O Homem Provisório
A imagem é provisória. A memória também, passa tempo, reconstrói o homem e os espaços: o sertão. Riobaldo, nonada, ressurge para contar a história, tiros de matador, amor trágico e velado pelo quase esquecimento.
E quem traz ele de volta para viver brevemente (provisoriamente) em nossa retina e espírito é o bando de jagunços-atores da Casa Laboratório de São Paulo, dirigidos por Cacá Carvalho, que recria no palco o sertão de Guimarães Rosa em “O Homem Provisório” (em cartaz no Sesc Copacabana até 30 de setembro).
A representação transcende o espetáculo em encontros diversos – dos atores com o público, com o Cariri; de Guimarães com a música, com o cordel de Geraldo Alencar, com a xilogravura de Nilo; do teatro com a arte popular, com a tradição, de Cacá Carvalho, novamente, com a palavra de Rosa. Tudo ao mesmo tempo, tudo profundo e belo como um sonho que (quase) se esquece na manhã.
A Casa Laboratório, nascida de um projeto de intercâmbio com a Fundação Pontedera de Teatro (Itália), é um desses redutos de resistência do modo de fazer teatro de pesquisa em grupo.
Vem mostrando vigor desde o primeiro espetáculo (“A Sombra de Quixote”), com um grupo de jovens atores oriundos dos quatro cantos do país. Não à toa, este “Homem Provisório” tem cinco indicações ao Premio Shell de São Paulo.
Falemos do instante provisório, compreendido na hora de duração do espetáculo no palco: o desafio gigante de levar o universo de “Grande Sertão: Veredas” para a cena é vencido por caminhos simples, curiosos.
A luz e a cenografia, feita diversas camadas de cortinas ora opacas, ora transparentes, com painéis impressos do sertão constroem um efeito de distanciamento onírico, tornam possível o sertão imaginário e simbólico de Guimarães desenhado diante da platéia como num ato de memória que cria, recria, aproxima e distancia, desmancha e refaz cada ato, cada personagem no enredo dos jagunços e da história de amor de Diadorim, na luta contra o cramunhão. Torna o público agente dessa recriação, como Riobaldo em sua travessia.
Mas o efeito plástico, ainda que belo, não daria conta de todo o universo do sertão fantástico e visceral de Rosa. Era preciso a palavra: a boa palavra. Como sintetizar o épico de Rosa para a cena? Cacá Carvalho e seus jagunços encontraram-se no Cariri com o poeta Geraldo Alencar, parceiro de Patativa do Assaré, e apresentaram a ele o Grande Sertão: Veredas e pediram um poema ao cordelista. O resultado foi uma narrativa em 120 poemas de cordel, de onde saiu a palavra da peça.
E era preciso dar espírito às palavras e à plasticidade. Trabalho para atores, dirigidos por um ator. Em quarenta dias de vivências do grupo na expedição pelo sertão do Cariri, veio ainda a religiosidade, a história entranhada e árida no lugar, a passagem de Lampião, o frescor das crianças da Fundação Casa Grande e a música, profunda e ancestral, cuja presença no espetáculo abre todos os canais de contato do público com as raízes secas desse sertão sem início ou fim. Chegou-se ao Nonada.
Tudo absorvido e transformado pelo grupo de atores, agora jagunços. Difícil destacar um ou dois do elenco composto por Dinho Lima Flor, Fabiana Barbosa, Joana Levi, Laila Garin, Leonardo Ventura, Majó Sesan, Marcelo valente e Raquel Tamoio. A força resulta do todo orgânico conquistado pelo grupo em cena, pelo canto que vibra em todos, pela entrega ao trabalho e pela visível busca por uma arte virtuosa que não se perca em mera técnica, mas que chegue carregada do espírito, do sertão que está por toda a parte, do que existe, homem humano. Nonada.
Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.


















