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Santiago

Não é de primeira que se entende a intenção de Santiago. O próprio João Moreira Salles demorou a descobrir do que falaria no seu projeto parte documentário, parte ensaio de linguagem, mas isso está longe de ser um demérito, pelo contrário. O que se percebe logo de cara é o vai e vem no material filmado, proporcionando ao espectador múltiplas viagens pelo preço de um único bilhete.

Há, por exemplo, a que fala da memória do diretor, que visita sem visitar determinada época da infância, passeando pela casa vazia que foi redecorada pela decupagem técnica, encarando a piscina onde nadou com os pais como uma imagem estática, uma coletânea de planos esperando movimento.

Há também o olhar técnico para o material parado. O documentário quase filmado que descansa na ilha de edição, nos negativos e mídias digitais, nas lembranças do dia de gravação que insistem em evocar lembranças mais antigas e devolver à vida ao que beirava o esquecimento, obrigando Salles a “terminar” o filme que um dia largou de mão.

O catalisador disso tudo é Santiago, mordomo que serviu à família de Salles quando ele era garoto, na estadia na casa da Gávea.

Salles aproveita esse entremeio e mostra também o processo de filmagem (uma viagem pelo cinema?), como as idéias mudam no meio do caminho, o quanto as cenas supostamente espontâneas precisam ser refeitas e outros detalhes mais. Planos pretos cortam repentinamente a imagem, de modo a quebrar o vínculo e obrigar quem assiste a inúmeros recomeços, assim como ocorreu com o diretor. Há o som sem a imagem, a imagem sem o som, combinação e independência. Vale fugir das palavras tempo e memória e pensar em uma próxima, a construção. As camadas se tocam suaves num simulacro de atividade neuronal. A informação se transforma em blocos que mudamos constantemente de lugar. Tiramos e recolocamos em ordem seja para montar um documentário belo com esse ou armazenar da melhor forma o passado, o nome criado para o que é vivido e não pode ser excluído dos registros.

De forma simplista, a memória é nossa ligação com o passado e a imaginação com o futuro. É isso o que mais surpreende em Santiago (o mordomo e o filme), seus comandos peculiares de vôo.

O mordomo cria para si diversas vidas, pesquisa a aristocracia ao longo do tempo, se desloca do Egito para França para Inglaterra. Ele existe aqui no presente, lúcido e inteligentíssimo. É capaz de reviver o passado vivido e o passado criativo, onde pode ser o que quiser. O melhor disso tudo: transportou da cabeça para o papel todas as suas pesquisas. Trinta mil folhas organizadas meticulosamente. O registro dos mortos, diz ele, nomeando-se guardião de histórias.

Por algum mecanismo interno, Salles impõe entre ele e o seu objeto fílmico não só a distância segura da câmera, mas a da mulher que o ajuda na entrevista e sabe-se lá o que mais. Ele explica no final (para si mesmo) que manteve sem perceber a relação de dono da casa e empregado. Não cabem julgamentos. Todos nós sabemos o quanto as viagens pela memória podem ser complicadas. Nem todo solo no passado é confortável, há nas curvas muito terreno pedregoso.

Estou de mudança para São Paulo. Ir lá procurar apartamento e voltar para o Rio foi como deixar o futuro e pisar novamente no passado. Desenraizar de seu próprio tempo é mais complicado do que largar velhos hábitos. A rodoviária funcionando como símbolo da passagem. Aquelas casas e ruas que eu não conhecia agora eram minhas, os táxis e curvas que sabia decorados não mais me pertenciam. Dentro de casa eu esperava encontrar um outro eu, rosto antigo, saindo do banheiro de barba feita, perguntando por onde eu tinha andado.

Salles, ao que tudo indica, preferiu sentar na beira da piscina e deixar os mergulhos para “Joãozinho”.

Dito isso, Santiago é um filme que transcende. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. Digno relato de um homem capaz de transformar um arranjo de flores em um recital de música clássica.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0009, em 2/9/2007

 

 

 

 

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