Eres Kigal
São três atores que fazem o papel de esculturas, um outro que é o “escultor” (único personagem a receber um nome: Eres Kigal) e mais a atriz - dublê de autora, produtora e diretora - Camila Diehl, no papel de “curadora”de uma suposta “exposição”. O embate entre os cinco é a peça Eres Kigal, do grupo Teatro da Transcendência, que se apresenta no Casarão da Bambina (Rua Bambina 141, em Botafogo, RJ).
É uma peça para criadores, não importa em qual arte. Qualquer um que já tenha passado uma noite a sós frente a aquilo que faz (seja texto, imagem ou a própria vida) vai adorar. Se for mulher, vai adorar em dobro: a peça tem trechos engraçados, com um feminismo sarcástico. Aliás, tem mais do que isso. A crítica vai além do lugar masculino visto como o default do criador modernista e mesmo contemporâneo. O texto critica meio que tudo.
Algumas frases:
Kigal tem uma vida aventurosa e fala “todas as línguas do planeta” mas, quando abre a boca, sai inglês. Inglês com sotaque vagabundo. Ele diz: “I feel something deeper and deeper”, sendo que o something é algo como somessingue. Sua figura, com flamejantes calças de plástico brilhante vermelho, completa o deslocamento do lugar masculino da criação artística.
Camila Diehl assume uma voz sexy-bandalha, como as que anunciam vôos e atrasos de vôos com igual entonação pausada e vazia nos aeroportos da vida. “Observem o tornozelo, a estrutura espinhal, a cutícula, a orelha. As obras são em número limitado, aproveitem nossas promoções.”
As esculturas, diz ela, foram “engendradas durante uma crise de identidade” do escultor. Criadores, diz o texto, não deveriam ser entendidos como entidades masculinas e sim femininas. Haverá, posteriormente, um pastiche de parto, com o nascimento de três bonequinhos de plástico, a explicitar que a biologia é fundante mas não suficiente. Diz ela, irônica: “a genialidade é prerrogativa masculina.” E depois faz o comentário: “cobre-se o homem de glória, viril e tolo.”
As esculturas, jovens atores vestidos com saias que depois despem, são o pesadelo de qualquer criador, ao adquirir uma vida que entorta a segurança de quem é espelho e quem o espelhado. Uma das esculturas diz: “acho que posso ouvir uma respiração, não é minha, eu não respiro.” Não respira mas, como qualquer criação, é potencialmente destrutiva. Deixadas soltas, elas tentam comer o escultor, atacam sexualmente a curadora. Ao ver que as coisas não estão correndo bem, o escultor tenta consertá-las, quem sabe um batonzinho nos lábios resolverá tudo. “It is just a detail, a small detail.” É inútil. Nus e com pênis, as esculturas agora se dirigem ameaçadoras para a platéia. Essas aproximações com a platéia são sempre um teste para atores. Estes se saem muito bem, sem excessos mas mesmo assim intimidantes.
“I’ll tell you a story”, diz o escultor, em uma de suas tentativas de dominar a situação. Ele passa, a peça inteira, procurando um sentido transcendente naquilo que faz. Não consegue. Há corpos, há a materialidade das “obras”, e isso é tudo. “It’s just a body”. São corpos, o que sai deles são fluidos corporais, não há transcendência, não há sentido, só há beleza. As esculturas, em suas danças e andanças no palco, fazem referência a belezas anteriores: As Três Graças - reproduzidas por Rubens, Rafael e tantos outros; ou a Pietà, idem, idem.
Em geral a relação dialógica entre obras diferentes, ou entre uma obra e seu criador, parte da premissa de que estamos lidando com totalidades de limites bem delineados. Esta é uma representação artística chamada Eres Kigal, que faz referência a outras representações artísticas como as Três Graças ou que, no decorrer de sua criação recebe impulsos díspares do seu criador, que é, ele também, uma identidade definida.
O valor dessa peça é pôr em xeque a noção de identidade definida. A curadora parece ter mais consciência do processo criativo do que o escultor, os dois e as esculturas alternam a posição de poder. E também não há identidade definida em uma peça teatral que apresenta “esculturas”, categoria artística definida pela imobilidade. Em uma peça teatral que assume em seu texto a sua própria montagem e a presença do público: “acha mesmo que eles entendem alguma coisa?”
Nos agradecimentos ficcionais do texto da peça, os agradecimentos reais aos patrocinadores obtidos: a rede SBT, o clube de assinantes de O Globo, uma academia de ginástica, a Lidador. E Deus. E até nessa hora, a palavra que aponta para todas as transcendências vem em um último sarcástico lugar.
nota: Camila Diehl tem cinco de suas peças publicadas pela editora Ibis Libris. O livro se chama O teatro da transcendência e as peças são: Lilith, Aeternitatis, Sistema Quântico, Silenciosas sentinelas de pedra, Amêndoas e caracóis.
Texto e Direção - Camila Diehl
Música original - Luciano Leite Barbosa
Cenário e Figurino - Daniela Alves
Preparação corporal - Wendel Soares
Iluminação - Camila Diehl
Produção - Camila Diehl, Viviane Paganini
“Esculturas” - Vinicius Mochizuli, Átila Bezerra, Lucas Valentim
“Escultor”- Wendel Soares
“Curadora” - Camila Diehl
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















