Camargo Guarnieri
Aconteceu na terça-feira passada (4/7) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro o primeiro recital do ciclo Um painel da Música de Camargo Guarnieri. Num total de quatro recitais e oito sessões, o evento relembra aquilo que já foi uma tradição em nossa cidade: os pequenos recitais e operetas da hora do almoço. Apresentando-se às 12h30, e para o público vespertino às 18h30, com o mesmo programa, a proposta do painel é mostrar, ao longo de quatro apresentações, diferentes espectros da produção camerística de Guarnieri: das chamadas pecinhas às obras de maior envergadura, como as sonatas e os quartetos, passando inevitavelmente pelos Ponteios. Apresentaram-se neste primeiro encontro do Painel Carlos Eduardo Vieira, barítono, muito culto da obra que se propunha apresentar, Márcia Guimarães, soprano, delicadíssima, e o competente Miroslav Georgiev, piano. No programa, canções, cantigas, e excertos de operetas e outras obras para canto.
Cabe destacar, de início, que Miroslav é pianista búlgaro e mesmo com um currículo que inclui um mestrado nos E. U. A. não seria de se esperar que fosse o mais brasileiro dos pianos. Mas foi. Muito competente nos contrapontos e arranjos sofisticados de Guarnieri, foi também gracioso, teve molejo, quando a interpretação assim o guiou, sem cair em confusões culturais rítmicas, sem entrar num pagode ou numa marcha rancho a perder de vista, fenômeno compreensivelmente comum a alguns intérpretes estrangeiros (e até brasileiros, é bom que se diga), e algo notadamente fora daquilo que o trabalho exige. Carlos Eduardo Vieira foi o mestre de cerimônias ideal. Sem sugerir ou engessar interpretações, falou à platéia, ora mencionando o contexto histórico, ora dizendo alguma curiosidade. Colocou fortemente sua respeitável opinião em sua fala, mas sempre deixando a valiosíssima brecha para que o espectador exercesse o seu papel ativo. A simpatia com o público sempre amacia o ouvido e favorece a dedicação prévia do ouvinte. Vieira foi também um barítono profundo, com interpretações apegadas apesar da leveza de algumas canções, mas ficou tudo de muito bom gosto, e essa é a frase do encontro: bom gosto. Márcia Guimarães é uma soprano experiente, e não precisa que se tenha lido seu currículo para se dar conta disto. Transborda tranqüilidade em seu desempenho, mesmo para um repertório menos vultuoso, pode-se observar claramente seu domínio expressivo, mesmo ao leigo em canto, executando passagens de piano para forte que davam gosto de ouvir. Destacaram-se no programa Dengues da Mulata Desinteressada, com texto de Ribeira Couto, realmente cativante, Ronco do Eco e do Desencorajado de 1949, com texto do mentor intelectual de Camargo, Mário de Andrade. Chamou a atenção não apenas pela interpretação, bonita, mas pela belíssima composição que, confesso, foi minha primeira audição (bem como de algumas outras canções também fora minha primeira audição – atire a primeira pedra quem possui todas aquelas canções de Guarnieri na discoteca – triste realidade). A sinistra e surpreendente Seca, sob poema de Sylvia de Campos, de 1958, retrata as mazelas do povo nordestino, sem deixar de reconhecer sua força imanente num final maestoso, curiosamente heróico – a despeito do que pensam os modernistas sobre este romântico conceito. Fruto de uma redução de orquestra, o arranjo é de arregalar os olhos.Mozart Camargo Guarnieri é um dos maiores compositores do Brasil, de todos os tempos, ou como diriam os mais entusiasmados, o segundo maior nome de toda a nossa música – atrás apenas de Villa-Lobos, sendo que para alguns chega mesmo a superar o mestre –, sendo Camargo, para estes, um dos maiores de todo continente americano. A Organização dos Estados Americanos, chegou a conceder-lhe o prêmio de “Maior Compositor das Três Américas”. Exagero monumental, de aficcionados? Nem tanto, talvez. De fato, o paulista Guarnieri, como poucos músicos, como raros artistas, conseguiu condensar em sua produção a essência da Semana de 22. Mais que isso, foi capaz de fazê-lo em sua própria biografia, gerando um uníssono agradável e paradoxalmente dissonante, vivendo ele próprio no coração do modernismo, inchado de ideais, mas completo do nacionalismo autêntico, consciente e erudito, que, comparado às acepções mais correntes e atuais do conceito, para não mencionar aspectos políticos, faz-nos rir, se antes não nos apavora; é trágico, sinistro, cômico. Facetas, aliás, de boa parte da obra de Guarnieri que naquele instante, jamais poderiam saber, aludiam profeticamente à falência cultural, tão rápida, dos maiores brasileiros do século XX, todos reunidos em uma, no máximo duas gerações, todos atuantes, e cujo imprescindível legado não demorou mais que isso para ser lançado aos fundos de baú. Não vamos propor, mais uma vez, resgatar o Camargo, bem como qualquer outro. Não me recordo que esteja seqüestrado o pobre Camargo ou algo que mereça o tal resgate – palavrinha já muito desgastada em meios culturais. Proponho algo simples, direto, e sem rodeios: vamos ouvir.
A oportunidade, para os cariocas, bate à porta com insistência, serão mais três encontros. Aos estudantes de música, a presença é no mínimo obrigatória, goste-se ou não de Guarnieri. A oportunidade, infelizmente, é rara. Aos outros, fortes recomendações de Camargo.
Fillipe Trizotto


















