Marcos Cardoso
Don Juan conquistava as mulheres pela palavra, era um poeta e não um marombado de academia. Daà a raiva. Criatividade dá sempre muita raiva. Há um detalhe da história que pouco ficou no imaginário popular. No final, ao visitar o túmulo do pai de uma de suas conquistas femininas, Don Juan usa o mesmo dom das palavras para zombar da estátua do seu inimigo. Suas palavras são tão poderosas que trazem a estátua à vida. E ela o mata.
A exposição Tradução, de Marcos Cardoso na Galeria Anna Maria Niemeyer, faz lembrar a história de Don Juan. E não porque se trata de obras de Picasso – um conquistador de mulheres – retrabalhadas. Mas por causa da estátua que volta à vida.
Picasso é um monumento. É difÃcil hoje se posicionar frente a seu nome de forma diferente da que adotamos com algo fechado, imutável, imponente. Picasso é a estátua de Picasso.
A não ser que.
Marcos Cardoso não dá a mÃnima para Picasso. Não chega a zombar, mas do mestre, aproveita as cores e olhe lá. Não são bem as suas cores, são parecidas, as que ele descobre nos rótulos dos produtos industrializados, nas embalagens. Pega-as dos amigos, a um passo do lixo. Sua intenção não é copiar as cores de Picasso mas torná-las mais vivas, melhores. São as cores do capitalismo, são as cores da sedução. São as melhores que há. Diz.
E refaz um Picasso mole, efêmero, montável e desmontável. Não é o Picasso que ele traz à vida, é sua morte, é a sua estátua. Não é Picasso que está vivo, ele está morto e engessado, mas sua morte é revivida neste exato instante por Cardoso, e mais no próximo instante que virá. É uma morte tão atual quanto o açúcar União, o rolo de papel higiênico Personal. E será atualizada sempre, a cada nova apropriação dos últimos e recém-lançados – e já no lixo – papeizinhos industrializados. Pois rótulos e embalagens falam de uma passagem de tempo muito especÃfica, o da circulação das mercadorias (e da nossa – indistinguÃveis, ambas). É um tempo incessante, e contemporâneo.
Mozart, Molière, Delacroix, Pushkin, Byron. Na Wikipédia há uma lista deles, os que se inspiraram na história original do burlador de Sevilha. Em todos eles a imobilidade triunfa, ela mata a criatividade que a trouxe de volta à vida.
Aqui também acontece algo parecido.
As obras de Cardoso são heteroglóssicas e dialógicas. Adeus autor. As imagens remetem a Picasso, sua constituição a alguma lata de lixo, o plástico reflete quem se põe em sua frente, e devolve, igual, a luz que as ilumina. O preço de renovar uma morte é a dissolução de um eu.
Além dos “Picassos”, há também um mapa do Brasil, feito com o mesmo processo de autoria difusa: o mapa é o mapa, não tem autor, e as embalagens idem. As embalagens que fazem esse Brasil são de alguma coisa que está sendo vendida em uma liquidação do tipo dois por um.
Cardoso faz o que faz e faz sabendo. Autoria e nacionalidade partilham o mesmo destino. Foram mortas pela hegemonia globalizada. Mas incomodam mesmo assim.
Ou: eu mato, eu morro e eu volto para curtir (Macalé).
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.







































