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Um Painel da Música de Câmara de Camargo Guarnieri

Terminou na última terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, o ciclo “Um Painel da Música de Câmara de Camargo Guarnieri”. O evento, em quatro apresentações, teve como principal iniciativa apresentar de forma abrangente, sem distribuir peças a esmo pelo programa, sem perder o sentido de cada forma musical trabalhada, explorada ou mesmo criada pelo grande mestre, parte da obra camerística do compositor.

No primeiro encontro, o ouvinte atento, o estudante alerta, o espectador curioso, teve a oportunidade deliciosa de ouvir canções com poemas de alguns grandes escritores brasileiros, entre eles Mário de Andrade, mentor intelectual de Camargo. Talvez, de todos os encontros, tenha sido o mais oportuno, tanto para os mais entusiasmados – paradoxalmente, haja visto as obras de maior envergadura nos outros três encontros seguintes – quanto para os mais desavisados da obra de Guarnieri. Não é fácil encontrar por aí gravações dessas peças. Elas nos fazem lembrar um outro Brasil, onde a conquista da brasilidade era algo no ar, onde a apuração erudita do regionalismo não era antropológica nem caipira.

O segundo encontro, com a dedicada violinista Tânia Camargo Guarnieri, filha do compositor, e Lais de Souza Brasil, pianista experiente. Foram exploradas as sonatas para violino e piano. A Sonata nº 2 (1933), a Sonata nº 3 (1950) e a  Sonata nº 4 (1956), esta última sem dúvida o ponto alto, altíssimo, do encontro. Complexa, moderna, original, uma obra grande, verdadeira, atual.

O encontro seguinte deu lugar aos falados Ponteios. São prelúdios, mas o modernista preferiu um nome mais brasileiro, não apenas por fachada, mas, segundo o próprio, “para expressar esse caráter brasileiro”. A pianista russa radicada no Brasil, Olga Kiun, foi mais que competente. O 5º caderno (os ponteios são divididos em cadernos), último a ser exibido, foi esclarecedor. O nº 49 e nº 50 deixaram todos com a melodia na cabeça após o espetáculo, para o desespero dos que, no âmbito da música de vanguarda, odeiam melodias.

O encerramento se deu na última terça-feira, perdoando-me pelo chavão, “com chave de ouro”. Uma apresentação camerística clássica: o quarteto. Composto por um violoncelo, dois violinos (cada um fazendo uma linha, há os primeiros e os segundos violinos mesmo em orquestras sinfônicas) e uma viola. Sobre a forma de quarteto, convidam-nos à imaginação algumas histórias, não necessariamente no sentido da ciência história. A mais conhecida é de que o grande compositor clássico Haydn, um dos precursores desta forma camerística, queria compor uma sinfonia (para uma orquestra), mas o local onde haveria o espetáculo musical não tinha mais do que meia dúzia de músicos, compor para um pequeno grupo foi, então, inevitável: cada instrumento do quarteto é como se fosse um naipe de uma orquestra. Não que a formatação fosse invenção dele, mas coferir-lhe caráter autoral, e logo de um Haydn, foi coisa nova. O quarteto em questão, o Quarteto Glazunov, composto por Yuriy Rakevich, Inna Meltser, Vladmir Klementiev e Watson Clis, não prestígio à nobilíssima áurea de tradição que o formato encerra. O eslavismo exarcebado do grupo, que salta aos olhos nos nomes dos integrantes, e no nome do próprio grupo – Glazunov –, é coisa que faria o Mozart Camargo notar. Entrentanto, aos olhos de um espectador cosmopolita de um CCBB do Rio de Janeiro, talvez não tenha significado nada. Atentos, focados (parar usar um termo da moda), o grupo Glazunov, do mais alto padrão técnico, de elevada concepção artística, apresentou deslumbrante música. Como todas as obras de Guarnieri, os quartetos têm harmonia complexa, ritmo ousado, proposta avançada. As dissonâncias sempre incomodam os mais fracos, os menos interessados e os desavisados. Mas, no caso de Guarnieri, a proposta desagrada mesmo a grandes ouvintes, há que se admitir. E aqui vai a opinião do escriba, que não vale mais do que a de qualquer leitor: gosto mais das obras da maturidade de Guarnieri. Evito expor as razões para não influenciar, e nesse contexto fica difícil escolher um quarteto, dos três apresentados, senão o nº 3 (1962). Os outros, o nº 1 (1932) e o nº 2 (1944) são obras, sem dúvida, de nível elevadíssimo. O nº 2 foi premiado nos EUA, em Washington, levando o primeiro prêmio do Concurso Internacional para Quartetos.

Parabéns aos organizadores, patrocinadores e produtores. Quando escrevi, num texto este ano, sobre o centenário de Nascimento Guarnieri (1907-2007), “Viva Camargo!”, não imaginava que a vivacidade seria tanta. O último movimento apresentado no painel, o do Quarteto nº 3, chama-se “vivo e ritmado”, assim seja, Guarnieri!

 

 

 


Fillipe Trizotto

 

editoria: edicao_0009, música, em 29/9/2007

 

 

 

 

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