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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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19/09/2007

A guitarra flamenca cosmopolita de José Manuel León

Sirimusa é uma montanha localizada no norte do Marrocos. Pode ser vista do outro extremo do Estreito de Gibraltar, o sul da Espanha. José Manuel León, guitarrista flamenco, inspirou-se nessa montanha para produzir seu álbum “Sirimusa”, que pode ser considerado o seu début.

Primeiro há de se esclarecer uma coisa: León não é um guitarrista, mas múltiplos. Dono de uma riqueza de timbres e dinâmicas formidável (eu confesso que não conhecia as plenas capacidades do instrumento), aliados a um senso de polifonia e uma inteligência musical incomuns, cativa o público com sua música vasta, abrangente e expressiva. León tem também uma técnica muito bem desenvolvida, o que lhe proporciona meios para exprimir suas idéias musicais – e que idéias.

Sobre a inteligência musical: é aquilo que diferencia um artista de um grande artista, e, em alguns casos, um grande artista de um gênio. É o conjunto de escolhas musicais que o artista faz, aliado à sua concepção, seu fraseado e agógica próprios, junto com o senso polifônico. Traduzindo: é a qualidade de transformar todos esses nomes em música da mais alta qualidade.

O(s) estilo(s) de León é autêntico e interessante. Não pode se negar que é um guitarrista flamenco. Mas cada peça, mesmo que composta na mesma linguagem (têm todas o mesmo traço – o traço de León) diz, claramente, uma coisa diferente. O cerne, sim, é flamenco. Mas há jazz ali no meio. E funk. E música árabe, há tanta coisa, há até Debussy!

León incorpora uma vasta gama de estilos a fim de formar o seu próprio. Posto dessa forma, tenho que ressaltar que o resultado é coerente, coeso e maravilhoso. Pela fusão de vários estilos, o artista ressalta seus gostos pessoais, transformando sua música na expressão plena de sua personalidade musical. Somos aquilo que gostamos, não é mesmo?

As improvisações (aquelas peças eram improvisações?) que ouvi essa noite me fascinaram profundamente. Acho que, nós, pianistas, pensamos que polifonia, cantabile, variação de timbres, dinâmica e agógica são exclusividade nossa. Não poderíamos estar mais enganados. Hoje eu vi que um violão não é um violão, mas vários. Ao mesmo tempo pode ser uma harpa delicada ou um berimbau ríspido, um instrumento angelical ou um instrumento percussivo e frenético.

A sensualidade da música flamenca e a dramaticidade são expressos por meio de harmonias complexas e intrincadas (acabo de entender a influência da música flamenca em Ravel), que, com a devida boa vontade do ouvinte, é capaz de transportar para longe, para as distantes terras de Marrocos e sua bela gente.

Enfim, minha concepção de música (e arte) é: expressão. O artista usou seus incomuns recursos para exprimir, projetar ao público, suas impressões a respeito de sua terra. Em dados momentos me vi numa cabana, no deserto, à luz de uma fogueira, ouvindo uma história ou conto narrada ou cantada por um trovador nômade, um menestrel marroquino. Em termos de comunicação e expressividade León é nota dez e mostrou ser um jovem artista que sabe muito bem o que quer, uma personalidade musical sólida e madura.

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Pedro Taam é pianista, graduando em Física Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do Aguarrás.

A guitarra flamenca cosmopolita de José Manuel León



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