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Jogo de Vida e Morte

Um milionário escritor de livros policiais vivido por Michael Caine. Jude Law fazendo um ator desempregado que é amante da esposa do escritor. Uma casa com tecnologia de ponta e decoração vinda do universo de Kubrick. Kenneth Branagh explorando de todos os modos a claustrofobia do texto de Anthony Shaffer. São esses os componentes de um dos melhores filmes do ano, um thriller que beira a perfeição.

Um Jogo de Vida e Morte é uma versão de Jogo Mortal (1972), em que Caine viveu o papel que hoje é de Law. Versão e não refilmagem porque não parte do roteiro original de Jogo Mortal, mas da peça de Shaffer. Quem assina o novo roteiro é Harold Pinter, Nobel de literatura, um especialista em utilizar a paranóia como elemento de linguagem.

Um Jogo de Vida e MorteO filme começa com o carro de Milo Tindle estacionando em frente à porta de uma mansão. Depois de toques insistentes na campainha, alguém abre a porta. Não vemos quem é. Só ouvimos as apresentações. Andrew Wyke, ele diz. E assim ficam os dois parados, respiração suspensa à espera dos acontecimentos, apenas a mão para o lado de fora solícita ao cumprimento. Branagh filma de cima, faz Milo conversar com o vazio, uma escuridão que o espectador ainda não pode conhecer. É uma brincadeira com os sentidos. A importância da voz, do tom de voz, das palavras, mais do que a imagem. É também a quebra de dois mundos: o externo (que logo não terá nenhuma importância no filme) e o interno, a tal escuridão, pronta a se revelar. Quando Milo finalmente entra na mansão, a arquitetura salta aos olhos. Foi a esposa de Wyke que projetou a casa. Cada detalhe pensado para transformá-la em um personagem vivo.

Um Jogo de Vida e Morte só possui dois atores: Michael Caine e Jude Law. É um desafio de interpretação constante, de transformação e desdobramento em diferentes facetas do caráter humano. Para acompanhá-los há então a casa, fundamental para a trama, e há a direção de Branagh, tão precisa e marcante que a considero também como personagem. Branagh não desperdiça um plano sequer, explora reflexo de espelhos, jogos de luzes, imagens duplicadas, distanciamentos marcados pela mobília. Ele utiliza ângulos que obrigam o espectador a buscar constantemente novos pontos de vista, enquanto desenvolve cuidadosamente o suspense da trama.Um Jogo de Vida e Morte

O filme um híbrido curioso de teatro e cinema. Para controlar a parafernália tecnológica, Andrew Wyke usa um controle remoto (que na verdade é um iPod) que liga e desliga tudo o que ele quer em um único botão. Há cofres escondidos, aquários que se movem, paredes que abrem e fecham, câmeras por todos os lados, truques e mais truques simulando um labirinto.

Um Jogo de Vida e MorteA trama é uma desculpa para o embate intelectual e psicológico. A esposa de Andrew Wyke fugiu de casa para viver com Milo Tindle. Wyke, excêntrico como tudo que emana dessa produção, não quer dar o divórcio. A esposa (que nunca aparece) sugere então que Milo Tindle vá à casa de Wyke convencê-lo a dar o divórcio. Wyke diz que aceita o divórcio se Tindle participar de um pequeno roubo. Tindle precisa roubar o próprio Wyke, com a ajuda do mesmo. Com o cenário apresentado, a trama explicada e os personagens definidos, começa um jogo de gato e rato onde os nem sempre é possível distinguir os papéis. Intelecto e sexualidade ocupam o mesmo patamar. A inteligência é sedutora, as vitórias do intelecto são orgásticas. Tudo funcionando para ampliar a tensão.

As surpresas ficam por conta dos tais personagens definidos, que parecem dispostos a mudar a cada instante. Como a mansão e os jogos de imagens de Branagh, aqui, nada é o que parece.

Um Jogo de Vida e Morte Um Jogo de Vida e Morte

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0009, em 26/9/2007

 

 

 

 

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