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Roberta Sá e Rodrigo Maranhão no Canecão

Foi surpresa boa. Não pelo talento dos cantores, que isso eu já sabia. Mas pela fila enorme na porta (que me fez perder o início do show) e pela casa lotada. Muita gente jovem. Outro dia li alguém que se questionava por que os jovens cantores do Brasil não fazem músicas acéfalas para o público mais novo (como os artistas americanos), e querem sempre parecer novos eternos da MPB. O Canecão respondeu bem a isso, unindo Rodrigo Maranhão e Roberta Sá no mesmo palco. A música, acima de tudo, precisa ser boa, ser legítima, ter essência, precisa ser, enfim, música, e qualquer idade saberá apreciá-la. É triste que alguns críticos ainda vejam a MPB como algo sofisticado para seletos senhores de vida ganha com aposentadoria chegando gorda na conta. Fico feliz de saber que é um conceito que passa longe da realidade. Seja no rock, pop ou choro (e tudo isso é música popular brasileira), existem diversos nomes da nova geração despontando, e ontem a frase “Nesta casa se escreve a história da música popular brasileira” superou o bordão e tornou-se real.

Quem abriu o show foi Rodrigo Maranhão. Ele e o violão em um banquinho, pernas cruzadas estilo Caetano, cheio de conversa entre as canções. Tudo tem uma história que precisa ser contada, bem antes das biografias. Servem para avisar que a canção seguinte foi composta aos quinze anos de idade, que há muito nas letras que não querem dizer nada. “Mas querem”. A banda vai aparecendo aos poucos. Amigos de peso que ajudam a dar forma à musicalidade do compositor. Entre uma conversa e outra, Rodrigo Maranhão apresentou as faixas de seu cd Bordado, lançado pela Universal. Apesar de ser o primeiro, suas canções já estão por aí, na boca de cantores como Pedro Luis, Maria Rita, Fernanda Abreu e Roberta Sá. No show, se destacam as músicas Noites no Irã, Pra tocar na rádio e Bordado.

“A barca segue seu rumo, lenta
como quem já não quer mais chegar
como quem se acostumou no canto das águas
como quem já não quer mais voltar” – Caminho das águas.

Roberta Sá lembra um tempo em que o interprete fazia mais do que ensaio de videokê. Ela presenteia o público com sua voz, corpo e alma. Assim como Rodrigo, ela pisava pela primeira vez no Canecão. Econômica nas palavras, não cansava de agradecer a presença de todos. Modéstia de quem já mostra intimidade com o palco e grande entrosamento com os músicos, num show muito bem produzido desde a apresentação. Tanto nas mais animadas quanto nas mais lentas, a cantora se saía bem. Eu Sambo mesmo e Pelas Tabelas foram tiveram ótima receptividade. Ah, se eu vou por pouco não levantou o público (de suas cadeiras desconfortáveis) para mexer as cadeiras de pé. Foi bom ver que os arranjos das versões de estúdio já amadurecera e ganharam nova vida ao vivo. Braseiro foi uma delas, explorando toda a reação do público para crescer de forma contagiante. É o tipo de evolução que gera expectativas. O show também teve Alô, fevereiro, uma prévia do novo cd que sai em Agosto (desse ano, se tudo correr bem), e Casa Pré-fabricada, lentinha cantada em coro pelos presentes.

Fim do show individual, hora de ver os dois novos talentos cantando juntos, com direito a participação de Pedro Luís. A terceira parte foi curta, mas valeu pela diversão dos três em cima do palco. Cortinas fechadas, muitos aplaudiram e tentaram um bis do bis, mas o show tinha terminado.

“Há quem não gosta do samba
Não dá valor
Não sabe compreender
Que um samba quente, harmonioso e buliçoso
Mexe com a gente dá vontade de viver
A minoria diz que não gosta mas gosta
E sofre muito quando vê alguém sambar
Faz força, se domina, finge não estar
Tomadinha pelo samba, louca pra sambar” – Roberta Sá.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0008, música, em 19/7/2007

 

 

 

 

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