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Analisar um filme dentro do que ele se propõe. A frase tem se tornado lugar comum, geralmente usada por diretores de alguns blockbusters para justificar a falta de qualidade de seus trabalhos. Afinal, você pode oferecer divertimento sem agredir a inteligência do espectador ou ambicionar um filme de arte. Os recém-declarados rivais Ultimato de Bourne e Casino Royale que o digam. Entender a proposta do filme, entretanto, não é um caminho fundamental para se envolver com o que estamos assistindo. Ao contrário, há diretores e roteiristas que não querem que você entenda nada. Tem gente que gosta de respostas, tem quem prefira perguntas e tem os Zazou, que só querem curtir a vida. Transylvania agrada mais ao segundo grupo, mas traz elementos para os outros dois também.

O filme de Tony Gatlif (roteiro e direção) conta a saga de Zingarina, mulher que vai da França para a Romênia com sua melhor amiga Marie atrás de Milan, um grande amor que foi deportado do país. Passeando com sua intérprete Luminitsa por bares e hotéis, Zingarina tenta encontrar o músico pensando em se casar, para que ele consiga o visto permanente e os dois possam viver felizes para sempre. No meio de uma cultura e um idioma totalmente desconhecidos, a missão parece impossível e… pausa.

Filme de mulher atrás do grande amor? Você deve estar imaginando que depois de rodar todas as ruas da Romênia, Zingarina (Asia Argento) esbarra com Milan em uma esquina, a vida dos dois muda completamente e eles se casam ali mesmo, na igreja em frente, com direito a um beijo bem romântico e erros de gravação durante os créditos. Engano seu.

No começo, enquanto finge ser uma história de amor, torcemos para que Zingarina encontre Milan. E ela encontra. Está grávida dele. Ele não sabe. Nem quer saber. Some daqui de uma vez e me deixa em paz, diz ele. É este o tal do amor. Milan manda a viajante arrumar a mochila e ir embora que ele tem mais o que fazer.

Opa. E agora? Se não é esse o tema, sobre o que fala a história?

A maior qualidade de Transylvania é que ele não é um filme que tenta encontrar, mas se perder. O que parece a trama central em um momento se desmonta totalmente no outro e assim o espectador segue sem saber onde pisar, imerso na cultura romena, participando de festas ciganas, aprendendo sobre o comércio, hábitos, comidas, música, preconceitos e, é claro, bebidas e bêbados.

Transylvania fala da descoberta de si mesmo e do paradoxo (você já deve ter percebido) de que para se encontrar primeiro é preciso se perder. Pois perdida em um lugar estranho, cercada de ciganos, Zingarina vaga como Alice encontrando inúmeros personagens pelo caminho. Alguns são neutros, alguns atrapalham e outros ajudam. De parte deles até conseguimos gravar o nome, antes que desapareçam como se nunca tivessem feito da parte da nossa (da dela) vida. Não sabemos se Zingarina se transforma, porque não a conhecíamos antes da jornada, mas a sensação que fica é de que algo forte aconteceu. Tanto a ela quanto a nós.

Pelo visto, o sentido da vida não estava onde os seus antigos conceitos determinavam, e por isso ela decide testar os novos, se apropria do que não é seu como se o trouxesse desde sempre nas entranhas. Do início ao fim, Transylvania foge da linha narrativa, escolhendo curvas e nunca retas.

Quem precisa de tudo minuciosamente explicado, melhor escolher a sala do lado.

Quem gosta de se entregar ao que assiste, pode descobrir no final de que o filme fala de uma coisa totalmente diferente nas voltas e voltas que dá, assim como esse texto.
Filme bom é assim, uma experiência única para cada um que a vivencia.

Tony Gatlif recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes em 2004 pelo trabalho anterior,  Exílios.