Salvino Campos
Edward Said não gostava de pensar as culturas em seu eixo histórico de lógicas internas e fechadas e dizia que as instâncias dialógicas globais eram hoje mais importantes do que qualquer consideração de passado nacional. É a partir dessa posição que se pode ver a exposição Analogias, do fotógrafo Salvino Campos, agora em cartaz no Mac-Niterói.
A construção das 20 fotos comparativas entre Havana, Rio e Nápolis se dá a partir de um espaço-coringa (consertos de rua, jogos de tabuleiro em praças, carros velhos) que age como uma base comum, uma situação de partida, a partir do quê surgem um turbilhão de narrativas, inscritas em cada rosto, todos parecidos. São pessoas o seu tema, mesmo quando o fotografado é um velho Wolkswagen - cheio de rugas.
Salvino não faz exatamente uma coleção de sinônimos/antônimos ou mesmo de heterônimos, pois apenas em um díptico, o de uma estátua em bronze ao lado do dorso de um capoeirista, a comparação formal se estabelece como tal. Nas outras fotos não há binarismos a serem contrapostos ou integrados, mas uma segmentação fragmentária de personagens vividos. É o que os une, a vida. E é também o que os individualiza.
Salvino consegue, assim, na individualização, um benvindo breque contra mitologias fundantes, extensível inclusive ao país onde esse brasileiro escolheu viver, pois o bronze em questão é romano e antigo. E porque seus indivíduos são urbanos, eles estão dentro de uma temporalidade contínua e acelerada que se sobrepõe à espacialidade formalista em que suas belas fotos poderiam incidir. O fato de preferir o tempo ao espaço determina uma escolha de Salvino a respeito de uma velha luta dialética que cobre toda a história da arte, com significados diversos ao longo de cada momento e contexto. Em movimentos modernistas oportunamente falecidos, por exemplo, a escolha era a contrária, e formas paradas, que se pretendiam perfeitas ou pelo menos imutáveis, em muito contribuíam para uma suspeita de proximidade com o pensamento fascista que dominou boa parte do período.
Hoje, em que de novo se acirram blocos, a atitude do artista, ao negar o diacrônico em favor do sincrônico, é uma denúncia contra as ficções a respeito de supostos destinos a que estaria submetido o seu continente de trabalho, o europeu, em contraponto, por exemplo, às novas levas imigratórias de turcos e africanos. E também o seu continente de origem, o nosso, cujo apelido de emergente faz supôr uma superfície reta e lisa, perfeita, que precisaríamos atingir ao sair de nosso mergulho a alguma profundeza, para, enfim, termos todos licença para respirar.
E mais, são fotos. Fotos fazem com que você veja melhor o que viu antes só com os olhos. Para quem conhece as três cidades, a exposição é comovente.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















