Bubble
Eytan Fox é conhecido no Brasil pelo longa-metragem Delicada Atração. Nele, o diretor explora o romance entre dois soldados israelenses, aproveitando o ambiente de isolamento criado pela guerra para redimensionar a questão do preconceito. Enquanto os protagonistas conquistam espaço para viver seus sentimentos (um escondido, o outro abertamente), Eytan lembra que a morte é democrática e não escolhe sexo, cor ou religião, pontuando o romance com um toque de tragédia. Em Bubble a fórmula complica um pouco mais. Dessa vez, o casal é formado por um israelense e um palestino.
É possível viver uma vida normal dentro de uma bolha e esquecer que o país/ cidade/ mundo está em guerra? Eytan usa o título Bubble para se referir tanto à zona artística de Tel Aviv onde se passa a maior parte do filme quanto ao café onde trabalha Yali (Alon Friedman), um dos personagens gays. Lá dentro, não existem problemas, só felicidade num cotidiano comum. A guerra fica em outra Israel, que só existe nos noticiários.
Yali divide o apartamento com dois amigos de longa data: Lulu, uma jovem cansada de viver à sombra de confrontos, e Noam, vendedor de uma loja de cds que faz alguns trabalhos no exército. É Noam (Ohad Knoller) que cruza o caminho do palestino Ashraf (Yousef ‘Joe’ Sweid). Quando começam a namorar, Ashraf passa a morar clandestinamente no apartamento dos três amigos, já que não possui visto permanente para viver em Israel e as idas e vindas na fronteira são uma verdadeira saga. Logo ele arruma um emprego no restaurante-café de Yali, e tem que decidir entre a nova identidade ou suas origens, conflitantes com sua opção sexual.
Eytan Fox trata inicialmente as diferenças entre os povos com um toque de humor. Ashraf precisa mudar o tipo de roupa, controlar o sotaque e escolher um nome judaico para trabalhar no café. Tudo é tratado de forma leve e os personagens parecem interessantes.
É claro que a farsa não se mantém de pé por muito tempo e o filme adquire ares sombrios, com os temas políticos engolindo o restante.
Quando isso acontece, o diretor aproveita para ampliar os alvos de sua crítica. Aparece então o terrorismo, o preconceito do mundo árabe contra gays, a repulsa da família de Ashraf, homens-bomba fatigados emocionalmente, flagelados da guerra, amores impossíveis e outras coisas mais.
Para a transição, Eytan cria uma rave na praia, que é organizada por Lulu num protesto contra os postos de ocupação de Israel na Palestina. Ao mesmo tempo em que usa a música como símbolo da liberdade (afinal, não tem fronteiras), crítica também a alienação, deixando todos os personagens drogados de ecstasy. É o último momento em que o espectador pode respirar antes da seqüência de desgraças.
Bubble poderia ser um excelente filme, mas a ousadia dos temas abordados não compensa os equívocos do roteiro e as falhas de direção. Tudo que Eytan acerta nos momentos felizes, ele erra nos de tensão. Por exemplo, quando o exército invade uma área repleta de terroristas, os tiros matam apenas inocentes. Os terroristas, aliás, são muito compreensivos e amorosos, cheios de boas intenções. Não é uma questão de julgamento, mas de soluções fracas para fazer a trama andar. Se fosse um filme de terror, provavelmente um dos personagens deixaria cair a chave no chão, quando o psicopata se aproxima, controlando a tremedeira só no último momento.
Querer falar de tudo ao mesmo tempo é um erro clássico, que nunca gera bons frutos.
Como bem diz a irmã de Ashraf, “isso já está parecendo novela”.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















