oiticica (e do apoio do Poesia Simplesmente), que abrilhantaram a festa com sua participação. Óbvio que, pela quantidade de nomes, dá para se ter uma idéia de que a noite foi longa. Alguns desses poemas serão logo-logo publicados no site do Lucho Apoelo.
A EDITORA E O LANÇAMENTO
A – Há quanto tempo vocês estão no mercado e quais são as linhas editoriais da Antigo Leblon?
EB – Ainda que recente a constituição da empresa (5/04/2004), seus dois sócios militam na atividade literária há bastante tempo. São um escritor e um professor universitário com doutorado em Literatura brasileira, o que determina a inclinação ideológica pela valorização cultural da produção — e a diferencia a sociedade da maioria das editoras do País, para as quais o viés comercial é fator preponderante na seleção dos trabalhos que publicam.
A empresa tem um histórico curto e um ideário que alguns desavisados poderiam chamar de romântico e utopista, mas é inegável que tem atração pela cultura, pela qualidade literária e pelo nível de excelência, o que torna suas obras boas na medida em que nascem por necessidade e não por promessa de recompensa.
A – Você crê que o evento teve uma repercussão por si, ou funcionou como estratégia para o lançamento do livro?
EB – É difícil avaliar a repercussão de qualquer acontecimento na rua, se ela não sai nos noticiários ou na televisão. Este é o parâmetro atual prioritário de aquilatação de sucesso — o outro é o lucro. No primeiro caso, faz-se alarde, no segundo, fica-se na encolha. Nos dois casos, todos mentem, não importa quais sejam os resultados (nunca o saberemos: quem ganha dinheiro não precisa dizer, quem faz sucesso, idem). Antigamente as pessoas andavam nas ruas, brincavam nas ruas, trocavam histórias nas ruas. O que percebemos, nós da produção, os artistas e os convidados (a platéia itinerante e aqueles que seguiriam para o lançamento) é que enquanto andávamos, brincávamos e trocávamos histórias, as pessoas corriam para casa para assistir o jornal. O Leblon morreu. Hoje ele é manjedoura chique para a seguinte zoologia de turistas: aristocratas recém-domiciliados, falsos boêmios e aspirantes a intelectuais. Isso não é pessimismo: é a verdade. Por isso, posso lhe dizer o seguinte. Sim, houve repercussão intramuros, comentou-se muito entre comunidades (isoladas) de amigos. Houve muito contato pela Internet (que ironia!) e principalmente depois que viram os vídeos no youtube (mais ironia ainda!). Houve muitos entusiasmados que fizeram questão de repetir e repetir que a cidade estava precisando de coisas assim. Um deles disse que precisávamos de manifestações “espontâneas” desse tipo. Repare: se chegamos ao ponto de considerarmos coordenar trinta atores criteriosamente fantasiados e ensaiados uma manifestação “espontânea” é sinal de que as coisas vão muito mal e subconscientemente sabemos o quanto estamos sendo manipulados a cada segundo pelas instituições que nos assistem.
A – Eventos dessa natureza, que ultrapassam as portas fechadas das livrarias ou dos teatros, sobretudo os relacionados ao lançamento de um livro, não são muito freqüentes. Neste caso, a opção deveu-se a um diferencial na estratégia promocional da editora Antigo Leblon, ou foi uma opção estritamente relacionada com o livro lançado?
EB – Alguma coisa eu já respondi acima, portanto, aproveito para complementar as informações e os conceitos. No caso de Lucho Apoelo, especificamente, algo mais precisava ser feito, para além da publicação de ‘Os Dois Prados’, o que por si só já é um feito importantíssimo.
O que havia sido pensado inicialmente como estratégia editorial (havíamos planejado trabalhar com cinco atores, mas acabamos contando com a adesão voluntária de toda a companhia) acabou virando uma atuação desafiadora – até certo ponto romântica – característica a que Editora e as pessoas que atuam próxima a ela são mais do que afeitas.
Uma resposta a uma pergunta que você não fez: óbvio que foi válido. E os resultados totais estão ainda longe de terem sido aferidos.
O LIVRO
A – Fale-nos de Lucho Apoelo, como vocês o descobriram?
EB – Fomos inicialmente sondados por um representante de uma associação que insiste em permanecer no anonimato e atende pela misteriosa sigla CLA (Confraria Lucho Apoelo). Embora reticentes, a princípio, fomos seduzidos imediatamente pela história, pela fartura do material, pelas possibilidades de sucesso e, principalmente, pela qualidade literária, coisa raríssima nesse gênero. A CLA nos forneceu cópias digitalizadas do acervo apoelístico: biografia, “Os Dois Prados”, um diário e alguns documentos esparsos. Todos eles interessantíssimos. Criação de uma mente fantasiosa ou personalidade inusitada, a pessoa de Lucho Apoelo é extremamente sedutora, pelo que de anárquico e desmistificador ele traz consigo, justamente o que se poderia julgar o antípoda do místico, normalmente um doutrinário, um moralista caturro, e com pirilampos e símbolos de artifício. E justamente esse advogado do diabo era o predecessor de toda horda mística contemporânea?!… Era bom demais para ser verdade. Óbvio que concordamos imediatamente em trazer a lume o primeiro (e talvez o mais importante) dos documentos que nos disponibilizaram. Aproveitamos e desenvolvemos uma campanha de marketing condizente com o nível de produção inicial que nos propuseram.
A – E a primeira edição de Os dois prados, de quando é, como vocês tiveram acesso a ela?
EB – A história de “Os dois prados” é extremamente interessante. Segundo as cópias dos registros, que tivemos em mãos para compilação dos dados (fornecido pela CLA), só há um único exemplar remanescente e os demais foram recolhidos e destruídos. Embora nunca tivesse redigido uma simples sentença (era um orador extraordinário e se negava a registrar o que segundo ele só podia existir dramaticamente) seus ensinamentos foram cuidadosamente transcritos por um de seus seguidores, responsável por um documento que se tornou o único e confiável evangelho da doutrina disseminada. Essas anotações teriam sido publicadas por um editor de livros científicos, em tiragem de 119 exemplares.
O material abrange, ainda, a análise de um diário mantido por outro seguidor (sem marca de autoria). Tudo isso foi, há mais de cinqüenta anos, lacrado em baú de liga de platina, sugerindo a intenção de preservar o rico acervo para posterior apreciação por parte de estudiosos munidos de recursos capazes de interpretar pelo modo mais apropriado as mensagens que continha. O cuidado com a conservação e os apetrechos utilizados mostram o alto poder aquisitivo do guardião da relíquia. É, também, indício expressivo do perfil dos integrantes do segmento social que buscava sua orientação. Muitos de seus seguidores foram notáveis representantes da aristocracia carioca. Do exame do diário, foi possível constatar que as unidades distribuídas desapareceram das estantes dos livreiros um mês, apenas, após consignadas. Há indicações de que a sede da editora responsável pela primeira e modesta tiragem situava-se nas proximidades da Praça Tiradentes, em sobrado junto àquele onde funcionou, mais tarde, a Estudantina.
Para alavancar uma nova arrancada na estratégia de marketing do nome Lucho Apoelo, estuda-se a publicação, em meados de 2008, do “diário” e uma análise das “notas”. Estão sendo feitas sondagens com alguns escritores para a elaboração da ‘biografia apoelística’. Este é um projeto para início de 2009
A – Tentando relacionar o ato dramático com o livro, será que o evento teatral itinerante, uma proposta meio carnavalizada, está à altura da seriedade esotérica e mística do autor?
EB – Segundo as informações biográficas disponíveis, era o próprio Lucho Apoelo um caminhante, um itinerante e afeito a enigmas (e a mascaradas). Seus encontros eram em locais variados e, muitas vezes, a peregrinação se convertia em uma espécie de caça ao tesouro, em que se sucediam os mapas e charadas para que conseguisse localizar o próximo ponto geográfico, com a próxima charada. No final da noite, ficavam os claudicantes discípulos surpresos em verificar que o aprendizado estava todo ali, no percurso. Não ficava ele séria e concentradamente contabilizando deuses, frases e duendes que emergissem de uma Remington 20. Era o próprio Lucho que ia à frente de seus amigos, seguidores e curiosos, pelas noites, pelos desvãos da cidade, desmistificando os seres imaginários que o ser humano insiste em materializar, com perda da inteligência literária e do poder criador da metáfora.
E há que se fazer uma distinção bem clara entre o “sério” e o “grave”. O ‘grave’, na maioria das vezes é uma pobre alma vulnerável que se esconde atrás da erudição ou da voz grossa ou de um moralismo ou doutrina quaisquer. A seriedade prescinde dessas artificialidades. Até se utiliza, sim, do humor, para desarraigar algumas tiriricas levianas ou falsos conceitos que se agarram à objetividade e à verdade.
Em uma de suas passagens biográficas (aqui, em várias acepções, do ‘anedotário’), conta-se que certa noite, esperaram vários visitantes durante horas que chegasse o ‘mago’. Como se não tivesse notícia (e o que chegava era o dia), foram indo embora, aos poucos, muito contrariados e até enfurecidos, depois de muita falação, um por um, até que o penúltimo que se ia, perguntou ao último, se ele não ia também embora. O rapaz-senhor (não era possível adivinhar a idade), de chapéu coco e terno impecável respondeu que agora já podia ir embora, pois já tinha aprendido o que faltava aprender. Era o próprio Lucho Apoelo, o primeiro a chegar, trajando roupa de época, de senhor respeitável, e que não havia sido reconhecido. Todos esperavam um ‘mago’, pelas vestimentas exóticas, pelo que pudesse ser conferido à vista. Ali o ensinamento foi de que tudo é fantasia, que se prende ao corpo e nos prende ao chão da sociedade.
A partir de então (conta-se) ia-se aos encontros como melhor lhes aprouvesse, e passaram a distinguir o ‘mestre’ pela fisionomia, pela conduta, pelas palavras. Passaram, inclusive, os discípulos, a sair com os trajes que lhe cismassem, no momento. Eram permitidas as fantasias, como expressão de sentimento e circunstância e até vistas com graça (e só por isso). A representação de textos fictícios criados pelos próprios ouvintes e dramatização de improviso eram vistos como manifestação de estado de espírito. Ele já tinha uma perspectiva interativa e lúdica e construtivista, naquela época, para muito além do estilo pergunta-resposta tradicionais. E era tudo entendido como forma… Forma, mas com algum objetivo.
A carnavalização é um ‘respiro’, e também fazia parte das experiências apoelísticas. Mas a prova mais cabal da real seriedade do autor é justamente essa representação carnavalizada que se promoveu e fez registro (e isso já foi comentado logo no início): nenhum dos seus textos, pela voz de atores maometanos vestidos de católicos, crentes vestidos de bruxos, judeus vestidos de ciganos, nenhum de seus textos em nenhum momento perdeu o seu tom de verdade.
A – Finalmente, Érico, como você avalia o resultado da iniciativa neste primeiro mês de lançamento?
EB – Este primeiro mês de lançamento teve seus escopos alcançados plenamente. Realização da dramatização peripatética, seu registro para youtube e para o posterior documentário, o lançamento e a vendagem esperada, a produção do sarau com a participação de vinte poetas que abraçaram o movimento — e são naturalmente propagadores e divulgadores do autor. E, principalmente, o início de uma movimentação necessária para, entre outras coisas, nos lembrarmos de que as pessoas existem sempre antes e também para além dos livros. Se elas não voltarem a se encontrar, conversar, reaprender a julgar as coisas e compartilhar suas impressões judicativas com seus cúmplices afetivos e intelectuais, se não voltarem a olhar as coisas, a vida, os fatos com os seus próprios olhos, estarão fadados a persistir nos mesmos atos falhos de que se aproveita fartamente a publicidade ostensiva hodierna e, em menos de dez anos estarão comprando instrução de sabão em pó OMO como se fosse poesia.