Dois perdidos numa noite suja
A montagem de Joana Levi e Laila Garin para Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos (SESC-Copacabana), é meio tímida e mesmo assim, no único momento mais ousado - um pênis de fora, nem todo, só a ponta - provoca a retirada indignada de um pai e suas três filhas na sessão em que eu estava (12/09).
Então não dá para saber para quem a peça está sendo remontada e qual sua adeqüação a uma “atualidade” que, pelo visto, é múltipla.
Há coisas bem boas: o pingo d’água de um vazamento marca o tempo durante o silêncio e a escuridão das entre-cenas; o cenário e figurinos monocromáticos indicam a exclusão de uma realidade colorida, fora do alcance dos personagens (tal opção, potencialmente monótona, recebe o apoio de uma iluminação localizada a destacar riquezas tonais nas cores neutras).
Há também um bom trabalho (atores Leonardo Ventura e Marcelo Valente) na construção corporal dos personagens Tonho e Paco, com um Paco que mantém os ombros permanentemente levantados, tensos - o que lhe dá grande fragilidade. E um Tonho que se dobra em dois em uma “dor de barriga”, na hora mesmo de sua única vitória, um bem-sucedido roubo, obtendo assim o mesmo efeito de fragilidade. Ambos, então, são corporalmente, visualmente, frágeis, independente do texto.
E é esse o ponto crucial de uma peça de texto tão forte e conhecido: o balanço entre texto e visualidade.
O texto tem questões datadas. Primeiro, o bom filho (Tonho), que quer ganhar dinheiro para ajudar a família do interior, tem uma candura difícil de engolir. Depois, a tensão sexual dos dois personagens é apresentada com uma contenção que não se sustentaria hoje. A homossexualidade latente dos personagens, aliás, poderia ter sido bem mais explorada do que foi. Afora uns xingamentos de “bicha” de parte a parte, pouco se vê sobre o assunto. Paco fica de cueca duas vezes, mostra a ponta do pênis uma, e isso é meio que tudo. A homossexualidade não assumida dos dois poderia oferecer a força visual que faz falta na montagem. Moscaram, pois o texto é entendido, hoje, como espantosamente não-violento. Há uma pantomima de como Paco usará seu cano de ferro com as vítimas do assalto - e ele surra o colchão da cama. Há lições de moral cristã com Tonho dizendo: “assalto não leva a nada, você faz um hoje e se dá bem, faz um outro e pode se estrepar.” E o único tiro, o que termina a peça, nunca é dado - é substituído por um silêncio e uma luz de Instituto Médico Legal (o que também é bom, embora tenha um efeito suavizador).
Fica essa falta, somada a muitos berros vazios (exceção: a boa interpretação de um Tonho que bate na mesa de dominó e berra: “eu preciso de um sapato”, durante um piti). Não são só os berros que caem no vazio, a movimentação de camas no cenário também é aleatória. Isso tudo faz com que o texto reine sobre a visualidade. A nudez masculina (que seria vista, aqui como alhures, de forma mais ofensiva do que a feminina), somada à pegação em lutas corporais que poderiam facilmente virar estímulos eróticos (apesar do risco de saída de espectadores mais conservadores), faria maravilhas para a qualidade da visualidade.
Fazem falta também recursos tecnológicos disponíveis hoje e que poderiam tornar os flash-backs do texto mais interessantes do que apenas histórias contadas (entre outras, Tonho conta como foi procurar um emprego em um banco, Paco conta como perdeu a flauta durante uma bebedeira).
É um pouco como se a equipe estivesse às voltas com Aristóteles, que identificava a visualidade e as músicas como os elementos mais primários de uma composição dramática, na qual trama, personagens - o texto, enfim - teriam maior importância. A velha dicotomia entre corpo e mente.
Texto: Plínio Marcos
Direção: Joana Levi e Laila Garin
Elenco: Leonardo Ventura e Marcelo Valente
Iluminação: Fábio Retti
Direção de arte: Joana Levi
Produção: Leonardo Ventura
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















