Alguns comentários sobre leitura e escrita
Em 1984, por uma pequena editora, publiquei uma coletânea de poemas amarrados na idéia dos classificados de jornal. Eu trocava, vendia, alugava, buscava coisas abstratas e concretas, o possível e o impossível, misturando tudo como só a poesia sabe fazer. O livro Classificados Poéticos, para minha surpresa, mobilizou leitores de todas as idades desde o primeiro momento.
O que acontecia com esse leitor que lia os meus classificados? Ele se lembrava que também queria trocar alguma coisa na sua vida, no seu ambiente, na sua alma. E, ao se apropriar do meu texto, sentia uma grande urgência em construir o seu próprio classificado, em participar da minha proposta. Daria para encher uma casa a quantidade de poemas escritos a partir do meu livro.
Uma vez fui ao Sul, até a cidade de Garibaldi receber um prêmio. Uma mulher se aproximou de mim e me contou que sua filha havia tido uma doença grave, ficara um tempo sem caminhar e que um poema do livro Classificados Poéticos (quero asas de borboleta azul/ para que eu encontre/ o caminho do vento/ o caminho da noite/ a janela do tempo/o caminho de mim.) foi de grande ajuda para a sua cura. Ela dizia que o poema era dela, que a borboleta azul era ela e como a borboleta ela andaria/voaria outra vez. Claro que não foi o meu poema quem a curou, mas fiquei impressionada com a firmeza com que ela se apoderou do poema.
Outra vez participei de uma festa de natal num hospício no Rio de Janeiro, no Hospital do Engenho de Dentro, onde por tantos anos trabalhou a Dra. Nise da Silveira. Uma “louca” se aproximou da mesa onde eu estava sentada com meu livros e ao começar a folhear o Classificados Poéticos, parou num poema, leu em voz alta e me disse: “fala a verdade, você é maluca também, não é? para escrever uma coisa assim tão linda…” Pronto, o meu texto já era dela.
Os textos que amo circulam por meu sangue. Alguns personagens, alguns poemas, em alguns momentos me ajudaram a viver e me ajudam a escrever. Alguns escritores têm a escrita tão límpida que são o país onde quero chegar.
Recebo muitas cartas, muitas mensagens de leitores que se emocionaram com meus poemas e querem me contar isso. O meu texto provoca outro texto, o desejo da escrita.
É a leitura quem provoca a escrita. É a leitura que, qual um terremoto, agita as águas interiores, fazendo com que o leitor sinta a necessidade de escrever também. A escrita é uma conseqüência da leitura. Um bom texto funciona como uma bomba de dinamite no leitor. Ele quer também, ele quer alguma coisa. Alguém disse o que ele gostaria de dizer, alguém sente o que ele sente, alguém faz o que ele não tem coragem de fazer, alguém ousa e ele quer ousar, alguém sonha e ele quer sonhar. Ele então precisa dizer isso.
Quando eu era criança li um livro mágico. Falava de uma tribo na pré-história que tinha que partir antes do inverno chegar. Uma familia não podia ir pois o pai estava doente. Todos partem e a família fica. O pai morre e a mãe decide partir então para ver se alcança a tribo. Ela, seu filho de dez anos e um filho de quatro. O livro narra as peripécias da família, os perigos que têm de enfrentar até encontrar novamente a tribo. Durante a leitura me transformei no menino, mudei de sexo. Eu era ele violentamente. Quando o livro acabou eu quis escrever a minha primeira história. Eu precisava falar aquilo, a emoção.
Acredito que a leitura é a única escola possível para a escrita. E quando o leitor “fica dono” do texto, ele sente vontade de escrever.
Roseana Murray


















