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Fogo nas Entranhas

A editora Dantes colocou no mercado Fogo nas entranhas, a estréia de Pedro Almodóvar na literatura. O livro, que é de 1981, conta a história de Ming, um chinês milionário e cheio de mulheres que enriqueceu fabricando absorventes femininos. A história tem todo tipo de reviravolta mirabolante no melhor estilo do diretor, adaptadas para as liberdades da estrutura literária. Por exemplo, um casal que é separado em uma enxurrada, com direito a mão para o alto acenando e olhar perdido no infinito, aquele melodrama cômico que os fãs já estão acostumados.

Fogo nas entranhas mostra um Almodóvar mais distante da realidade, exagerando sua fórmula de tragédias, crises amorosas e assassinatos. Sem pudores, ele propõe um cenário de revolução sexual acidental, com todos os instintos humanos sucumbindo ao sexo. Eu explico.

Ming, cansado de ser traído e de fracassar com as mulheres, acaba morrendo. Antes, porém, termina a sua maior criação, o absorvente feminino perfeito (perfeito para a vingança dele). No dia do enterro, as amantes se reúnem de olho na fortuna de Ming e descobrem que o magnata deixou o dinheiro para elas, contrariando expectativas, já que elas são verdadeiras pistoleiras. Para que recebam a fortuna, ele impõe uma condição: elas devem experimentar o produto. Ali, no meio do enterro, cada uma dá o seu jeitinho e coloca o absorvente. O que elas não sabem, é que ele possui uma substância que resseca a mulher por dentro, deixando-a como uma espécie de lixa que torturará os futuros amantes desavisados. Para piorar a situação, o absorvente desperta um desejo sexual avassalador, que causa uma verdadeira caçada por homens, revoltas, destruição e até orgias nas igrejas. O caos e a comédia deliberados.

“Lupe também tinha mergulhado em tudo quanto é tipo de drogas. Quando parecia estar completamente perdida, foi salva por uma dessas religiões de vertente satânica, da qual também acabou se livrando. Tamanho turbilhão existencial serviu para que ela descobrisse que era lésbica. Teve muitos rolos com mulheres. Nos últimos tempos morava em Madrid, apaixonada por uma moça que preferia homens”.

O livro é rico em personagens, todos com função cômica, que aparecem e desaparecem sem muita lógica. O que importa é fazer rir. Se Almodóvar quer acelerar a trama e dar um ar de espionagem, entram tradutores nerds de chinês. Se quer começar uma guerra, coloca as mulheres armadas até os dentes atirando para todo lado. A estrutura é assim, livre, sem pensar nas amarras e nas conseqüências. Pode estar muito distante do que chamamos de literatura, mas funciona bem como pocket, leitura de metrô. Um presente extra para dar junto com o acessório que você comprou no sex shop. Se não fosse de Almodóvar, muito menos leitores saberiam de sua existência. Mas não é esse o caso. O livro se mantém desde o lançamento como sucesso de vendas da Dantes editora.

“Máximo Gómez decidiu estudar aquela língua porque queria ser original. Nada nele chamava a atenção. Saber chinês iria, pelo menos, permitir que fosse diferente dos outros”.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0008, literatura, em 5/7/2007

 

 

 

 

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