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Ocupação da UNEI

Este fim de semana, dentro do evento anual Santa Teresa de portas abertas, houve uma ocupação no casarão abandonado onde já funcionou a UNEI, União Nacional dos Economiários.

É uma construção antiga, jardim, escada de madeira, uns restos de azulejo português. Os artistas ocupantes, em sua maioria e cada um de um jeito, usaram o espaço para falar do próprio espaço. Como eles achavam que o casarão e seus jardins deveriam ser valorizados. Como eles achavam que deveria ser um casarão e, uma vez ele definido, qual sua relação com os espaços urbanos atuais.

Ocupação da UNEI

Tenho 60 anos. Tenho, na minha memória, casarões desse tipo vivos, não como centros culturais, sedes de instituições ou local para happenings artísticos. Mas com velhinhas que varriam a calçada, regavam as plantas e que moravam com suas filhas solteironas lá desde sempre. As tiras de papel que caem das janelas da casa, bonitas, são as cortinas de voile da minha memória vivida, e dançam no vento, igual.

Ocupação da UNEI

Vi a ocupação um pouco como, acredito, árabes ou negros devem ver uma montagem de Othello de Shakespeare. Aquilo lá na sua frente é para ser uma imagem artística de algo que você identifica como seu, mas que é vista por alguém muito diferente de você. E sem um Shakespeare para me contar piadas e fazer trocadilhos.

Ocupação da UNEI

Ao lado de uns raminhos de flores artificiais (!), América Cupello montou uns fantasminhas com imagens de fósforos queimados, ecológica. Perto, Célia Schiavo é menos dramática e veste uma árvore com um tecido onde há a impressão de mãos que a abraçam. Ilana Braia, José Nasser e Neber Nassaro fizeram uma instalação sonora onde falam lentamente dezenas de nomes de árvores brasileiras: sucupira, pau-brasil, jequitibá, samambaiaçu, carapiá. A seqüência dos nomes faz lembrar lista de mortos em alguma guerra. Eficaz.

Ocupação da UNEI

Pedro Grapiúna fez uma flor de ferro-velho, Lucas Reis pôs um tronco (bem fálico) no meio de uma cadeira. Bruno Rezende Silva montou sua Escultura efêmera com folhas de bromélias; e Almir Soares fez a Nós que aqui estamos por ti esperamos (uma corruptela de frase da Capela dos Ossos, em Évora, que, com mais cerimônia e sonoridade, não trata o visitante por tu mas por vós: nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos). Trata-se de vários pequenos túmulos onde estão “enterrados” designs modernistas de móveis de madeira com nome de bicho.

Na escada, já do lado de dentro, Luiz Fernando Sampaio pôs algumas fotos de escadas modernas, de shoppings e prédios comerciais. Nelas, homens de ternos, peruas enfeitadas e com sacolas de compras, e uma máquina de Pepsi. Chama-se Sobe e desce. Certo. Na mesma linha didática, Luiza Lis e Bruno Siniscalchi puseram uns rostos famosos com um espelho no meio e nos explicam: “direcionamos às celebridades nossas esperanças e reprovações; desta forma voyeur a sociedade consome e produz sonhos. Criamos os espelhos e, com prazer ou inconsicentemente, nos refletimos neles.

Há pontos altos. Os Cem metrônomos de Laila Terra, embora com uma idéia já vista, funciona. Alguns estão parados, outros insistem, todos no chão como soldadinhos do tempo. Enquanto isso, o sol entra pela janela. Dá bastante bem a idéia do que fica, perene, e do que passa, fugaz. Do que se mantém, indestrutível, e do que se torna nem mais símbolo mas apenas metáfora.

Célia Cotrim, com sua voz cochichada -: “o que vejo não vejo, não vejo o que vejo, vejo o quê?, tudo está no mesmo lugar mas às vezes não vejo” - é outra que fala com uma complexidade mais sofisticada do que fica, o que some.

Ocupação da UNEI Ocupação da UNEI
E Tita Bevilaqua, com uma idéia muito simples, também apresenta grande força em seu Varal da memória. Roupas. Só roupas: uma camiseta pintada, um sutiã preto. Velhas ou novas mas profundamente carregadas de um erotismo e de um uso humano - eternos.

No barzinho montado exclusivamente para atender ao público da exposição, uma constatação do involuntário, à la Shakespeare: a cerveja servida é uma Antarctica Original, marca comercial de marketing recente que traz no rótulo a mesma reprodução tipográfica com que foi lançada, em 1906. Um resumo, aliás bastante apreciado, do que eu acabava de ver.

Para ir embora, atravesso outra vez, no meio do jardim, as mesmas portas que dão para o nada, que dividem sem dividir, por onde eu já havia entrado. Sem sair.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0008, em 8/7/2007

 

 

 

 

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